Mostrando postagens com marcador Sexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sexualidade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

NO ENCONTRO DO SOL COM A CHUVA

Praia da Costa - Vila Velha / ES - 18 de setembro de 2011

É o Tempo quem nos faz melhor. É ele o possuidor do dom de fazer com que evoluamos a ponto de, ao pararmos por qualquer motivo, termos consciência do que fazemos, do que escolhemos e do que (ou quem) é necessário ser revistado, alterado ou retirado de nossa vida.

Tenho aprendido com esse mesmo Tempo que as melhores coisas acontecem quando menos esperamos. O melhor é fruto do natural. Sem ser forçado, articulado, para que ocorra. Hoje entendi que da mesma forma, a felicidade é um ato de escolha.

Muitas vezes sofremos porque insistimos em pessoas, relacionamentos, instituições, circunstâncias que já não encontram espaço em nosso presente. E se, seja qual motivo for, estão no passado, é porque lá é o seu lugar. Nosso erro é tentar resgatar, seja à custa da dor que tenhamos que sentir, para fazer do presente uma continuidade do passado, que já passou.

Abrir mão desse passado é um ato de coragem. É um ato de ousadia. É um ato de gente que tem personalidade. É, acima de qualquer outra definição, um ato de amor próprio. Desistir de insistir em trazer para o presente alguns fantasmas de um passado que já se encerrou é ter a consciência de que somos nós quem permitiu às pessoas fazerem parte de nossa história de vida. E mais que isso, se por algum motivo estão no passado, é porque lá é o lugar delas. Se em suas estadias na existência de nossas vidas tivessem trazido somente coisas boas, com certeza, a noção de passado não existiria nesse relacionamento. O presente ainda seria o único existente.

Decidi que agora as pessoas só podem entrar na minha vida se for para me fazer bem, caso contrário, são altamente dispensáveis. Eu, amante dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana, que necessito de uma prática de alteridade para vivenciar tais conceitos e impregná-los na minha alma, corpo e espírito, socorro-me, nesse momento, à Soren Kierkegaard, quando afirma: "Acima de tudo, não se esqueça da obrigação de amar a si mesmo."

Permitir-me envolver com as pessoas e por elas despertar e nutrir alguma espécie de sentimento é uma escolha. Amar a mim mesmo é diferente, é minha obrigação. E amar é, nas palavras do apóstolo Paulo, também sofrer. Se amar a mim mesmo é sofrer pela decisão de dispensar (isso mesmo, esse é o verbo tônico dessa análise) algumas pessoas da minha vida, que assim seja!

Cansei. E cansei de insistir em algo que já não tem o porquê existir. Não me leia como um rebelde sem causa. Até porque nesse contexto não tem causa. Ela já é passada. A decisão agora é viver bem o presente. Só o tenho para construir. Meu futuro é tão incerto como a possibilidade de voltar ao passado e, ao tentar trazê-lo para o presente, obter êxito.

O mar da vida não permite segunda chance! O arco-íris e suas sete cores só aparecem quando o sol brilha sobre gotas de chuva. Só por isso, esse é um fenômeno raro. Assim também é o amor! Raríssimo, porém quando acontece, é inesquecível.

O arco-íris do amor próprio é tentar conjugar as cores multifacetárias da vida e os encontros que escolhemos vivenciar. Selecionar melhor esses encontros é decidir por aceitar em sua vida só o brilho forte e iluminador de pessoas que só podem lhe fazer o bem e a suavidade do amor que emerge nesse envolvimento.

Por ora, decidi ouvir o sábio Tempo. Com ele ouço o barulho do mar da vida, que não me permite segundas chances. Mas é nele que posso contemplar a perfeição que é existir, quando me permito a ser gotas de chuvas indo de encontro com pessoas iluminadas, que carregam em si fortes luzes que clarearão os melhores caminhos para minha vida.

Se as luzes já se apagaram, se as gotas de chuva já evaporaram, se as cores do arco-íris já se dissiparam, é porque as marcas já estão postas. Estão escritas num passado, que pode até por algum período ter sido bom, mas que já se encerrou. Parar de insistir em resgatar o passado é se posicionar por amar a si mesmo, obrigatoriamente, como a melhor forma de viver o presente.

Como o mar da vida é grande, sempre cabem novas caminhadas e novos encontros, novas gotas de chuvas, novos encontros com luzes diferentes e a possibilidade de produzir o que for necessário para  aparecer novos arco-íris... isso tudo, somente enquanto o Tempo assim me permitir.

Tempo, Tempo, Tempo. Sábio Tempo!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

PARA LER MICHEL FOUCAULT – FINAL


Obs: Esta postagem encerra o esboço apresentado pelas duas últimas postagens. Sugiro a leitura preliminar destas, para a perfeita compreensão do texto abaixo. Leia a Parte 1 e a Parte 2

A terceira parte deste estudo trata da Genealogia, tendo como referências as produções de Foucault durante os anos de 1970 a 1984. É nesta fase que se apresenta as “polêmicas e os combates” do autor, tendo como finalidade a análise do discurso tido como verdadeiro portador de poder.

As obras ‘Vigiar e Punir’ e ‘História da Sexualidade 1: a vontade de saber’, completam a análise de Vilas Boas sobre o momento genealógico do acervo foucaultino.

1. UMA ECONOMIA POLÍTICA DO CORPO:A obra “Vigiar e Punir” marca a transição da arqueologia para a genealógica de Foucault. É referência dos acontecimentos e experimentos feitos pelo autor a partir de 1968, em relação à psiquiatria, à delinqüência, à escolaridade, etc. É nesta obra que Foucault deixa explícita sua reflexão do entrelaçamento do saber no poder. (pag. 69).

Foucault utiliza-se de um conjunto peremptório afirmando que: onde o poder produz saber; poder e saber estão diretamente implicados; não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber; também não há saber sem que haja ou se constituam, ao mesmo tempo, relações de poder. (pag. 69 e 70).

Nas obras arqueológicas Foucault já problematizou a permeabilidade dos discursos às práticas sociais, apontando para a permutabilidade entre o nível discursivo (o saber – episteme) e o extradiscursivo (as práticas sociais). (pag. 70 e 71).

Na obra “Vigiar e Punir”, o autor trabalha outro eixo: o dispositivo, sendo “um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas (...) Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo ...”. (pag. 71).

Visava tal eixo servir como instrumento para a análise do aparecimento histórico das instituições, entendidas como sistemas de coerção, seja discursiva (enquanto saber), seja extradiscursiva (enquanto aplicação social). É análise de como as instituições, enquanto elementos de um dispositivo, articulam as relações entre a produção do saber e modos de exercício do poder. Para exemplificar, Foucault se serve do exemplo do desvendamento da historia genealógica da prisão, entendida como instituição em torno da qual se ergue todo um regime de verdade, um saber, técnicas, discursos científicos, e o poder de punir, naturalmente. (pag. 72 e 73).

Eleva a análise para o estudo que denominou como “economia política do corpo”, estudando a metamorfose dos métodos punitivos a partir da tecnologia política do corpo onde se poderia ler uma historia comum das relações de poder e das relações de objeto. Nesta história, há um dispositivo chamado de disciplinar. Utilizando-se da ilustração proposital da prisão, Foucault visa o processo que leva o homem a elaborar uma vontade de supliciar, de punir, mas também a uma mitigação das penas bem como ao desenvolvimento de um processo de interiorização do controle disciplinar, da inscrição desse controle no seu próprio corpo. (pag. 73 e 74).

Numa análise sobre o corpo, passa por várias possibilidades de análise, como demográfica, patológicas históricas, como sede de necessidades e apetites, como lugar para processos fisiológicos e biológicos. Entretanto, adentro no campo político e sobre as relações de poder sobre ele. Tal relação de poder o invade, o marca, o dirige, o suplicia, o sujeita a trabalhos, o obriga a cerimônias, exige-lhe sinais. Entende que todo investimento ao corpo visa a sua utilização econômica, entendido como força de produção, sujeitando-o a um sistema de sujeição. Assim, o corpo só se torna força útil se for ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. (pag. 75 e 76).

A analise genealógica incube então à analise da tecnologia do corpo, como um investimento político, onde se é desenvolvida toda uma relação de poder através da apropriação de um saber sobre o corpo. Neste contexto, a alma deve ser vigiada, treinada e corrigida, controlada durante toda a sua existência. Não se considera a alma como efeito e instrumento de uma anatomia política, como prisão do corpo. Assim como o conceito teológico cristão, a alma já nasce faltosa e é merecedora de castigo, esquecendo-se que ela nasce antes de procedimentos de punição, de vigilância, de castigo e coação (pag. 77).

Prossegue Foucault afirmando que a genealogia do poder se inscreve fora da tradição da ciência política e mesmo da filosofia política, que tomam o poder como função coercitiva do Estado. Ele – o modo de exercer o poder – se estende por sobre toda a sociedade, assume formas institucionais e mesmo corporais concretas de técnicas de dominação. Esse poder atravessa corpo, estruturando-se como meio e o fim, de forma minuciosa, alcançando os gestos, as atitudes, os comportamentos, modos de falar, de estar, de ser. (pag. 78).

A análise do autor permite a compreensão do fato político de o Estado não ser o único lugar que promana o poder, ele nem mesmo é a fonte do poder. Não está em nenhum lugar especifico da estrutura social, mas se nessa rede de dispositivos de que ninguém escapa. Assim, o poder não é algo que alguém detém, não é uma propriedade. O poder se exerce, assim, o poder não existe, o que existe são práticas ou relações de poder. (pag. 79).

O poder se dá como uma estratégia, que seus efeitos não são atribuídos a apropriação, mas a disposições, à manobras, táticas, técnicas, a funcionamentos; que se desvende numa rede de relações sempre tensas, sempre em atividade, e tais relações aprofundam-se dentro da sociedade, não se localizando nas relações do Estado com os cidadãos ou na fronteira de classes. Foucault não associa poder meramente como forma de repressão. Para ele, há poder negativo (que exclui, reprime, recalca, censura, abstrai, mascara, esconde) e poder positivo (que produz, produz realidade e campos de objetos e rituais da verdade). (pag. 80 e 81).

No ponto de vista de Foucault, o poder, para ser eficaz deve produzir uma positividade, de tal modo que o incremento da vida social tem, como preço, o adestramento do corpo, a disciplina do corpo. A disciplina do corpo fabrica corpos submissos e exercitados, corpos dóceis, ela aumenta as forças de utilidade de corpo e ao mesmo tempo diminuição sobre forças em termos políticos de obediência. (pag. 82 e 83).


Assim, a genealogia preocupa-se com a causalidade, valorizando antes a categoria de acontecimento, a proveniência e a emergência dos acontecimentos, relativizando o saber, visto que se autocompreende como um olhar que sabe tanto de onde olha, quanto ao que olha. Assim, com “Vigiar e Punir” Foucault operacionaliza duas operações teórico-práticas: a) analise das práticas sociais e dos saberes por elas instituídas e pela própria constituição do sujeito do conhecimento; b) a utilidade de um discurso enquanto força coercitiva, sendo as ciências humanas tal força, para adestrar e disciplinar o corpo, transformando-o submisso (pag. 84 e 85).

“Vigiar e Punir” representa a tentativa de analisar a proveniência e a emergência de dois acontecimentos: o saber e o poder. O saber representado pelas ciências humanas e o poder pelas relações históricas consideradas ao nível macro e microfísico. Uma tentativa de compreender o investimento político do corpo, num campo político – o corpo como acontecimento, propondo assim uma analise da economia política do corpo. (pag.86).


2. SEXO, CONFISSAO E INDIVIDUALIZAÇÃO:



Antes de entender a problemática central do livro “A História da Sexualidade 1 – A vontade de saber” é necessário o entendimento de dispositivo, conceito segundo Foucault, que se refere a “um conjunto de elementos que abarcam desde discursos a instituições, organizações arquitetônicas, leis, enunciados científicos, etc, cuja função estratégica ou política, é ser o elemento imprescindível para a manutenção de uma forma de dominação”. (pag. 87)

Na obra citada acima a sexualidade é o dispositivo analisado, entendido como forma de poder das sociedades ocidentais, enfocando o sexo enquanto núcleo onde se aloja a verdade dos sujeitos humanos e da espécie. Para tanto, é necessário a superação da representação da sexualidade, que consiste na associação com repressão, processo linear e irreversível da sexualidade ocidental. (pag. 88)

Foucault critica a hipótese repressiva da sexualidade, apresentando três hipóteses que procuram fazer com os discursos serem considerados como verdades, causando efeitos. A primeira hipótese é a associação da repressão sexual com o advento do capitalismo: o adestrado do corpo para focar a capacidade da força viva do corpo para o trabalho. A hipótese segunda é que a repressão sexual é um dos elementos fortes do processo de dominação social, onde o discurso que invista contra tal repressão é considerado transgressão, que procura a libertação e resistência à dominação. Já a terceira hipótese, é que a analise da sexualidade fora da repressão é considerado pelo conceito de poder do discurso da repressão como ‘mentira’, assim, contrariar tal discurso, na realidade, significa fazer esse objeto considerado negativo falar a verdade sobre o sexo. (pags. 89 a 91).

Não obstante, para Foucault, a repressão sexual é positiva. A repressão e a crítica a tal repressão na realidade faz com que as relações de poder se desestabilizem. A positividade da repressão se justifica porque a ação sobre o corpo do individuo faz com que o se evite a percepção do poder em sua forma crua de violência e cinismo. Ao mascarar esse poder cria-se um espaço de aceitação do poder do sexo na medida em que se apresentam como puro limite traçado à liberdade sexual. (pag. 92)

Assim, Foucault acaba por mostrar que ao invés da repressão, houve a partir do século XVIII uma explosão de discursos em torno do sexo, com diferentes posturas e engrenou, conseqüentemente, saberes e novas tecnologias do poder, o bio-poder, ou seja, a tecnologia que toma o corpo como objeto de manipulação e a espécie humana como uma forma da vida biológica que deve ser compreendida a partir de sua finalidade política. (pag. 92 e 93).

A partir do análise do corpo, a espécie humana passa a ser analisada como população. Visa a compreensão do mesmo, até mesmo com necessidades de vitalidade do sistema capitalista. O sexo, portanto, torna-se o problema fundamental, porque nele estão envolvidas as questões relativas aos processos de administração da população em geral, que constituem saberes científicos, exortações religiosas, enunciados jurídicos e tantos outros discursos que visam controlar até mesmo os pequenos atentados contra a moral, as pequenas perversões sem importância, nas palavras de Foucault. (pag. 93 e 94).

Assim, a sexualidade “seria a rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas estratégicas de saber e de poder”. (pag. 94).

O dispositivo da sexualidade tem sua razão de ser: fazer o sexo conhecido. Encontrado em todas as sociedades, tem como funções o casamento, relações de parentesco, transmissão de bens entre gerações, lugares onde são definidos o licito e o ilícito em torna da atividade sexual. Na sociedade sexual, ele encontrou seu lugar na instituição em essência: a família, que, a partir do século XVIII, pacificou e domesticou o sexo. Neste sentido, a família é o lugar obrigatório de amor, de afetos, e neste mesmo envolvimento, surge a figura do incesto, com teor negativo, como regulador do certo e do errado. (pag. 95 e 96).

O discurso sobre a sexualidade surge no momento em que a burguesia descobre seu corpo nu, e o considera coisa importante, frágil, sobre o qual é necessário produzir um conhecimento. É o corpo mesmo corpo que padece de um desejo e de uma privação. À família compete a vigilância contínua, que fornece a expressão do sexo lícito, que controla a sexualidade de seus membros. Ao mesmo tempo em que funda uma concepção do sexo a contrapõe à devassidão, e à imoralidade, que no seu ponto de vista, se encontra no Outro, nas classes subalternas, criando uma repressão de classes, entre os burgueses de famílias e a classe suja, proletária, doente. (pag. 97).

Para o autor, a psicanálise é a potência máxima da vontade de saber do sexo a partir das praticas e dos discursos da verdade do sexo. A vontade de saber do sexo é uma experiência que não se consegue fugir, ela se funda na alma. A vontade é a expressão de uma violência sublimada, que o autor chama de confissão. (pag. 98).

A confissão é um procedimento de extorsão da verdade do individuo; mecanismo presente entre as pessoas desde o nascedouro da civilização cristã. A confissão se torna uma técnica, que inicialmente se ateve apenas no campo religioso, e que visava controlar e disciplinar, em escala ascendente, os corpos das populações, que transbordou paulatinamente do campo religioso para o campo secular e se torna como que natural, fazendo com que não se ache estranho confessar.

Assim, a possibilidade de manifestar um modo de exercício do poder, nem necessitar de um sujeito coator externo, estabelecendo em si mesmo um processo de individualização. A confissão, desta forma, é um procedimento que leva o sujeito a reconhecer em si mesmo sua verdade, como individuo virtuoso ou faltoso, inocente ou pecador, normal ou anormal. Ela induz o individuo a autocorrigir-se, impondo-lhe uma mudança de atitude; ela o induz à culpabilização e, após, à purgação da culpa como destinação inelutável, razão pela qual a confissão é um instrumento de individualização. (pag. 99 e 100).

O dispositivo da sexualidade tem na confissão um elemento onde o sujeito que fala coincidirá sempre com o sujeito para quem se fala: para si mesmo, sua consciência. Segundo Foucault, “o individuo, durante muito tempo foi autenticado pela referência dos outros e pela manifestação de seu vinculo com outrem; posteriormente, passou a ser autenticado pelo discurso de verdade que era capaz de (ou obrigado a) ter sobre si mesmo”. (pag. 100).

Após combater a hipótese repressiva e de demonstrar o mecanismo pelo qual o dispositivo da sexualidade atua, e após definir que a individualização do sujeito reside nesse mecanismo de extorsão e produção de verdade do eu, chamado confissão, Foucault em uma passagem se demonstra utópico, ao afirmar: “Devemos pensar que um dia, talvez numa outra economia dos corpos e dos prazeres, já não se compreenderá muito bem de que maneira os ardis da sexualidade e do poder que sustem seu dispositivo conseguiram submeter-nos a essa austera monarquia do sexo, a ponto de votar-nos à tarefa infinita de forçar seu segredo e de extorquir a essa sombra as confissões mais verdadeiras”. (pag. 101).

No livro “O uso dos prazeres” o autor trabalha que a vontade de saber do sexo não ocorre totalmente, sempre há nas estruturas existentes esse desejo. Encerrando esta obra, Foucault conclui que a descoberta sobre a verdade do sexo passa pela liberdade, pela subjetividade, pela individualidade. (pag. 102 e 103), afirmando:

“Sem dúvida, o objetivo principal hoje não é de descobrir, mas de recusar o que somos (...) Poder-se-ia dizer, para concluir, que o problema ao mesmo tempo político, ético, social e filosófico, que se coloca para nós hoje não é liberar o Estado e suas instituições, mas liberar a nós mesmos do Estado e das instituições que a ele se prendem. É preciso promover novas formas de subjetividades, recusando o tipo de individualidade que nos impuseram durante muitos séculos”.

COMO CITAR ESTE ARTIGO:


NOVAES, Edmarcius Carvalho. "Para ler Michel Foucault - Final". Disponível em http://www.edmarciuscarvalho.blogspot.com/ em 23 de abril de 2010.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

PARA LER MICHEL FOUCAULT – PARTE 2


Obs: Recomendo a leitura da primeira parte deste estudo antes de prosseguir a leitura abaixo.
O momento de análise da arqueologia (onde o homem é o objeto de estudo das ciências envolvidas) começa com a análise da obra “História da loucura na idade clássica” (1961). Ao contrário do que muitos pensam, tal livro não é sobre a história da constituição de uma ciência – a psiquiatria – apesar de conter uma analise de seu nascimento e uma descrição minuciosa e erudita da construção do discurso medido sobre a loucura como doença mental. (pág. 18).

As obras “As palavras e as coisas” (1966) e “A arqueologia do saber” (1969) completam a análise de Vilas Boas sobre o momento arqueológico do acervo foucaultino.


1. A LOUCURA COMO ODISSÉIA DA RAZÃO


A obra “História da loucura na idade clássica” está centrada no período chamado de “Idade Clássica”, compreendido por Foucault como o período entre o fim do Renascimento (final do século XVI e inicio do século XVII) e a Revolução Burguesa (século XVIII), sendo o período de transição para o capitalismo em seu país: França. Para tanto, compara a Idade Clássica com a Idade Média (onde percebia certa liberdade em relação à experiência da loucura, que fora com o tempo sendo solapada com a percepção de louco como demência, sendo necessário recorre à psiquiatria) e procura analisar na modernidade como é vista a loucura, quando então se constitui na ciência psiquiátrica. (pag. 19).

Interessa, entretanto, Foucault não analisar somente a constituição histórica da ciência psiquiátrica, mas sim indicar os mecanismos de ‘patologização’ do louco, os mecanismos de constituição de um saber científico. Historicamente saber o que torna o saber científico da psiquiatria como um discurso normativo, portanto, verdadeiro.

Para o autor, o saber sobre a loucura é extraído do discurso psiquiátrico, de seu lugar de existência – as instituições de controle do louco (família, igreja, justiça, hospital, etc) –, os saberes a elas relacionados e as estruturas econômicas e culturais da época. É aqui se constitui para Foucault, a episteme da época (pág. 20).

Há uma distinção: o conhecimento – saber científico, no caso, psiquiátrico – que é a elaboração teórica sobre um objeto, segundo uma lógica própria, peculiar, e a percepção como diversos modos de agir ao visualizar a loucura, o que depende das instituições sociais e do reconhecimento que estas empreendem sobre os indivíduos como sujeitos sociais, sendo desta forma o conhecimento cientifico posterior as diversas formas de percepção da loucura, e este é apenas uma forma de operar esta percepção. (pag. 21)

Assim, ao elaborar a historia da percepção da loucura, Foucault indica os vínculos não muito nobres do conhecimento psiquiátrico, desvelando o caráter obscuro de certo discurso da verdade da loucura, que deseja ser cientifico, para conduzir os homens, através de mecanismos de repressão, ao domínio da razão.

A razão, como visão do mundo que a tudo organiza e a todos controla, determina o motivo de deslocamento que tornou os anti-sociais (os ociosos, os libertinos, os parias, os loucos), objetos de práticas de segregação. O louco foi aprisionado, retirado do convívio social e domesticado porque representou, aos olhos de uma certa percepção, como a encarnação do mal, que extrai do homem sua natureza, a racionalidade. Assim, o louco é aquele que ameaça os qualificativos da razão. (pag. 22 e 23).

A polêmica entorno de Foucault talvez resida no fato de que para ele a loucura pode constituir-se um modo de ser do homem, uma das formas pelas quais o homem pode experimentar a vertigem de ser livro no mundo, o que, para alguns faz de Foucault um irracionalista, o que é rebatido em suas obras do segundo momento – genealogia – onde procura estabelecer uma razão critica, iluminista, que desmascara o predomínio da razão cínica, degradada, cuja função é servir ao poder e domesticar os saberes. (pag. 23 e 24).

A loucura, então, diante da razão, é considerada como desrazão, e essa como monstruosidade (na idade clássica) ou doença mental (modernidade), tendo-se então que é produzida pela razão, em sua normatividade, através de enunciados discursivos, sendo tudo o que não corresponde à imagem que a razão tem de si mesma. A medicalização representa um momento sutil de privação da experiência da loucura, na medida em que o conceito de doença mental permite a constituição de um sujeito juridicamente incapaz, inofensivo ou perigoso. O papel humanizador é a domesticação na modernidade, com caráter educativo, com vistas a levar o louco de novo ao bom senso da verdade e da moral, defendidas por Phillipe Pinel e William Tuke, pais da psiquiatria. Assim, Foucault desmascara o movimento que tornou possível um conhecimento hegemônico sobre a loucura que faz com que no mundo contemporâneo, a loucura não se possa se pensada sem acompanhamento da medicina e seu discurso da verdade (pag. 25 a 28).

Entretanto, pode-se concluir que para Foucault a loucura continua sendo experiência humana, inexprimível, originária, que escapa de todas as tentativas de classificação, todas as epistemes da cada época, como no Renascimento e sua associação a ilusão, a Idade Clássica associando-a como erro e maldição, e mesmo na Modernidade, que, por intermédio das ciências do homem, transforma a experiência da loucura em doença mental e alienação. (pag. 29 e 30).

2. A DEPOSIÇÃO DO HOMEM:


Para compreender e avaliar o pensamento de Foucault é necessário que se compreenda que suas idéias estão vinculadas a um conjunto de pensamentos possíveis de uma época, fato designado como episteme, sendo esta a que torna possível a individualidade a que se dá o nome de autor. Para o autor em tela, sua formação passa pelas idéias de Nietzsche e Heidegger.

Em “As Palavras e as Coisas – Uma arqueologia das Ciências Humanas”, Foucault está primordialmente interessado em dar resposta a indagação clássica da filosofia sobre “que é o homem?”, tendo como razão a indagação sobre a finitude humana e as possibilidades de o homem encontrar, nessas existência finita, os alicerces de todo saber (pag. 31 a 34).

Nesta obra se indicam as razões pelas quais certas respostas são fornecidas para, logo a seguir, desaparecem. Para ele, estas respostas são constitutivos de uma episteme, o campo no qual, em um determinado momento, instituíram-se os a priori históricos, as condições de possibilidade de determinados discursos ou saberes e os princípios de ordenação dos saberes, não sendo, segundo Foucault, tais epistemes a mesma em todas as épocas, e nem tampouco, o produto de suas transformações progressivas, mas sim uma estrutura, uma sistema localizado em um tempo, que se realiza nele, que se constitui nele.

Em “As Palavras e as Coisas” Foucault se empenha em demonstrar a episteme dos princípios períodos já assinalados: o fim do Renascimento, a ‘Idade Clássica’ e o limiar da Modernidade, agora pensada como um período situado na virada do século XVIII e XIX, procurar demonstrar como cada época se representa ao nível de sua estrutura. Os indícios mais latentes das diferenças entre uma época e outra, Foucault encontra na relação entre as palavras e as coisas, isto é, naquilo que se manifesta no âmbito da empiria e das suas enunciações ao nível de linguagem. Assim, procura explicar as razões subjacentes ao processo de agrupamento de certos enunciados em unidades, o processo que transforma tais enunciados em uma formação discursiva, e como o princípio de ordenação e unificação da esfera lida e abarca zonas discursivas obscuras (alquimia, magia, filosofias obscuras que foram retiradas para os lugares do não-ciência). (pag. 38 a 40).

Conclui-se que Foucault demonstrou que cada período da cultura tem seu a priori histórico, sobre o qual se ergue todo um conjunto de ciências, artes, literaturas, formas de representação que condicionam o pensamento e a atividade dos homens. Ele usa termo episteme para designar o campo particular, o espaço da ordem no qual, em dada época, forma-se tal a priori histórico. Em cada época histórica a episteme é única, e implica a sujeição da totalidade do pensamento possível aquele período de vigência. Uma episteme é essencialmente uma estrutura, sendo, alem disso, um sistema fechado em si mesmo, pelo que não é possível a passagem, em forma de transição, de uma episteme a outra.

Desse modo, os períodos históricos são percebidos pela arqueologia foucaultiana como processos de rupturas que finalizam uma episteme e dá lugar a outra, no âmbito de determinações muitas vezes clandestinas, visto que raramente se tornam explícitas ao nível das consciências dos sujeitos históricos. (pág. 41 e 42).


3. O ELOGIO DO DISCURSO:


“A Arqueologia do saber” é a tentativa de Foucault de estabelecer alguns argumentos justificadores, é a representação de um balanço da produção até então realizada. (pag. 51).

Se em “As palavras e as coisas” o discurso é considerado pelo autor como a linguagem clássica reduzida à categoria de representação da relação entre coisas e palavras, em “A Arqueologia do saber” adquire outro significado, como categoria de sujeito, onde o discurso é uma prática, política, do sujeito. Acompanhado da tradição vinculada ao pensamento marxiano explicitado em “O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte (Marx e Engels), Foucault entenderá que não são os sujeitos que fazem a história, mas esta faz-se a si mesma por intermédio deles e neles. (pag. 55 e 56).

Também entenderá Foucault que a descontinuidade histórica é função da percepção que os têm de sua ação prática no mundo. Aqui cabe a ressalta a crítica feita por alguns autores à Foucault, pois em “Arqueologia do saber” há a ausência da noção de episteme. O uso estruturalista da categoria de episteme tinha como objetivo estabelecer uma posição singular frente às perspectivas humanistas, que traziam consigo, como um elemento central de seus argumentos, a categoria de sujeito, e essa categoria descrevia as configurações do saber como grandes camadas que obedeciam a leis estruturais, não sendo possível, portanto, pensar a historia das formas de percepção a não ser como rupturas, de certo modo enigmáticas, que ocorreriam a partir de mudanças bruscas de uma episteme para outra. Com a nova obra, fica bem evidenciado o foco no conceito de história, e de uma noção de história que rejeita não somente essa idéia de continuidade do sujeito, mas também de descontinuidade estrutural. (pag. 54 a 56).

Assim, o que se enuncia (discurso) são possibilidades de arranjos que dependem de determinadas relações pré-estabelecidas, já dadas àquele que enuncia. Foucault complementa seu entendimento afirmando que os acontecimentos discursivos, então, apesar de se tornarem fatos históricos no processo de sua enunciação, não estão vinculados exclusivamente ao lugar e ao tempo de sua enunciação, mas sim estão ligados às instituições nas quais se tornam acontecimentos, se tornam eventos. Desta forma, ao adotar em suas obras a categoria de prática (existência objetiva e material de certas regras a que o sujeito está submetido desde o momento em que enuncia um discurso) discursiva, assume a perspectiva de jamais tomar o discurso forma do sistema das relações materiais que o estrutura e o constitui. (pag. 60 a 64).

O saber, então, para Foucault “é aquilo que de podemos falar em uma prática discursiva (...): o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico (...), o espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (...) o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem, se definem, se aplicam e se transformam (...) um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso”. Conclui entendendo que “há saberes que não são independentes das ciências; mas não há saber sem uma prática discursiva definida e, toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ele forma”. (pag. 64 e 65).

Por isso mesmo Foucault não aceita a falsa dicotomia entre ciência e ideologia, pois considera a ideologia como um saber, e o problema da relação é a sua existência (da ideologia) enquanto prática discursiva e o seu funcionamento em relação a outras práticas. Pressente-se então o surgimento do tema do poder relacionado ao saber, pois são as instituições que dão corpo à profissão e esta instância confere ao discurso que se desenvolve em torno dela, e ao individuo que a encarna, poder. (pag. 65 a 67).

Conclui-se a etapa da Arqueologia, com a obra “A Arqueologia do saber”, Foucault pensando a categoria do discurso, e de discurso como prática, empreendendo de fato o balanço de sua produção intelectual, até aquele momento, e dando a senha para a elucidação de seus projetos futuros. (pag. 67).

Obs: Acesse a
terceira parte dos estudos, sobre a Geneologia.

COMO CITAR ESTE ARTIGO:

NOVAES, Edmarcius Carvalho. "Para ler Michel Foucault - Parte 2". Disponível em http://www.edmarciuscarvalho.blogspot.com/ em 23 de fevereiro de 2010.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

PARA LER MICHEL FOUCAULT – PARTE 1


Esta resenha é um estudo pessoal da obra “Para Ler Michel Foucault”, de Crisoston Terto Vilas Boas, (Imprensa Universitária da UFOP:1993).

Ela se justifica pelo interesse acerca do autor analisado por Vilas Boas. Para tanto, utilizo-me da 2ª edição da obra do pesquisador, datada de 2002, em sua forma eletrônica.

Foucault é um dos filósofos da vida social contemporânea mais em voga, notadamente no meio acadêmico, por trabalhar a questão do discurso enquanto detentor de poder nas relações sociais, bem como temáticas polêmicas, sobretudo no campo da sexualidade.

Desta forma, antes mesmo de estudar as próprias obras foucaultinas, por meio de pesquisas deparei-me com esta obra que ora resenho, a qual me dedico a análise, por entender que a mesma irá apresentar-me a possibilidade de realizar uma análise macro a respeito de Michel Foucault e seus argumentos, o que muito contribuirá quando da leitura do acervo foucaultino.

A publicação do estudo da obra de Vilas Boas será disponibilizada neste espaço, em três partes: a primeira abaixo de caratér introdutório, a segunda que trabalhará a arqueologia, e a terceira com a genealogia.


PARA LER MICHEL FOUCAULT - PARTE 1





INTRODUÇÃO:



Para Pierre Bordieu, sociólogo francês, a análise da competência de um discurso se dá por meio de sua ação social, esta entendida como razão de ser e de sua eficácia além de aspectos lingüísticos e correção. A decodificação do discurso é o desvelamento dos horizontes estruturados politicamente construídos num contexto histórico, e a enunciação do discurso propõe o poder como objeto de desejo do discursor. (pág. 9)


Michel Foucault foi uma personalidade intelectual imprescindível para o entendimento da vida social contemporânea. Viveu 58 anos, tendo nascido no ano de 1926 e morrido em 1984. Propôs-se a analisar o caráter compulsivo da relação entre o discurso e poder, visando mostrar que o discurso deseja ser, ele mesmo, o portador do poder. (pág. 10)


A reflexão desta temática pode ser dividida em dois momentos, apresentados em suas obras:


1º momento: Arqueologia (1961 a 1969):


Procura estudar “as ciências do homem”, ou seja, todas as ciências onde o homem é o objeto de estudo. Interessa-se pelo devir histórico, indaga sobre o que torna possível o discurso sobre o que é cientifico ou não, como em uma determinada época é possível afirmar o falso contrariando o verdadeiro, o patológico contrariando o normal, e, o errado contrariando o certo. Em suma, propõe-se articular o ‘discurso da verdade’, analisando questões como: quem diz, como se diz, e, que instituição o diz. (pag. 12)


Suas obras significativas deste período são:
1961 – História da loucura na idade clássica;
1963 – O nascimento da clínica;
1966 – As palavras e as coisas;
1969 – A arqueologia do saber.


2º momento: Genealogia (1970 a 1984):


Essa fase apresenta as “polêmicas e combates” de Foucault. Visa à articulação do discurso enquanto saber, poder e verdade. O discurso tido como verdadeiro, para Foucault, é portador de poder. Desta forma, “o poder não possui uma identidade própria, unitária e transcendente, mas está distribuído em toda a estrutura social e é sempre produzido, socialmente produzido”. (pag. 13).


Suas obras significativas deste período são:
1971 – A ordem do discurso;
1975 – Vigiar e punir;
1976 – História da sexualidade 1: a vontade de saber;
1978 – Herculine Barbin/Diário de um hermafrodita;
1982 – A desordem das famílias;
1984 – História da sexualidade 2: o uso dos prazeres;
1984 – História da sexualidade 3: o cuidado de si.


A obra de Vilas Boas analisa ambos os momentos, sendo que se detêm na Arqueologia às obras: ‘História da loucura na idade clássica’, ‘As palavras e as coisas’ e ‘A arqueologia do saber’, e na Genealogia às obras ‘Vigiar e Punir’, ‘ História da Sexualidade 1: a vontade de saber’. (pag. 15)


Na primeira, ‘Historia da loucura na idade clássica’, Foucault procura analisar a que nível se dá a articulação do ‘discurso da verdade’, desvendando aquilo que torna possível esse próprio discurso, isto é, a episteme (forma que permite o acesso ao conhecimento num dado momento histórico). (pag. 14).


Foucault entende que a episteme é portadora de uma verdade, enquanto produto histórico, relacionando tal verdade com o poder e as instituições. Apresenta que as instituições têm sido qualificadas para determinar que tipo de discurso é verdadeiro ou falso, e que o discurso tido por verdadeiro é articulado por determinadas instâncias de poder e é, a um só tempo, portador de poder. (pag. 14)


Desta forma, Foucault objetiva explicar o modo como se produz a chamada verdade, bem como esta utiliza como recurso a história, propiciando a compreensão dos mecanismos de validação dos discursos da verdade, principalmente os discursos da ciência que tomam a história como ‘norma’ da verdade, ajudando, destarte, a desmontar os argumentos que legitimam as relações entre o poder e a produção da verdade. (pag. 14 e 15).


Tal poder que a verdade detém e a utilização da história como recurso, para Foucault não são elementos de uma vontade de reprimir, como se observa em suas obras do segundo momento – a genealogia – por considerar a existência de algo mais importante do que essa ‘hipótese repressiva’. (pag. 15)

 
Obs: Acesse a segunda parte dos estudos, sobre a Arqueologia.


COMO CITAR ESTE ARTIGO:
NOVAES, Edmarcius Carvalho. "Para ler Michel Foucault - Parte 1". Disponível em http://www.edmarciuscarvalho.blogspot.com em 11 de fevereiro de 2010.

domingo, 8 de março de 2009

CADA MACACO NO SEU GALHO


Gerou polêmica esta semana a notícia que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, decidiu excomungar a mãe e médicos que realizaram o procedimento de interromper a gravidez, na ultima quarta-feira dia 04, de uma menina de apenas 9 anos de idade, que fora estuprada pelo padrasto de 23 anos de idade, e engravidou de gêmeos. De acordo com o religioso, para a Igreja Católica, o aborto é um "crime mais grave que o estupro".

O presidente Lula, cidadão brasileiro, cristão católico, que não conseguiu ficar calado diante da polêmica, na sexta-feira afirmou que "... não é possível permitir que uma menina estuprada pelo padrasto tenha esse filho. Até porque a menina que corria risco de morte. Nesse aspecto, a medicina está mais correta que a Igreja" foi rebatido pelo arcebispo que o orientou procurar apoio em assessoria teológica antes de se pronunciar a respeito de assuntos religiosos.

O assunto levantou a discussão sobre o papel da Igreja em relação ao Estado, que no caso promoveu uma medida para a sobrevivência da própria gestante, sendo a excepcionalidade da criminalidade do aborto percebida. Juridicamente, e amparado pelo Estado, que se fez presente com a atuação do Ministério Público por ser a gestante civilmente incapaz para seus atos, os médicos fizeram o que lhes fora ensinado e mesmo o que lhes é exigido pelas organizações de classes.

O dilema gira, sobretudo, em relação à eficácia de tal determinação da Igreja Católica. Ser excomungado nos dias de hoje pelas instituições religiosas já não traz arrepios. Não existem mais fogueiras em praças públicas para dar cabo à ‘pecadores’. Os médicos não se importaram pela decisão papal aplicada pelo arcebispo. Parece-me que lhes soou ser mais cristão a dignidade da vida humana da VÍTIMA, do que as arbitrariedades impostas pela Igreja Católica. Ao contrário, soa ridiculamente tal decisão eclesiástica quando afirma que realizar o aborto para evitar a morte VÍTIMA gestante é um crime pior que o estupro. Mesmo que de forma imediata não se queira induzir, parece-me que para os religiosos, em tela, ser vítima é pior do que ser estuprador. É um endosso a prática do crime de estupro, porque afinal, as próximas vítimas de violência sexual, que forem católicas, terão que gestar algo que lhes faz mal unicamente por ser fruto de um ato brutíssimo, desumano, cruel, macabro.

O que se percebe na realidade é que o fundamentalismo, o tradicionalismo e os costumes religiosos estão ainda em vigor quanto da aplicabilidade de leis estanques, arcaicas, pelas instituições religiosas. A justiça fria, o conservadorismo hipócrita, faz com que posicionamentos como estes nos façam analisar por quais trilhas caminham as religiões e o que é ser, individualmente, religioso em nossos dias.

A aplicação da leitura morta da lei é pior do que a não aplicabilidade de lei alguma. Fere o Estado Democrático de Direito em que vivemos, onde o Estado que deve manter-se laico, vê-se criticado por um segmento religioso. A teocracia já não faz mais parte da historia político-governamental de nossa nação há séculos. Erra a Igreja ao tentar ditar normas ao Estado e ao tentar inibir que o Presidente da República, que fazendo uso do seu direito de exposição de opinião, posicione-se a favor do ato médico realizado. Valente que é este arcebispo deveria agora, seguindo sua linha de raciocínio, excomungar também o presidente Lula, por apologia ao aborto. Aliás, a prática da intimidação por autoridades religiosas também já caiu em desuso completamente, até mesmo por questões morais. Particularmente, creio que o arcebispo não tem tamanha coragem, até porque opinião de um presidente não é tratada a de uma VÍTIMA de estupro qualquer.

Todos os atos religiosos fundamentalistas, xiitas, sejam eles cristãos – e neste aspecto não pode esquecer-se dos protestantes – ou de outras manifestações de crenças transcendentais, devem ser vistos com cautela.

No caso, o fundamentalismo cristão é interpretação paupérrima dos ensinamentos do líder de tal religião. Jesus, o Deus homem, estabeleceu princípios entre seus seguidores que demonstram o respeito ao próximo, ao amor à vida, à dignidade humana, à inclusão e à diversidade de idéias, vontades e posicionamentos. Cristo não ensinou ser taxativo na aplicação da lei. Pelo contrário, o desenvolvimento hermenêutico dos ordenamentos jurídicos é facilmente captado na leitura de suas passagens e percebido em suas atividades. O que falar da mulher adultera, da parábola do bom samaritano, do trabalho no dia de sábado e tantas outras passagens?

Sugiro aos fundamentalistas religiosos, que se preocupam em cuidar da vida alheia quando na verdade deveria se preocupar em pregar a graça do amor de/e à Cristo e ao próximo, que procurem seguir o ensinamento cantado por Caetano Veloso: “... cada macaco no seu galho, eu não me canso de cantar...”, já que seguir aos ensinamentos de Cristo é complicado.

Ser religioso, ser Igreja, no século XXI, precisa ser diferente do século III, quando a Igreja Católica era o Estado. E ser Estado hoje é ser garantidor dos direitos elementares à dignidade humana, e entre estes, o direito à vida, o qual, no caso, foi protegido, uma vez que a única vida que realmente se salvaria era a da vítima, pois caso fosse prosseguida a gestação, tanto VÍTIMA como fetos não sobreviveriam.

Cada macaco no seu galho... a Igreja não deve esquecer de se lembrar!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

E O POVO FALA, O POVO FALA MESMO!


Basta acontecer algo anormal para as línguas maldosas ficarem todas eufóricas para comentar, e em questão de segundos, a notícia, às vezes até irrelevante, espalha-se à quatro cantos, toda contorcida, aumentada, e quem sabe, até mesmo totalmente alterada.

Hoje é assim: se te vêem na companhia de uma moça, é sua namorada. Se te vêem na companhia de um rapaz, duvidam da sua sexualidade. Se te vêem num bar tomando guaraná, a notícia é que você quer superar a fama do Zeca Pagodinho. Se você passa na rua onde há uma boate, você fez até strep tease por lá. Se alguém da sua empresa ou repartição é detido para prestar esclarecimentos sobre qualquer investigação, você já foi julgado e condenado como um marginal, ladrão, assassino e outros adjetivos carinhosos. Se você engorda, você é folgado. Se você emagrece, está com câncer. Se você anda de carro popular, é pra disfarçar. Se você anda com o carro da moda, deve está aprontando. Se a moça engorda, embuchou. se emagreceu, é porque levou um pé na bunda. Se está desempregado, é porque não procura emprego. Se está trabalhando, o salário é pouco e a empresa não te valoriza. Se é educado, é um besta. Se é grosso, é um cavalo.

Se a crença comum de que a vox populi é vox dei for verdadeira, algo lá por cima ou por aqui mesmo, está descontrolado, fora do seu devido local. O povo parece ter um prazer quase hedonista, quase um orgasmo sexual, em detonar a vida alheia, em fazer da vida das pessoas uma calamidade. A língua coça, o veneno escorre pela boca e queixo a fora. Veja por exemplo o que se tornou o mundo das ‘celebridades’, é algo bilionário. Nunca se gostou tanto em falar da vida alheia!

Caso mais recente: Susana Vieira. Casou-se com militar metido a performista de primeira qualidade em quadra de escola de samba. Levou um chifre, pagou a conta do motel destruído, mesmo assim perdoou o marido, mas brigou denovo, se separou novamente. Ele, sem dinheiro e a fama que a senhorinha folgosa lhe proporcionava, foi pra televisão reclamar da atriz juntamente com a amante. Seu final: morreu entupido de drogas na garagem de um condomínio de luxo. A atriz selerepe com seus mais de 60 anos de idade, se diz gostosona, pronta pra outra, mas admite que ter medo de encontrar outro marginal. Coitada, tão inocente! Pergunto: e eu com isso? Sou filho, neto, bisneto, sobrinho, empregado, o escambau a quatro, alguma coisa dessa senhora saliente? Pra quê preciso saber disto? O que me acrescenta saber e acompanhar na TV todos os últimos acontecimentos de sua vida particular? Parece que saber e divulgar todos os detalhes das desgraças alheias é uma espécie de fortificante para alguns que, provavelmente, às escondidas, cometem coisas que podem ser consideradas muito piores do que as que se tornaram públicas, com a desgraça alheia divulgada pela mídia.

Você quer deixar um fofoqueiro frustrado? Fique em silêncio diante de suas perguntas, isso lhe impõe respeito perante o fofoqueiro. Ele irá se acalmar. Mas o verdadeiro fofoqueiro, este, não sossega até conseguir alguma informação, algo ‘bafão’, e quando obtém êxito fica todo excitado. Tem assunto para render, para meter a lenha por dias.

Sábio foi o autor de Eclesiastes que no capítulo 27 escreveu: “Na companhia dos tolos, guarda tuas palavras para outra ocasião. Sê de preferência assíduo junto às pessoas ponderadas” (v. 13). O problema do fofoqueiro é que ele não se dá conta de sua tolice, de sua baixeza, de sua mesquinhez, de sua futilidade.

Andar junto às pessoas ponderadas é o melhor caminho para não se contaminar com os venenos dos tolos fofoqueiros e para poder ser você mesmo em qualquer ocasião. Caso contrário, lembre-se da canção: “o povo fala, o povo fala mesmo...”