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terça-feira, 20 de maio de 2014

FILOSOFIA DA CIÊNCIA: THOMAS KUHN E O HISTORICISMO NA ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS

O presente texto é uma produção realizada a partir de um fichamento das atividades propostas na disciplina “Filosofia da Ciência” do Curso de Licenciatura em Filosofia, que realizo pela Universidade Federal de Lavras, em 20 de maio de 2014.



Os aspectos que caracterizam a prática da ciência normal e sua relação com o paradigma: 

"Diferentemente de Popper, Kuhn propõe que uma adequada compreensão da ciência não possa ser dada exclusivamente pela consideração de seus aspectos lógicos, mas tem de inclui uma consideração de aspectos históricos, sociais, a experiência pessoa do cientista, isso é, o contexto da descoberta é fundamental para compreender o contexto de justificação". 

O filósofo estadunidense Kuhn, em sua obra “A estrutura das revoluções científicas” (1978), demonstrou-se contra a tese positivista segundo a qual a pesquisa científica se desenvolvia sempre de forma sistemática, racionalizada, ordenada e linear. Para ele, e diferentemente de Popper, ocorrem rupturas ditas como revolucionárias, isto é, mudanças bruscas e radicais, em razão de fatores psicológicos e sociológicos que influenciam, de forma significativa, tais revoluções do processo na pesquisa científica.

Nesse contexto, Kuhn compreende o paradigma uma “realização cientifica universalmente reconhecida que, durante algum tempo, fornece problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes desse paradigma em ciência” (PORTELLA, p. 2). 

Assim, integram um paradigma teorias, instrumentos, conceitos e métodos de investigação. É o paradigma que define e regula todo o trabalho cientifico para determina área de conhecimento, incluindo, para tanto, leis e pressupostos teóricos fundamentais, regras que possam aplicar as leis ao contexto real, bem como para se usar instrumentos científicos, além de conter princípios metafísicos e filosóficos.

Tal paradigma na visão do filósofo passa por fases. A primeira fase atravessada por um paradigma é a “fase da ciência normal”, onde sua aceitação é irrestrita pela comunidade cientifica, já que a mesma responde questões pertinentes à área a qual diz respeito, e por tal razão, é aceito pelos praticantes. No entanto, no decorrer do tempo, algumas questões começam a não serem resolvidas, mas ainda assim passam a serem negligenciadas pelos praticantes, que ainda crêem no paradigma em uso enquanto seu modo de vida, de crença e de patrimônio de conhecimentos, que reluta em ressignificar.

Entretanto, numa segunda fase tida como “fase da ciência revolucionária”, em razão da quantidade de fatos que apontam para as incongruências encontradas no então paradigma aceito, passa-se a buscar por outras teorias que possam apresentar novos conceitos, instrumentais e métodos capazes de explicar as divergências percebidas. É nesse momento que ocorre a revolução científica defendida por Kuhn, quando em meio as crises, novos paradigmas substituem antigos na missão de explicar os fatos verificáveis. Para que um novo paradigma seja aceito é preciso que apresente fundamentação correta e precisa, suficientemente para que consiga aderir novos adeptos e assim criar uma nova comunidade de seguidores. 

Assim, o filósofo Kuhn contribuiu para demonstrar que a objetividade preconizada da pesquisa cientifica é afeta pelo pesquisador, sobretudo em períodos de revoluções cientificas, quando muitas de suas crenças e pesquisas são rejeitadas a partir de novos paradigmas, que propõem a compreensão do contexto em que se encontram tais pesquisas com novas justificativas.

Ressalta-se que para Kuhn, é impossível realizar comparações entre os paradigmas para que se possa concluir sobre superioridade de algum ou de possibilidade de se aproximar da verdade, em razão de sua incomensurabilidade, pois cada paradigma aponta um mundo diferente a partir de pontos de vistas diferentes. 

De igual forma, aponta que as escolhas cientificas são subjetivas porque os critérios são escolhidos a partir de analises subjetivas, uma vez serem vagos, ou porque estes podem entrar em conflito, sendo, portanto, insuficientes para determinar uma escolha objetiva de uma teoria. Questões como ideologia e prestigio interferem nas escolhas, produzindo efeitos psicológicos e sociais na pesquisa.

Portanto, pode-se concluir que para o filosofo o desenvolvimento de uma ciência não ocorre de forma racional a partir da eliminação de teorias falsas à luz de critérios objetivos. Tal desenvolvimento passa por uma sucessão de paradigmas, são escolhidos a partir da combinação entre fatores subjetivos do pesquisador e de critérios tidos como objetivos, pela comunidade científica. 



O paradigma e as novidades científicas: 

O paradigma regula a ciência normal enquanto prática que soluciona quebra-cabeças ao se propor enquanto realização cientifica aceita por uma comunidade de praticantes, que o vê enquanto fornecedor de soluções. Para tanto, utiliza-se de instrumentos, conceitos e métodos de investigação, para definir e regular todo o trabalho cientifico para uma determina área de conhecimento, incluindo, para tanto, leis e pressupostos teóricos fundamentais, bem como regras que possam aplicar leis em casos concretos, a partir de instrumentos científicos e de princípios metafísicos e filosóficos.

Tal propositura do paradigma, onde a ciência soluciona problema, se relaciona com as novidades científicas, a partir do que o filósofo Kuhn vai denominar de “ciência revolucionária”, ou seja, a possibilidade de um paradigma que, ao decorrer tempo se demonstrar insuficiente para solucionar questões que possam ser levantadas, passam a ser substituídos por novos paradigmas. 

A contribuição do filósofo supracitado é relevante por é partir dela que apesquisa cientifica deixa de ser vista como sistêmica, racional, ordenada e linear e passa a se considerar a possibilidade de rupturas bruscas e radicais, tidas como revolucionárias no processo do conhecimento científico.

É a partir de novos paradigmas, apontados sempre com fundamentação correta e precisa, que novos adeptos criam novas comunidades científicas, e levam em consideração além de critérios objetivos aceitos pelos componentes da comunidade formada pela área de conhecimento, outras análises de teor subjetivo dos próprios pesquisadores, isto é, levam em consideração fatores psicológicos e sociais na escolha de critérios no fazer pesquisa.

Assim, pode-se concluir que o conceito de verdade é sempre relativo a um paradigma, ou seja, aquilo que é verdade num paradigma pode não ser noutro.



A relação entre anomalia e descoberta: 

“A despeito de a prática da ciência normal não ser orientada para a novidade em ciência, o próprio desenvolvimento da ciência normal leva ao surgimento de novas anomalias. Algumas mesmas estão presentes já no momento de elaboração de uma teoria". 

O filósofo estadunidense Kuhn, em sua obra “A estrutura das revoluções científicas” (1978), demonstrou-se contra a tese positivista segundo a qual a pesquisa científica se desenvolvia sempre de forma sistemática, racionalizada, ordenada e linear. Para ele, e diferentemente de Popper, ocorrem rupturas tidas como revolucionárias, isto é, mudanças bruscas e radicais, em razão de fatores psicológicos e sociológicos que influenciam, de forma significativa, tais revoluções do processo na pesquisa científica. 

Nesse contexto, Kuhn compreende o paradigma uma “realização cientifica universalmente reconhecida que, durante algum tempo, fornece problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes desse paradigma em ciência” (PORTELLA, p. 2). 

Assim, o filósofo Kuhn contribuiu para demonstrar que a objetividade preconizada da pesquisa cientifica é afetada pelo pesquisador, sobretudo em períodos de revoluções cientificas, quando muitas de suas crenças e pesquisas são rejeitadas a partir de novos paradigmas, que propõem a compreensão do contexto em que se encontram tais pesquisas com novas justificativas. De igual forma, para o filósofo, o desenvolvimento de uma ciência não ocorre de forma racional a partir da eliminação de teorias falsas à luz de critérios objetivos. Tal desenvolvimento passa por uma sucessão de paradigmas, que são escolhidos a partir da combinação entre fatores subjetivos do pesquisador e de critérios tidos como objetivos, pela comunidade científica. 

Nesse processo de sucessão de paradigmas, segundo Kuhn, o que faz com as descobertas não sejam consideradas enquanto fatos isolados, mas sim que devem ser pesquisadas pelo conhecimento cientifico, é justamente a compreensão da existência da anomalia, isto é, que algo não está de acordo com a ciência normal, fazendo com que os cientistas se dediquem ao estudo da área em que tal anomalia surgira, divergindo do paradigma até então existente. 

No entanto, além de serem novos fatos, as anomalias para fazerem os cientistas entenderem que há uma nova forma de se ver o objeto de estudos, devem se dar de forma com que todos os pressupostos teóricos disponíveis não sejam suficientes para que os pesquisadores mantenham o paradigma então estabelecido, pois se isto ocorre, a anomalia inicialmente rejeitada, passa a se estabelecer enquanto ciência normal, provocando, de fato, uma mudança de paradigmas. 

É justamente quando a ciência normal aceita a anomalia produzida que se abre quantitativamente os fenômenos a disposição da análise cientifica, podendo tais cientistas aprofundar seus estudos, a partir de mudanças de crenças e procedimentos, enquanto fruto desta instalação de uma anomalia que provoca a crise e o processo de revolução cientifica proposto pelo filósofo em sua obra. 

Ressalta-se que para que essas novas teorias possam ser estabelecidas a partir da consciência desta anomalia que aponta para descobertas de novos fenômenos científicos, é preciso que tais anomalias possuam consigo promessas inquestionáveis de certeza, como todo paradigma, em seu tempo, precisa ter para se estabelecer.



A noção kuhniana de revolução científica e sua relação com a incomensurabilidade de diferentes paradigmas: 

O século XX foi marcado pela denominada revolução epistemológica, responsável por alterar o modelo vigente de racionalidade que era aceito pela comunidade cientifica à época, sobretudo, em razão do reconhecimento de fenômenos que não seguiam ao principio de incerteza (ou determinismo), bem como em razão do surgimento de teorias novas sobre a física (como a quântica). Por tal razão, o filósofo estadunidense propõe-se então a estudar tais mudanças nas ciências, e concluiu que existem momentos onde posicionamentos científicos são substituídos por outras ideias que são radicalmente novas, inclusive no que se refere aos próprios processos de suas explicações, como por exemplo, do surgimento do heliocentrismo que substituíra o geocentrismo. 

Nesse sentido, Kuhn concebe como revoluções científicas essas mudanças radicais de modelos de visão de mundo, em determinado períodos da história. Essas mudanças são as mudanças de paradigmas, isto é, de conjuntos de conceitos fundamentais, e de procedimentos padronizados, pelos quais a prática cientifica se orienta em determinada época. 

Tais mudanças de paradigmas se dão ao surgirem as anomalias, ou seja, fenômenos que não conseguem serem explicados e aceitos a partir dos padrões que regem os moldes da ciência normal de uma determinada época. O surgimento de tais anomalias produz, em meio às crises e polêmicas, a tida ciência extraordinária, que se propõe a resolver tal anomalia em meio ao confronto de hipóteses para sanar tais fenômenos. 

É nesse contexto que surge a incomensurabilidade dos paradigmas, ou seja, a partir da crise e do conflito entre as teorias da ciência normal, conservadora, com as ciências extraordinárias, inovadoras, existem duas alternativas. A primeira trata da possibilidade de alargar ou reformular o paradigma vigente, de forma que consiga solucionar as anomalias, bem como explicar os dados tidos como novos. A segunda alternativa é desenvolver uma revolução cientifica com o propósito de se impor um novo paradigma explicativo. 

A incomensurabilidade, portanto, se dá a partir do momento em que o novo paradigma se impõe, estabelecendo novas formas de se ver a verdade que seja incompatível ao paradigma anterior.


BIBLIOGRAFIA:

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1978.

MENDES, Iba. “Anomalia e crise" em Thomas Kuhn. Acessado em 18.05.2014 no site: .

PORTELLA, Cristiano R. R. Ciência e revolução científica: objetividade científica com os homens, pelos homens e apesar dos homens. Acessado em 08.05.2014 no site: .


ACESSE TAMBÉM: 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

NO ENCONTRO DO SOL COM A CHUVA

Praia da Costa - Vila Velha / ES - 18 de setembro de 2011

É o Tempo quem nos faz melhor. É ele o possuidor do dom de fazer com que evoluamos a ponto de, ao pararmos por qualquer motivo, termos consciência do que fazemos, do que escolhemos e do que (ou quem) é necessário ser revistado, alterado ou retirado de nossa vida.

Tenho aprendido com esse mesmo Tempo que as melhores coisas acontecem quando menos esperamos. O melhor é fruto do natural. Sem ser forçado, articulado, para que ocorra. Hoje entendi que da mesma forma, a felicidade é um ato de escolha.

Muitas vezes sofremos porque insistimos em pessoas, relacionamentos, instituições, circunstâncias que já não encontram espaço em nosso presente. E se, seja qual motivo for, estão no passado, é porque lá é o seu lugar. Nosso erro é tentar resgatar, seja à custa da dor que tenhamos que sentir, para fazer do presente uma continuidade do passado, que já passou.

Abrir mão desse passado é um ato de coragem. É um ato de ousadia. É um ato de gente que tem personalidade. É, acima de qualquer outra definição, um ato de amor próprio. Desistir de insistir em trazer para o presente alguns fantasmas de um passado que já se encerrou é ter a consciência de que somos nós quem permitiu às pessoas fazerem parte de nossa história de vida. E mais que isso, se por algum motivo estão no passado, é porque lá é o lugar delas. Se em suas estadias na existência de nossas vidas tivessem trazido somente coisas boas, com certeza, a noção de passado não existiria nesse relacionamento. O presente ainda seria o único existente.

Decidi que agora as pessoas só podem entrar na minha vida se for para me fazer bem, caso contrário, são altamente dispensáveis. Eu, amante dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana, que necessito de uma prática de alteridade para vivenciar tais conceitos e impregná-los na minha alma, corpo e espírito, socorro-me, nesse momento, à Soren Kierkegaard, quando afirma: "Acima de tudo, não se esqueça da obrigação de amar a si mesmo."

Permitir-me envolver com as pessoas e por elas despertar e nutrir alguma espécie de sentimento é uma escolha. Amar a mim mesmo é diferente, é minha obrigação. E amar é, nas palavras do apóstolo Paulo, também sofrer. Se amar a mim mesmo é sofrer pela decisão de dispensar (isso mesmo, esse é o verbo tônico dessa análise) algumas pessoas da minha vida, que assim seja!

Cansei. E cansei de insistir em algo que já não tem o porquê existir. Não me leia como um rebelde sem causa. Até porque nesse contexto não tem causa. Ela já é passada. A decisão agora é viver bem o presente. Só o tenho para construir. Meu futuro é tão incerto como a possibilidade de voltar ao passado e, ao tentar trazê-lo para o presente, obter êxito.

O mar da vida não permite segunda chance! O arco-íris e suas sete cores só aparecem quando o sol brilha sobre gotas de chuva. Só por isso, esse é um fenômeno raro. Assim também é o amor! Raríssimo, porém quando acontece, é inesquecível.

O arco-íris do amor próprio é tentar conjugar as cores multifacetárias da vida e os encontros que escolhemos vivenciar. Selecionar melhor esses encontros é decidir por aceitar em sua vida só o brilho forte e iluminador de pessoas que só podem lhe fazer o bem e a suavidade do amor que emerge nesse envolvimento.

Por ora, decidi ouvir o sábio Tempo. Com ele ouço o barulho do mar da vida, que não me permite segundas chances. Mas é nele que posso contemplar a perfeição que é existir, quando me permito a ser gotas de chuvas indo de encontro com pessoas iluminadas, que carregam em si fortes luzes que clarearão os melhores caminhos para minha vida.

Se as luzes já se apagaram, se as gotas de chuva já evaporaram, se as cores do arco-íris já se dissiparam, é porque as marcas já estão postas. Estão escritas num passado, que pode até por algum período ter sido bom, mas que já se encerrou. Parar de insistir em resgatar o passado é se posicionar por amar a si mesmo, obrigatoriamente, como a melhor forma de viver o presente.

Como o mar da vida é grande, sempre cabem novas caminhadas e novos encontros, novas gotas de chuvas, novos encontros com luzes diferentes e a possibilidade de produzir o que for necessário para  aparecer novos arco-íris... isso tudo, somente enquanto o Tempo assim me permitir.

Tempo, Tempo, Tempo. Sábio Tempo!

quinta-feira, 31 de março de 2011

UMA ODE À DITADURA MILITAR

“Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.



A polêmica do mês está estampada em todos os meios de comunicação, sobretudo os virtuais. A máxima acima foi proferida pelo deputado federal  do Partido Progressista, pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro.

Bolsonaro é uma figura excêntrica. Saudosista dos tempos da ditadura faz uso das conquistas da democracia para expor máximas esdrúxulas que ratificam seus paradigmas discriminatórios e estigmatizantes.

Para os desatentos aos fatos, explico. No programa de televisão “CQC” da ultima segunda-feira, o nobre deputado ao participar de um quadro chamado “O povo quer saber” respondeu a seguinte pergunta feita pela cantora Preta Gil: “se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”

Na tentativa de amenizar sua resposta racista só fez piorar a situação. Disse ter entendido que a cantora teria perguntado o que faria se seu filho se apaixonasse por um gay.  Pronto! 



O filho da ditadura, nos tempos da democracia, faz uso de sua imunidade parlamentar para disparar porradas para todos os lados, atacando, sobretudo, os segmentos minoritários. Defende que a maioria deve ser conservadora, protegida das ações “minoritárias” de movimentos como os “gays”.

Sobre o racismo, como bom saudoso da época dos militares remete, mesmo que inconscientemente, ao patriarcalismo brasileiro do clássico “Casa Grande e Senzala” ao afirmar que em seu gabinete há muitos servidores afrodescendentes, e que, pelo visto, estão lá sem a necessidade de cotas. São seus “empregados” e não “escravos”. 
  


Bolsonaro é a representação do pensamento arcaico e reacionário. Seu discurso emanado de preconceito racial, homobofia, etnocentrismo social, é realmente próprio de quem acredita na intolerância ao próximo que prega. Faz uso da liberdade de pensamento e de sua imunidade parlamentar – que necessita ser repensada – para se pôr (e levar consigo seus semelhantes) num patamar ideológico de superioridade aos demais, uma vez que estes, na concepção daqueles, são minoritários.

Pelo posicionamento dele penso que se ele for entrevistado novamente e for perguntado pela Marina Silva, poderá se posicionar pela extinção dos indígenas. Se for um deficiente o entrevistador, irá sugerir a exterminação dos “incompletos”, afinal em época de guerra a força física era, por ela mesma, a única e essencial para se fazer matanças. O que falar então da diversidade religiosa? Deixa pra lá... corre-se o risco de voltarmos ao racismo!

O pior de tudo neste caso é que, infelizmente, a figura de Bolsonaro é a representação social de muitos brasileiros. Preocupo-me em ver os comentários de internautas em alguns sites que se posicionam favoráveis a essa atitude. Muitos se vêem representados por ele – e talvez isso justifique ocupar o atual cargo – e juntos reforçam a intolerância, o desprezo, o ódio por meio de um discurso velado contra pessoas negras (afinal racismo já é crime tipificado, mesmo que de pouca aplicabilidade - como creio que será neste caso) e outro abertamente para contra todas as formas existentes dentro da diversidade sexual humana.

Em tempos de ditadura, caso Bolsonaro não responda pelo menos pelo crime de racismo, ficarão (ainda mais) claras algumas coisas: que a ditadura ainda não acabou - hoje ela não é mais de militares, mas sim de parlamentares imunes para massacrar os que discordam de seus estigmas, e que a democracia precisa repensar a liberdade de expressão de pensamento e seus efeitos – uma vez que muitos Bolsonaros estão soltos por aí.

Quanto à homofobia exagerada, na minha concepção, é necessário que Bolsonaro se auto-avalie. Homossexualidade não surgiu de 1985 para cá! Deixo para que os psicólogos contribuam com o caso.

Na realidade, o caso Bolsonaro é a oportunidade para se pensar a respeito da liberdade de expressão do pensamento e de nossos paradigmas, conceitos e preconceitos, mas, sobretudo, em nossos discursos e práticas para com os outros, muitas vezes próximos, que divergem de nós, sejam na cor ou na condição sexual.

À Bolsonaro, uma ode à dura e finita, ditadura militar!


Obs: Exatamente hoje - 31 de março - faz 47 anos que ocorreu o golpe militar. Para os militares, uma data saudosista. Para os que assim como eu são filhos da democracia é um estímulo para que outras conquistas, outros olhares e práticas políticas e sociais aconteçam, sobretudo, para que os resquícios da ditadura não se emirjam mais.

Espero que daqui a algum tempo eu possa falar: “um ode à aplicabilidade da lei que penalizou esse ato racista de Bolsonaro”.

Isso é democracia: falar o que pensa e arcar com as conseqüências, a não ser que se trate de um parlamentar/militar imune.


-> Fotografias editadas do Portal UOL

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

POR QUE VOCÊ NÃO QUER MAIS IR À IGREJA?

Era um domingo, dia 23 de janeiro de 2011. Hora do almoço. Como de costume – tradicionalíssimo – minha avó, ao agradecer a Deus “as mãos que fizeram aquele alimento”, interpelou também: “que o Edmarcius possa se regenerar e voltar a ser o que era na igreja”. Finalizou sua oração e todos se alimentaram normalmente.

Menos eu. Essa oração – frase no sentido lingüístico e no caso também no religioso – ficou na minha mente, porque no fundo, no fundo, ainda hoje, manifestações deste tipo, causam-me certo incômodo, porque mexe numa das maiores dores que já vivenciei: a dor da alma fruto de experiências religiosas. Porém, como bom neto que sou, preferi me omitir e deixar tal desconforto passar despercebido.

Seis dias depois chegou meu aniversário. Antes me levantar da cama recebi, da minha mãe, meu primeiro presente do dia. ‘Poxa, que legal’ – pensei eu! Antes de abrir o presente, a recomendação que demonstra uma preocupação amorosa de uma mãe por seu filho: ‘não brigue comigo pelo presente, mas quando o vi, lembrei de você e decidi comprá-lo. Leia-o e depois me diga a resposta pra pergunta título do livro’.

Com as vistas embaçadas pelo sono apenas confirmei com a cabeça a resposta positiva, abri o livro, li seu título, sorri e voltei a dormir. E junto com o sono as idéias remeteram-me ao fato ocorrido no domingo e conclui precipitadamente comigo que este poderia ser mais um desconforto que passaria, agora em relação ao presente de aniversário, dado pela minha mãe.

Ledo engano! Acho que se não for o melhor presente de aniversário que já ganhei em minha vida, está entre os melhores. É, sem dúvida alguma, a melhor leitura que poderia ter feito nesses últimos dias, meses e anos - tempo este enquanto a pergunta título do livro se concretizou na minha existência terrena.

“POR QUE VOCÊ NÃO QUER MAIS IR À IGREJA?” (2009, Editora Sextante), escrito por Wayne Jacobsen e Dave Coleman, traduzido no Brasil por André Costa, é a obra em questão. Recomendo a leitura urgente para todos os que abraçaram o cristianismo enquanto opção religiosa para suas vidas.

A estória do livro é uma ficção. Porém, mesmo que haja a recomendação contrária, creio que foi sim baseado historias de vidas reais. Muitas. Milhares espalhadas pelo mundo afora. Todas de vítimas, consciente ou inconscientemente, de um período em suas vidas, onde jogaram “o jogo da igreja”.

Não se trata de uma apologia aos que criticam a igreja, mas sim de uma das melhores produções já realizadas no que diz respeito a (re)flexão – pensar de novo – sobre o papel desta e do significado de sê-la nas vidas das pessoas que se propõem a vivenciar suas experiências de fé neste contexto, e por fim, a possibilidade de ver novas formas de viver a realidade de uma Igreja.

A estória de ficção tem como sua personagem principal, o pastor Jake Colsen, que depois de toda uma vida dedicando-se a Igreja e ao caminho que sempre lhe pareceu o certo, encontra-se diante de uma dolorosa dúvida: como é possível ser cristão há tanto tempo, e ainda assim, se sentir tão vazio?

Porém, observando uma multidão numa praça, Jake depara com João, um homem que fala de Jesus como se o tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião. É com a ajuda desse novo amigo que Jake irá reavaliar os conceitos e crenças que norteavam seu caminho: Levar uma vida cristã significa ter os comportamentos aprovados pelo grupo religioso a que pertencemos?

No decorrer da estória, a cada nova palavra de João, assiste-se ao renascimento de Jake em busca da verdadeira alegria e da liberdade que Cristo veio ao mundo oferecer. Na reconstrução da sua vida, percebemos a ação de Deus, por meio do perdão e do amor.

Pessoas que assim como eu encontram-se feridas em nome de um Cristo pregado por alguma instituição religiosa ou sistema religioso encontram neste livro um bálsamo. É um refrigério saber que, no mundo afora, muitas outras pessoas também passam por este dilema, e encontram a possibilidade de reformular seus pensamentos a respeito do amor de Cristo, da alegria e da liberdade que é a essência de ser um cristão, mesmo afastados de coração de igrejas.

Muitos como eu foram criados em igrejas. No livro registra um dado interessante: 92% das crianças que freqüentam regularmente as escolas dominicais (pra quem não é evangélico não vai entender o ‘evangeliguês’: significa a ‘catequese’ evangélica, grosso modo, comparando-a com o catolicismo), quando deixam a casa dos pais, ou quando crescem, abandonam a igreja.

E abandonam sabe por quê? O livro responde e esta é a resposta a pergunta título do livro. O cristianismo que as igrejas vivem, em sua maioria, é um cristianismo institucional, razão esta que faz com que as pessoas não queiram mais ir às igrejas!

Os autores, em suas ultimas páginas, disponibilizam uma entrevista concedida sobre o conteúdo polêmico do livro. Ao serem inquiridos se procuram por uma igreja perfeita dizem que não espera encontrá-la – a igreja perfeita – neste lado da eternidade, mas sim procuram por pessoas que fazem de Deus sua prioridade. E manifestam incômodo com o ‘cristianismo institucionalizado’ de uma forma perfeita. Veja:

“Boa parte do que chamamos hoje de ‘igreja’ não passa de uma encenação bem planejada, com pouquíssimas ligação efetiva entre os fiéis. Estes são muito mais estimulados a depender cada vez mais do sistema ou de seus lideres do que do próprio Jesus. Gastamos mais energia adaptando nosso comportamento àquilo de que a instituição necessita do que ajudando as pessoas a se transformarem!”.

E continua, até sendo um pouco duros ao retratar, infelizmente, a realidade:

“Cansei de tentar estabelecer uma comunhão com gente que concebe a ‘igreja’ apenas como um lugar onde um grupo passa duas horas por semana expiando a culpa, enquanto vive o restante da semana com as mesmas prioridades mundanas. Cansei daqueles que exaltam as próprias obras piedosas, mas que não demonstram compaixão pelos outros. Cansei de gente insegura que usa o corpo de Cristo como uma extensão de seus egos e que manipula a comunidade para satisfazer as próprias necessidades. Cansei de sermões que contêm mais regras e moralismo do que a liberdade do amor divino e nos quais os relacionamentos ficam em segundo plano perante as demandas da instituição” (pag. 202).

O Cristo que se deve seguir é o Cristo que está no centro da vida das pessoas. É o Cristo que está no centro das atenções das pessoas, que são tão autenticas e se sentem livres para questionar, para duvidar, para discordar somente para continuam a viver a voz do Senhor sem serem acusados de serem rebeldes ou separatistas. O Cristo que se deve seguir é aquele que nos dá a liberdade e o poder de confiar na Sua capacidade de cuidar de nós diariamente.

O Cristo que se deve seguir é o Cristo que não fica preso em regras e modelos moralismos um tanto duvidosos, mas é um Cristo que se manifesta no próximo, na vida dos companheiros com quem partilhamos livremente a vida, seja numa rua, ou num ambiente de trabalho ou de escola.

O Cristo que se deve seguir é o Cristo da comunhão entre as pessoas. Cristo pode estar na manifestação de um relacionamento com um vizinho, um parente, um amigo. E é isto que é ser Igreja, e não uma organização institucional. O Corpo de Cristo é feito – ou deveria ser feito – de pessoas que se relacionam, e não de paredes e de uma hierarquia de lideres de sistemas.

Cristo anda longe do ‘jogo das igrejas’. Cristo anda longe de lugares onde os que ali participam “são meros assistentes passivos colocados a uma distancia segura do chamado líder”.

O que falar dos líderes? Seria cômico se não fosse trágico! Eu já fui um líder dentro do sistema institucional da igreja. Segundo o livro – e eu sou uma prova vivinha disso – são estes, as maiores vítimas do sistema.

“No que fim, todo o sistema humano desumaniza as pessoas a quem procura servir, e a maioria dessas pessoas que o sistema desumaniza são as que pensam que o lideram”.

(...)

“As pessoas que tratam os lideres como se eles possuíssem uma unção especial são as que correm mais riscos de serem enganadas por eles. Parece que as pessoas que são investidas de maior autoridade se esquecem de dizer não aos próprios apetites e desejos. Os lideres acabam muitas vezes servindo a si mesmos, achando que estão servindo aos outros só pelo fato de manterem uma instituição funcionando”.

Suavizam os autores:

“Porém nem todos os que fazem isso se tornam tão fracos. Muitos são servidores autênticos que, apesar de só desejarem ajudar os demais, foram levados a crer que esse é o melhor modo de fazê-lo. O erro do sistema deve sempre ser separado dos corações das pessoas que pertencem a ele (o sistema)” (pag. 111).

É por isto que sou um bom neto, e agora, um bom filho. Brincadeiras à parte, a verdade é que não é fácil viver da mesma forma depois que “um novo amigo João” passa na vida da gente. Na minha, ele teve o nome de José Marcelo. Um amigo (que é pastor) que o amo muito, e que me fez vivenciar e entender em momentos difíceis, mas essenciais como preparatórios para uma nova perspectiva de vida em Cristo, que viver em Cristo é ter alegria, liberdade e amor, uns pelos outros.

Viver em Cristo é ter relacionamentos. Dizia sempre o meu João:
“pessoas precisam de pessoas”. Como isso hoje soa suave aos meus ouvidos! Viver em Cristo é saber que Cristo está no meu próximo, mesmo que ele seja um estranho. É tudo aquilo que a Igreja primitiva viveu nos seus 300 primeiros anos, até que a instituição "tomou conta" do Corpo de Cristo.

Os autores concluem o livro, com algumas orações – agora no sentido lingüístico da palavra. Quero reproduzi-las para também encerrar esta postagem. Com elas respondo a pergunta título e instigo a sua leitura do livro.

“A maior parte das pessoas que encontro e com quem falo, porém, não está fora do sistema por ter perdido a paixão por Jesus ou por Seu povo, e sim porque as congregações tradicionais mais próximas não foram capazes de lhes satisfazer a fome de relacionamento. Estão em busca de expressões autênticas de vida em comunidade e pagam um preço altíssimo por isso. Pode acreditar em mim: todos nós acharíamos mais fácil nos deixar levar pela maré, mas, depois de experimentarmos a comunhão viva entre fieis fervorosos, é impossível nos conformarmos com menos” (pag. 203 e 204).

“Sei que incomoda certas pessoas o fato de eu não tomar meu assento num banco da igreja todo domingo de manhã, mas posso lhe garantir, com absoluta certeza, que meus piores momentos fora da religião institucional são, ainda assim, melhores do que meus melhores dias dentro dela (...) Hoje não precisamos mais ficar falando sobre a Igreja. Precisamos é de gente preparada para viver a realidade dela” (pagina 205).

Viver a realidade dela é viver relacionamentos.

Que tal voltar à Igreja? Veja Cristo em cada pessoa com quem você se relacionar e seja alegre e liberto para viver o amor do Deus Pai.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

HEIN?? POR MARTHA MEDEIROS

 

Crônica polêmica escrita por Martha Medeiros, no Jornal Zero Hora de 10 de julho de 2010.

“Quando meu pai ouve uma asneira muito grande, mas muito grande, ele costuma dizer: “É preferível ouvir isso do que ser surdo“, relativizando a ignorância alheia: há coisas piores na vida.

A surdez nunca me comoveu profundamente. Sempre imaginei que a deficiência auditiva seria a mais tolerável, mesmo sabendo que esse ranking é um disparate, não existe a melhor e a pior deficiência, ainda que, em segredo, todos já tenham pensado um dia: entre ser cego ou surdo, surdo toda vida.

O surdo tem recursos. Aparelhos auditivos, leitura labial, linguagem de sinais. Ele só não socializa se não quiser. E se não quiser, tem o álibi perfeito. “Desculpe, não estou escutando nada“.

Acabei de ler um livro que é o que costumo esperar de um bom livro: inteligente, divertido, humano, terno e bem escrito. Chama-se Surdo Mundo, do talentoso David Lodge, autor inglês. O título é um trocadilho deplorável, como todo trocadilho, mas não se pode querer tudo.

É a história de um professor de linguística aposentado que está perdendo a capacidade de ouvir. Ele, um aficionado pelas palavras, já não as escuta com precisão. Sua mulher está cada dia mais irritadiça por ter que repetir as frases toda hora. Seu velho pai já está meio surdo também, e além disso, caduco, o que torna as conversas entre eles totalmente nonsense. Uma aluna bonitona e sem escrúpulos entra na jogada e torna a confusão ainda maior. Mas essa confusão tem mesmo a ver com a surdez que ele sofre, ou com a surdez que ele deseja?

Estamos nos tornando surdos por gosto. As fofocas propagadas diariamente no local de trabalho, as queixas mil vezes repetidas na sala de jantar, as grosserias disparadas pelas janelas dos carros em meio ao trânsito, as angústias de sempre reprisadas nos divãs, as confissões íntimas que acabam por se banalizar: quem está a fim de ouvir quem hoje?”

Não por acaso, a personagem maluquete do livro está fazendo uma pesquisa sobre bilhetes de suicidas, pessoas que chegam ao extremo de se matar, por quê? Simplificando o que não é simples, poderíamos dizer que elas não estão sendo escutadas com a paciência e devoção que precisam. Um dia cansam de falar sozinhas.

Estamos todos muito barulhentos, virulentos, verborrágicos, ansiosos. Há muita comunicação, mas pouco conteúdo. A surdez pode ser uma deficiência física, mas pode também ser uma deficiência provocada, voluntária: cansei, não quero escutar mais nada.”.



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sábado, 27 de novembro de 2010

REFLEXÕES ACERCA DOS PARADIGMAS DA EDUCAÇÃO


De origem grega “parádeigma”, a palavra PARADIGMA literalmente significa “modelo”. Trata-se de uma representação de um padrão a ser seguido. É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico, uma realização cientifica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referencia inicial com base de modelo para estudos e pesquisas.

Assim, pode-se entender como um modelo mental que é adotado como sendo verdadeiro e representativo de um fato ou conjunto de acontecimentos, esquecendo-se que o ser humano ao formar seus paradigmas a partir de suas experiências, tende a generalizar as coisas a partir de poucas observações.

Segundo Thomas Kuhn “são paradigmáticas as realizações científicas que geram modelos que, por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explicito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas exclusivamente na busca da solução para os problemas por ela suscitados”.


PRESSUPOSTOS:

A realidade é uma construção sócio-histórica e cultural tecida pelos conflitos de interesses que movem a sociedade. Assim, o conhecimento é ma leitura histórica e política sobre a realidade em um processo permanente de mudanças.

O saber escolar com seus valores, crenças, hábitos, é fruto da tensão de grupos sociais que constituem a sociedade e do nível de autonomia profissional do professor de didatizar os conhecimentos do senso comum e os conhecimentos científicos. Assim, a ação de educar sempre está a serviço consciente ou inconsciente de projetos societais, por isso entender que a educação é um espaço em disputa constante.

Uma educação escolar que visa emancipação é aquela procura construir a identidade cidadã dos alunos para que seja fortalecida a democracia participativa, cabendo ao professor construir situações didáticas provocadoras de aprendizagens que sejam significativas, que construam a subjetividade cidadã, com currículos contextualizados, integrados e globalizados, fruto de uma autonomia didático-científico do docente.


RELAÇÃO EDUCADOR E EDUCANDO:

É necessário que o educador não tenha o velho medo de errar. Quem tem medo de errar é porque não tem coragem de experimentar uma prática nova, ficando estagnado ao velho paradigma, onde se torna o “senhor dos conteúdos”, eliminando a prática de troca de saberes. É necessário que o educador esteja preparado para dizer “não sei”, tendo uma postura desarmada e aberta. Ele será referencial para o aluno, pois o professor também deve se fascinar pela pesquisa e pelo novo, construindo relações afetivas mais verdadeiras.


ALICERCES PEDAGÓGICOS:

a) Pedagogia do encantamento: construir humanidade e envolvimento profissional.
b) Educabilidade: diversidade de percursos na aprendizagem e na ensinagem.
c) Pesquisa como principio de trabalho.
d) Escola como local de aprendizagens, de multiplicidade cultural, de tensão e aberta a mudanças.
e) Trabalho em equipe como estratégia de construção e de socialização das ações educativas na escola.
f) Realidade social enquanto espaço de pesquisa e de significações dos saberes.
g) Projeto político-pedagógico como elemento que articula a prática pedagógica.
h) Compromisso social com projeto societal filiado.
i) Prática inovadora inventiva, sendo inovadora e comprometida.


A ESCOLA ENCARNADA:

Premissas básicas para uma escola sedutora, aprendizagens significativas e currículos globalizados:

a) organização do tempo e do espaço pedagógico que considere e atenda a diversidade de sujeitos e de aprendizagens.
b) organização e implementação de material e de estratégias de ensinagens que não sejam indiferentes às diferenças.
c) um plano de acompanhamento avaliativo contínuo e sistemático de trabalho pedagógico.
d) referencia para a organização do trabalho pedagógico não é a idade e nem a série, e sim o nível sociocognitivo dos aprendentes (tempo e percurso de aprendizagens e o contexto social).
e) planejamento e plano de ensinagem contextualizados, integradores de saberes e competências.

Palavras chaves: flexível; prática cultural e exercício político; vivência identitária; contextualizado, temporário, conflitivo e precário; currículo enquanto pontos de interseções dos campos dos saberes científicos e do senso comum; integrador; sistemático e caótico; problematizador, dialógico; assimétrico e contraditório.


PARADIGMAS EDUCACIONAIS DE PAULO FREIRE:

A Educação deve-se atentar para os seguintes paradigmas:

a) Valorização da cultura.
b) Homem é um ser histórico e, portanto, inacabado.
c) Educar para a conscientização.
d) Ler a palavra para ler o mundo, compreendendo sua condição de oprimido.
e) Binômio: educador-educando, educando-educador.
f) Relações afetivas, democráticas e ombreadas.
g) Coerência.

Para Paulo Freire, há três momentos claros de aprendizagem:
a) O educando se inteira daquilo que o aluno conhece para trazer a cultura dele para a sala de aula.
b) Exploração de questões relativas ao tema em discussão.
c) Problematização: ações para superar impasses da prática.

São etapas do processo de alfabetização, segundo Paulo Freire:
a) Codificação – circulo da cultura (onde os educandos respondem às questões provocadas pelo coordenador, aprofundando suas leituras do mundo: Quê? Para quê? Como? Por quê? Por quem? Para quem? Contra quê? Contra quem? A favor de quem? A favor de quê?).
b) Decodificação e descodificação.
c) Análise e síntese.
d) Fixação da leitura.
e) Problematização

A epistemologia de Paulo Freire se opõe ao paradigma positivista que entende o conhecimento como neutro, livre de valor e objetivos. Paulo Freire entende que o conhecimento e continuamente criado e recriado, assim como as pessoas refletem e agem no mundo. O conhecimento não é fixo e sim um processo dinâmico, produzido coletivamente, buscando dar sentido ao mundo. Não existe separado do como e porquê é usado, no interesse de quem.

Para Freire o conhecimento propõe-se a fazer com que as pessoas se humanizem, superando a desumanização através da resolução da contradição fundamental da nossa época: aquela entre a dominação e a libertação, conhecida como a teoria da relação entre o oprimido e o opressor. A liberdade se dá por meio do diálogo crítico, libertador que leva a reflexão e ação.


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA EM PESQUISAS, PROJETOS DE EXTENSÃO E FORMAÇÃO:

Ocorre a partir do respeito à identidade cultural do outro.

Paulo Freire:

“A minha convicção é a de que a gente têm de partir mesmo da compreensão de como o ser humano com quem a gente trabalha compreende. Não posso chegar a área indígena e pretender que os indígenas que estão lá compreendam o mundo como eu o compreendo, com a experiência que tenho, não dá. Perguntaram-me qual era minha experiência acadêmica, de ajuda, de compreender a compreensão dele. Não vale a minha experiência acadêmica, minha sabedoria ‘pifa’ no momento em que não sou capaz de compreender a sabedoria do outro. (...) Mas respeitar a cultura do outro não significa manter o outro na ignorância sem necessidade, mas fazê-lo superar sua ignorância não significa ultrapassar os sistemas de interesses sociais e econômicos de sua cultura. É como se houvesse gente inteligente no outro planeta, noutro lugar, noutro universo, e viesse aqui, agora, e dissessem a mim que eu devo pensar da forma absolutamente contrária àquilo que penso, pois lá já se pensa diferente. Não posso me submeter a uma coisa dessas.” (2003, p.129,131)


POSSIBILIDADES DE AÇÕES PEDAGÓGICAS EFETIVAS:

a) Colocação de problemas e não apenas resolução de problemas.
b) Análise de situações problema.
c) Explorar a não-neutralidade da Educação.


O VELHO PARADIGMA DA EDUCAÇÃO:

Cabe ao professor lecionar, onde este só lê a matéria do dia. As aulas são expositivas, em que o conteúdo é quase “lido” para os alunos. O aluno é um receptor passivo, que ouve as explicações do professor (que sabe muito mais do que ele) e vai tateando em busca daquilo que acredita que o professor deve desejar que ele aprenda, diga, pense ou escreva.  A sala de aula é um ambiente de escuta e recepção, sem a possibilidade de conversas. A experiência é passada do professor para o aluno, e somente isso. O aluno aprende e estuda por obrigação. Os conteúdos curriculares são fixos, numa estrutura rígida que não prevê brechas nem modificações.

A tecnologia é desvinculada do contexto, sendo uma ameaça de substituição do homem. Os recursos são manipulados pelo professor, que prepara anteriormente o que se pode apresentar ou não. A escola é uma ilha que só comunica-se com as famílias quando necessário e não se abre a comunidade onde se está inserida.


O NOVO PARADIGMA DE EDUCAÇÃO:

O professor é o orientador do estudo. Ele orienta o processo de aprendizagem e, ao invés de pesquisar pelo aluno, ele o estimula a querer saber mais, desperta a curiosidade sobre as questões das diversas disciplinas. O aluno é o agente da aprendizagem, tornando-se um estudioso autônomo, capaz de buscar por si mesmo os conhecimentos, formar seus próprios conceitos e opiniões, responsável pelo próprio conhecimento.

A sala de aula é um ambiente de cooperação e construção em que, embora se conheçam as individualidades, ninguém fica isolado e todos desejam partilhar o conhecimento. Há a troca de experiência entre aluno/aluno e professor/aluno. O aluno aprende e estuda por motivação. Existe prazer na busca dos novos conhecimentos. Aprender é crescer. Os conteúdos curriculares atendem a uma estrutura flexível e aberta, em que cada aluno pode traçar os próprios caminhos.

A tecnologia está dentro do contexto, como meio, instrumento incorporado. O professor a utiliza como estimulo à aprendizagem. É utilizado por professores e alunos. A escola é um espaço aberto e conectado com o mundo. Os alunos têm contato com a comunidade, partilham experiências com colegas de outras escolas, fazem uso da internet.


TECNOLOGIA E OS PRESSUPOSTOS DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA – EAD:

O aluno é o centro do processo educativo. Possibilita a ampliação da oferta de cursos e ações de democratização, socialização, endereçabilidade e acessibilidade. Desmitifica o senso comum, promove o compromisso com o aluno. Promove a aceitação do desafio tecnológico e de aprendizagem, com a formatação de ambientes de aprendizagem diferenciados.

Possui como pressupostos:
a) construção socioindividual do processo de aprendizagem.
b) formação e qualificação permanente.
c) ênfase no aluno como sujeito real desse processo.

O uso da tecnologia faz com que os espaços de saber não estejam mais centrados na sala de aula presencial. Ensinar e aprender exigem muito mais flexibilidade, espaço temporal, pessoal e de grupo, menos conteúdos fixos e processos mais abertos de pesquisa e de comunicação.

Segundo Bordenave (1987), “a idéia de que a educação só é possível quando o professor e o aluno acham-se fisicamente no mesmo lugar vem do tempo em que a palavra, o gesto e o desenho eram os únicos meios de comunicação disponíveis”.

A tecnologia, neste contexto, segundo Mata (1995), deve ser entendida “como processo lógico de planejamento, de elaboração de currículos, métodos, procedimentos e meios que conduzam a aprendizagem”.

Andrade (1193) considera como novas tecnologias “todas as técnicas de modo original na solução de problemas, sejam elas invenções ou comportamentos, recentes ou não”.


CONCEPÇÕES DE APRENDIZAGEM:

a) Aprendizagem Tradicional: O conhecimento é um objeto. É algo que pode ser transmitido do professor para o aluno.

b) Aprendizagem Construtivista: É uma construção humana de significados que procura fazer sentido do seu mundo.

c) Aprendizagem Autônoma: O processo de ensino é centrado no aluno. As experiências são aproveitadas como recurso. O professor deve assumir-se como mais um recurso ao aluno. O aluno é considerado como ser autônomo, gestor do seu processo de aprendizagem.


GLOBALIZAÇÃO:

Segundo Giddens (1987) não é apenas um fenômeno econômico. É um sistema de transformação do espaço e do tempo. A interconexão global intensificada gera mudanças das relações tempo/espaço que têm conseqüências nos modos de operar a sociedade.


EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO CONTINUADA:

Segundo Nóvoa, “os programas educacionais fornecem a ocasião de aprender saberes e técnicas, de partilhar experiências e preocupações, mas a formação não é o resultado previsível de uma ação educativa. A formação é infinitamente mais global e complexa: constrói-se ao longo de toda uma trajetória de vida e passa-se por fases e etapas que é ilusório pretender ‘queimar’.”


BASES TEÓRICAS DA CAPACITAÇÃO DAS PESSOAS:

 A educação das pessoas deve passar por:

a) antropologia.
b) filosofia.
c) política.
d) economia e administração.
e) A influencia das TIC.
f) Psicologia e Desenvolvimento Humano.



PARADIGMAS HISTÓRICO-SOCIAIS:

Moraes (1997) apresenta um paralelo de várias correntes de pensamento no contexto histórico-social a partir dos séculos XVII, XVIII e XIX:

a) Paradigma Tradicional: Revolução Cientifica, Iluminismo, Revolução Industrial.
b) Paradigma Industrial: Luta competitiva pela própria existência. Fez com que a educação supervalorizasse algumas disciplinas, trazendo a idéia de que os fenômenos complexos necessitam ser divididos em partes para serem compreendidos.
c) Movimento da Escola Nova: No século XX, a escola percebe a importância do aluno no processo, devendo o ensino dar-se pela ação e não pela instrução.

Com a ruptura do paradigma visa-se “construir um modelo educacional capaz de gerar novos ambientes de aprendizagens em que o ser humano fosse compreendido em sua multidimensionalidade, como um ser indiviso em sua totalidade, com seus diferentes estilo de aprendizagem e suas distintas formas de resolver problemas”. (Moraes, 1997,p. 17)


SOLUÇÃO DE PROBLEMAS:

É um dos recursos mais acessíveis para levar os alunos a aprender a aprender. Supõe dotar os alunos da capacidade de aprender a aprender, de questionar e ir buscar respostas, de construir autonomia. Cria o habito e a atitude de enfrentar a aprendizagem como um problema para o qual deve ser encontrada uma resposta, bem como ensina a propor problemas para si mesmo e a resolvê-los. Prepara mais adequadamente para desenvolver habilidades e estratégias eficientes para buscar respostas para os problemas do cotidiano do processo produtivo-rotineiros ou inusitados.



GESTÃO DEMOCRÁTICA DA EDUCAÇÃO:

Instalação dos Conselhos de Escola num processo de construção ascendente: Lei 3.776/92.

A Constituição da Republica em seu artigo 206 afirma: “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: VI – a gestão democrática do ensino público, na forma da Lei”.

A LDB/96 em seu artigo 3° dispõe que: “o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: VIII – a gestão democrático do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino”. Já o artigo 14 afirma que os sistemas de ensino definirão as normas de GD, com: “participação dos profissionais da educação na elaboração da proposta pedagógica (inciso I), participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes”. Por fim, o Artigo 15 determina que “os sistemas de ensino assegurarão às escolas progressivos graus de autonomia pedagógica, administrativa e de gestão financeira”.

Dilema entre a democracia real e a democracia formal:

Segundo Chauí (1997, p. 141), “se a tradição do pensamento democrático, democracia significa: a) igualdade, b) soberania popular, c) preenchimento de exigências constitucionais, d) reconhecimento do direito da maioria, e) liberdade, torna-se obvia a fragilidade democrática no capitalismo”.

A gestão democrática dá importância a uma descoberta ser original. Assim, a gestão democrática seria um novo modo de administrar a realidade em si mesmo, democrática, que se traduz pela comunicação, pelo envolvimento coletivo e pelo diálogo.

A gestão democrática preocupa-se com a realidade escolar. Até os anos 80 o empresariado exigia do Estado apenas trabalhadores alfabetizados. Hoje exige-se com novos conteúdos e métodos de ensino: conhecimento, valores e habilidade que vão alem da memorização e dos conhecimentos tradicionalmente transmitidos pela escola ou do simples adestramento para a profissão.

Como construir a gestão democrática entre sujeitos e as instâncias de participação?


 

Gestão democrática de qualidade social:


Que educação queremos?  Uma mercadoria ou um direito? Uma educação que promova mudanças, transformações ou que procure a manutenção do existente? Uma educação que promova a emancipação ou a subordinação?



EDUCAÇÃO ESCOLAR E INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Definição dada por Howard Gardner.


EDUCAÇÃO ESCOLAR: È uma dimensão fundante da cidadania e tal principio é indispensável para participação de todos nos espaços sociais e políticos e para (re)inserção qualificada no mundo profissional do trabalho.

INTELIGÊNCIA ESPACIAL: Capacidade de perceber o mundo visual e espacial de forma precisa, de manipular formas ou objetos mentalmente e, a partir das percepções, criar e compor uma representação visual ou espacial.

INTELIGÊNCIA LOGICO-MATEMÁTICA: Determina a habilidade para raciocínio dedutivo, em sistemas matemáticos, em noções de quantidade, alem da capacidade para solucionar problemas envolvendo números e demais elementos matemáticos.

INTELIGÊNCIA CINESTÉSICA OU CORPORAL-CINESTÉSICA: Refere a habilidade para resolver problemas ou criar produtos através do uso de parte ou de todo o corpo.

INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL: Habilidade para entender e responder adequadamente a temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas.

INTELIGÊNCIA LINGUISTICA: Habilidade para lidar criativamente com as palavras nos diferentes níveis de linguagem (semântica, sintaxe).

INTELIGÊNCIA MUSICAL: Habilidade para apreciar, compor ou reproduzir uma discriminação de sons, habilidade para perceber sensibilidade para ritmos, timbre, e habilidade para reproduzir musica.

INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL: Competência de uma pessoa para conhecer-se e estar bem consigo mesma, administrando seus sentimentos e emoções a favor de seus projetos^

INTELIGÊNCIA NATURALISTA: Habilidade humana de reconhecer objetos da natureza, de distinguir plantas, animais, rochas. Indispensável para a sobrevivência do ambiente natural.


Leonardo Boff, em 2003, afirmou que “há um novo paradigma de cidadania. A escola está tendo uma nova dimensão a partir da crise mundial e da globalização. É preciso que se cuide da formação da pessoa, tornando-a capaz de ser varias coisas, e não apenas que se formem profissionais”.



EDUCAÇÃO DE ADULTOS: RESPONSABILIDADE SOCIAL E APRENDIZAGEM TRANSFORMATIVA

É necessária uma aprendizagem tranformativa, onde a educação de adultos tenha como pressupostos:

a) o auto-direcionamento na aprendizagem;
b) a aprendizagem experiência;
c) a aprendizagem contextual.

A educação e formação de adultos entendida numa perspectiva de responsabilidade social parte do pressuposto de que, por meio da participação, os adultos desenvolvem ou adotam atitudes e valores e fazem julgamentos morais relacionados com os seus papeis enquanto cidadãos. Implica aprender sobre direitos e deveres dos cidadãos e também sobre como cada um pode, através do dialogo, da reflexão e da deliberação, participar na construção da sociedade.

Assim, pelo fato de existir uma potencial capacidade do individuo moldar a percepção da realidade ao seu referencial enquanto pessoal, esta perspectiva destaca a competência do indivíduo, na construção de significados, senso este um paradigma que acentua a capacidade de autonomia do sujeito.


OBSERVAÇÃO: Este texto é um resumo que eu produzi com o material de aula da disciplina Paradigmas da Educação - Núcleo Comum: Educação e Inclusão, da Pós-Graduação em LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS - LIBRAS da Faculdade Educacional da Lapa / EADCON. 2010. Produzido em 27/11/2010.


COMO CITAR ESTE ARTIGO:
NOVAES, Edmarcius Carvalho. “REFLEXÕES ACERCA DOS PARADIGMAS DA EDUCAÇÃO". Disponível em: http://edmarciuscarvalho.blogspot.com/2010/11/reflexoes-acerca-dos-paradigmas-da.html em 27 de novembro de 2010.