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terça-feira, 20 de agosto de 2013

FILOSOFIA DA LINGUAGEM I – O ANTIPSICOLOGISMO DA LÓGICA EM KANT E JOHN STUART MILL



A Filosofia da Linguagem serve para contextualizar um problema. Para introduzir a Filosofia da Linguagem, essa e as próximas postagens, terão como discussão a crítica do psicologismo na lógica, a partir da Filosofia Moderna. A lógica não é psicologia porque a lógica é uma ciência e não como psicologia.

Kant define lógica não como ciência que estuda o pensamento, como uma psicologia portanto, mas é uma ciência a priori, universal, necessária, que estuda a forma do pensamento em geral, é uma ciência normativa e não se ocupa do fato do pensamento, mas como deveria ser a forma do pensamento em geral. 

Já John Stuart Mill defende que a lógica tem uma parte descritiva e outra prescritiva, normativa. A parte descritiva é uma parte psicologista e a prescritiva é uma ciência logica que se baseia na parte descritiva. Tendo, portanto, um tanto de psicologismo, e se separa do psicologismo com essa outra parte. Essas abordagens contextualizam o tema da disciplina.
A Filosofia Contemporânea da linguagem desenvolve-se com base em uma crítica ao psicologismo, o que está ligado à renovação da lógica e à superação da filosofia moderna da representação mental dos objetos do mundo exterior.

O ponto central da crítica ao psicologismo da lógica está em superar exatamente a separação absoluta entre o interno e o externo, definindo de forma precisa a diferença entre o subjetivo e o objetivo, entre ser e ser representado, sem que, com isso, sustente-se um primado do mundo subjetivo interno relativo ao conhecimento.

É o abandono da tese cartesiana de que o sujeito tem acesso fenomenológico privilegiado aos dados de sua consciência, e de que somente ele o tem. É a refutação da tese de que tudo a que podemos ter acesso cognitivo reduz-se a conteúdos mentais subjetivos e internos.

Por psicologismos (pois não existe somente um psicologismo), entende-se como a redução da filosofia, especialmente da lógica, à psicologia, isto é, ao estudo da vida psíquica subjetiva e de suas manifestações. Essa redução é em termos de dependência, onde a lógica depende de alguma medida da psicologia.

O psicologismo defende que, de alguma forma, há a preeminência da psicologia como estudo descritivo dos atos mentais subjetivos, sobre a lógica, que seria o estudo normativo dos mesmos atos. Alem disso defende a possibilidade, ou mesmo a necessidade da redução das regras do pensamento necessário a regras psicológicas de funcionamento da mente.

Essa disciplina estará, portanto, essa superação do modelo epistemológico da filosofia moderna, da lógica como estudo de atos mentais fundamentais do sujeito cognoscente. Para tanto, serão investidos inicialmente os filósofos Kant e John Stuart Mill, e posteriormente, de forma mais aprofundada, os filósofos Peirce, Frege, Russell e Wittgenstein.




A concepção de lógica para Kant como uma recusa do psicologismo


O filósofo escocês define a lógica enquanto “uma ciência racional não segundo a mera forma, mas segundo a matéria”, ou seja, trata-se de “uma ciência a priori das leis necessárias do pensamento”. Isso significa que a lógica se ocupa do uso correto do intelecto e da razão, não em objetos particulares, mas em geral. Para tanto, não se utiliza de critérios subjetivos, empíricos, psicológicos – e não se preocupa sobre como o intelecto pensa. Pelo contrário, a Lógica visa, objetivamente, entender sobre como o intelecto deve pensar.

Em razão disto, tem-se que a definição kantiana reflete uma recusa ao psicologismo, pois não tem por escopo o exame de como o pensamento é ou como ele acontece, de forma subjetiva e contingente. A análise é tão afastadado psicologismo e das ciências empíricas, que, para se determinar como o intelecto deve ser em todos os seus usos, Kant propõe como critérios a necessidade e a universalidade. Assim, a lógica é vista como uma teoria normativa, prescritiva, que é utilizada para se avaliar em geral, o uso do intelecto e da razão, segundo uma correção formal para que não se tenha generalizações a posteriori, próprias de psicologismos empiristas e descritivistas. 



A lógica, descritiva e normativa, em John Stuart Mill e o psicologismo


O filósofo inglês John Stuart Mill avança ao combate do psicologismo empirista. Em sua obra “Sistema de Lógica Dedutiva e Indutiva” (1843), o autor une elementos descritivos e normativos ao conceber lógica numa perspectiva behaviorista, ao apontar que a totalidade do comportamento humano, e não apenas da ciência, encontra-se sob a autoridade da lógica.

Nesse sentido, define a lógica enquanto “a ciência que trata das operações do entendimento humano na busca da verdade”, restringindo tais operações ao campo das inferências, e não às verdades conhecidas intuitivamente. Isso demonstra o utilitarismo da lógica, ou seja, a compreensão da lógica enquanto instrumental para favorecer o conhecimento, e ao mesmo tempo, aumentar o controle que se tem sobre o conhecimento.

Portanto, para Mill, é preciso que a lógica realize, em primeiro momento, sua parte descritiva - enquanto base, descrevendo o ato de pensar-, para que a partir daí sua parte normativa aconteça, determinando como pensar melhor, já que enquanto normatividade pode-se saber como pensar com mais vigor e cuidado, pela lógica.


BIBLIOGRAFIA:


KANT, Immanuel. Logik – ein Handbuch zu Vorlesung. 1799-1800. Tradução: Manual dos Cursos de Lógica Geral. Tradução, apresentação e guia de leitura de Fausto Castilho: Uberlândia; Campinas: EDUFU; IFCH-UNICAMP, 1998.


MILL, John S. Sistema de Lógica Dedutiva e Indutiva: Exposição dos princípios da prova e dos métodos de investigação científica. Trad: João Marcos Coelho. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


RODRIGUES, Cassiano Terra. Filosofia da Linguagem I: Guia de Estudos. Lavras: UFLA, 2013, p. 34-48.


OBSERVAÇÃO: 

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina “FILOSOFIA DA LINGUAGEM I” da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA – Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 18/08/2013.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

LÓGICA II - PARTE I: A LÓGICA DOS ARGUMENTOS




Este texto visa os estudos sobre a lógica dos argumentos. Nessa primeira parte analisaremos a tarefa da lógica dos argumentos e seus conceitos introdutórios. Na segunda parte, a validade formal e a verdade de fato. Já na terceira parte, realizaremos uma introdução à lógica na filosofia de Charles Sanders Peirce. Por fim, apresentaremos as idéias centrais do método axiomático e dos sistemas formais


INTRODUÇÃO: QUAL A TAREFA DA LÓGICA?

Ao lermos um poema, podemos perceber que as palavras estão organizadas numa certa ordem. Não estão dispostas de forma aleatória ou arbitrariamente. Mesmo que não conheçamos todas as suas palavras, há algumas que conhecemos e que são usadas da maneira como as conhecemos. Por isso, conseguimos identificar alguns verbos conhecidos. A sintaxe do poema, ou seja, a sua forma, permite estabelecer relações semânticas, isto é, de significado. Já o nível pragmático, ou seja, o emprego da linguagem, é que possibilita a interpretação.

Numa análise da lógica de qualquer linguagem tem-se por objetivo permitir descobrir padrões de relação entre os termos e expressões. Também quais as relações levam a outras relações e quais não levam. Nesse sentido, a lógica visa no processo de raciocinar e fazer suposições, responder o que pode decorrer necessariamente dessas suposições, o que se pode ter como conseqüências delas e o que não.

Apesar de sua ligação atualmente com a matemática, a investigação lógica nasceu na Grécia Antiga, com Aristóteles, sendo objeto de estudos, até hoje, de muitos filósofos. Quando a lógica passou por uma grande renovação, no século XIX, ela foi estudada por dois grandes pensadores: Frege e Peirce.


Pensadores da Lógica:

a) Frege:



Friedrich Ludwig Gottlob Frege (1848-1925) viveu no século XX e contribuiu significamente para a chamada filosofia analítica. Sobre a relação entre lógica e linguagem, Frege primeiro ressalta a intima ligação entre pensamento e sinais. Entendia que sem os sinais, ou seja, sem alguma linguagem, não é possível pensar, e é nessa relação simbólica que surge o pensamento conceitual, aquele “que não se atém ao que é imediatamente perceptível, mas que nos conceber o que ultrapassa o âmbito do que é meramente sensorial” (Rodrigues & Souza, 2012, p. 11).

Se por um lado, a natureza imprecisa da linguagem possibilita um uso impreciso da mesma (podendo-se fazer literatura ou poesia, por exemplo), por outro provoca um empecilho para a prática científica, uma vez que nesta é necessário determinação, precisão conceitual. Resumindo-se, Frege entende que para a prática cientifica, precisa-se de uma linguagem com precisão conceitual e objetivos específicos, o que favorece o conhecimento. Além disto, pode-se determinar um conjunto de noções lógicas fundamentais, das quais deriva a matemática.

Nessa análise da precisão conceitual, que possibilita uma prática científica que leva ao conhecimento e à uma possibilidade de determinar conjuntos de noções lógicas, Frege denominou-a de “conceitografia”, ou seja, uma linguagem simbólica que se afasta de imprecisões e ambiguidades. O pensador a entende como uma linguagem formular, podendo-se utilizar letras, como a matemática, para que se chegue às finalidades especificas da ciência. Sua importância reside justamente na possibilidade de construir inferências, numa seqüência lógica do pensamento, sem uso de tudo que não seja necessário para tanto.

Seus sucessores apontaram como crítica à contribuição de Frege para a análise da lógica, a impossibilidade de “reduzir toda a aritmética a um conjunto de noções lógicas fundamentais”. Além disso, que a “linguagem formular da Conceitografia mostrou-se muito difícil e laboriosa para ser utilizada corretamente” (Rodrigues & Souza, 2012, p. 12). De positivo, o uso de uma linguagem simbólica – sinais, signos – que contribuiu para a determinação de padrões de raciocínios e formas de inferências.


b) Peirce:



Charles Sanders Peirce (1839-1914) foi um dos descobridores do cálculo sentencial, também conhecido como cálculo proposicional. Trata-se da possibilidade de se fazer cálculos também na lógica, porém não se utilizando de números, mas de sentenças ou proposições.

Difere-se de Frege porque entendia que a diferença principal entre a lógica e a matemática é o interesse de cada uma delas. O lógico é aquele que estuda a ciência de extrair conclusões, já o matemático a de extrair conclusões necessárias.

O desejo do lógico é explicitar o caráter retórico de alguns passos, o caráter não necessário, sinuoso dos raciocínios humanos. Já o matemático analisa o cálculo lógico com a intenção de resolver o problema matemático em questão. O lógico interessa-se não pela solução do problema matemático em si, mas pelos passos lógicos necessários para solucioná-los. Não se despreza nenhuma etapa do problema, pois ele se interessa na solução de todas as pequenas etapas, e se elas são completamente racionais, se há algum outro elemento nelas, e não necessariamente, na solução do problema matemático como um todo.

A lógica, portanto, se interessa pelo caráter retórico do raciocínio, explicitando todos os passos (não somente os necessários) que ele percorre para chegar à conclusão.


UNIDADE 1. COMPREENSÃO E IDENTIFICAÇÃO DE ARGUMENTOS:

Entende-se como argumento uma série de sentenças (ou asserções), onde a conclusão decorre, ou é sustentada, por uma ou mais sentenças, chamadas premissas. Baseia-se na verdade hipotética das premissas, onde a verdade da conclusão é inferida dessas, razão pela qual sua natureza é inferencial.

Tais premissas e conclusão costumam estar acompanhadas de indicadores, que indicam que uma premissa (já que, porque, visto que, dado que, etc.) ou uma conclusão (portanto, por conseguinte, então, daí que, etc.) irá aparecer. Ressalta-se que nem sempre tais indicadores de premissas ou conclusões estarão presentes. O que é fundamental existir é uma inferência entre premissas e conclusões.

Pode ainda ocorrer o que se denomina de “entimemas”. Trata-se de argumentos em que uma ou mais premissas não estão explicitas, por se supor que é tão evidente ou tão aceita que não é necessário enunciá-la, ou mesmo porque foi escondida com a finalidade de evitar alguma critica e refutação.

Pode acontecer também de existirem sentenças, exclamações, explicações e definições que, com finalidade poética, retórica, explicativa, não contribuem para a inferência lógica da conclusão.

Para exemplificar, utilizaremos a seguinte argumentação:


“Acredito que a eutanásia deveria ser permitida. Seja somente porque a eutanásia acaba com um sofrimento desnecessário”.


(Premissa 3) Acredito que a eutanásia deveria ser permitida. (PREMISSA 2) NÃO DEVE SE PERMITIR O SOFRIMENTO DESNECESSÁRIO. Seja somente porque (Premissa 1)  a eutanásia acaba com um sofrimento desnecessário.

EM MAIÚSCULO – entimema.
Sublinhado – sentença que não contribui para a inferência.



Quando as premissas são identificadas, pode-se colocar o argumento em ordem padrão, onde as premissas antecedem a conclusão, sendo então possível avaliar tal argumentação.
Premissa 1 – A eutanásia acaba com um sofrimento desnecessário
Premissa 2 – Não deve se permitir o sofrimento desnecessário
Conclusão: Logo, acredito que a eutanásia deveria ser permitida.


A partir disto, pode-se construir um diagrama da estrutura do encadeamento dos argumentos:




2. FORMAS DE ARGUMENTOS: DEDUÇÃO E INDUÇÃO 



Existem várias formas de se construir raciocínios para sustentar asserções. De acordo com o tipo de embasamento oferecido pelas premissas, pode-se definir o tipo de argumento.


2.1. Dedução:

Esse tipo de argumento decorre necessariamente das premissas, não podendo haver contradições entre elas e a conclusão. A validade do argumento é justamente em razão de ser impossível que as premissas sejam todas verdadeiras e ainda assim a conclusão ser falsa. A relação entre as premissas e conclusão é regulada pelo principio de não-contradição, onde a verdade das premissas de um argumento dedutivo válido garante a verdade de sua conclusão. Dessa forma, um argumento é considerado inválido se as premissas forem verdadeiras e a conclusão falsa.

Existem vários tipos de argumentos dedutivos. Dentre outros, veja:


- Modus Ponens: Esse modo é aquele que “põe”, que afirma. A primeira premissa é condicional, já a segunda põe, afirma essa condição, tendo-se a conseqüência afirmada na conclusão.

Forma lógica:
Caso concreto:
A implica B
Se chover, molha
A é verdadeiro
Chove
Logo, B.
Logo, molha.

- Modus Tollens: Já esse modo é aquele que nega a condição. A primeira premissa é condicional, a segunda a nega, tendo a conseqüência, portanto, negativa.

Forma lógica
Caso concreto:
A implica B
Se eu ficar o bicho pega
B é falso
O bicho não pegou
Logo A é falso
Logo eu não fiquei

- Silogismo hipotético: Apresenta sempre sentenças condicionais, onde há um encadeamento de condições, que garante a necessidade da conclusão.

Premissa 1: Se chove, então a temperatura abaixa;
Premissa 2: Se a temperatura abaixa, então eu espirro.
Conclusão: Se chove, então eu espirro.


- Silogismo disjuntivo: Apresenta duas sentenças simples, ligadas por um “ou”. Será falsa somente se ambas forem falsas. Se uma for verdadeira, a afirmação é verdadeira.

Premissa 1: Vou à escola ou ao teatro
Premissa 2: Não vou à escola
Conclusão: Vou ao teatro

Pode acontecer ainda que em um argumento a conclusão esteja explicita totalmente nas premissas, denominado, nesse caso, de simplificação:

Premissa 1: Dilma é presidenta e gosta de economia.
Conclusão: Dilma é presidenta.

Ressalta-se que um argumento dedutivo nunca poderá ser inválido, pois sempre as premissas levam NECESSARIAMENTE a uma conclusão.


2.2. Indução:



Baseando em experiências vivenciadas, no que já aconteceu, para se fazer asserções sobre o que irá acontecer, na indução não é preciso ter uma relação necessária entre as premissas e a conclusão. As premissas não dão razões conclusivas, suficientes, para se concluir. Ela apresenta uma conclusão PROVÁVEL. Em razão disto, podem existir premissas verdadeiras e ainda assim a conclusão ser falsa.

O que há na indução é a análise de graus de probabilidades e não de necessidades. Em razão disto, uma argumentação indutiva não é considerada válida ou inválida, mas sim como forte ou fraca, variando de acordo com o apoio que as premissas apresentam à conclusão. Por exemplo:


Premissa 1: A lua sempre se apresenta todas as noites
Premissa 2: A lua sempre se apresentará.


Veja: o fato da lua sempre se apresentar todas as noites não é suficiente para concluir que necessariamente ela sempre se apresentará no futuro.

VEJA TAMBÉM:





BIBLIOGRAFIA:

RODRIGUES, Cassiano Terra; SOUZA, Edelcio Gonçalves de. Lógica II: Guia de Estudos. Lavras. UFLA. 2012.


OBSERVAÇÃO:

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula da disciplina “LÓGICA II” da Graduação em Licenciatura para Filosofia – Universidade Federal de Lavras / EAD – Polo UAB Governador Valadares, produzido em 06/10/2012

quarta-feira, 25 de julho de 2012

RESUMO: A LINGUÍSTICA SEGUNDO CHOMSKY



Avram Noam Chomsky (1928 - atual).


Lingüista, filósofo e ativista político de esquerda, estadunidense.

Sua teoria lingüística é chamada de Gramática Gerativa


SAUSSURE: A língua é um objeto fundamentalmente social.


CHOMSKY: A língua é um objeto mental. Um sistema de princípios radicados na mente humana. A análise da relação entre mente e língua.

Não se interessa pela análise das expressões lingüísticas consideradas em si mesmo, separadas das propriedades mentais, bem como do aspecto social que a língua apresenta.

Cria o módulo lingüístico chamado Faculdade da Linguagem.

  • A língua é um fenômeno que parece ser exclusivo da espécie humana (tipo particular de estrutura e organização mental).
  • Existe um módulo lingüístico na mente, constituído de princípios responsáveis pela formação e compreensão das expressões lingüísticas, especialmente dedicadas à língua.
  • Essa faculdade é inata (todos os seres humanos nascem dotados dela) e é parte da dotação genética da espécie humana.
  • Chomsky difere de Saussure porque essa faculdade é especifica da língua, não associando às outras formas de linguagem.


GRAMÁTICA GERATIVA

Faculdade da linguagem:

a) Gramática Universal: todo ser humano é dotado da faculdade da linguagem, e toda criança parte do mesmo estado inicial em seu processo de aquisição da primeira língua, independentemente de ser ouvinte ou surda.

b) Ambiente Lingüístico: na medida em que cada criança é exposta a um ambiente lingüístico particular, esse estado inicial da faculdade da linguagem vai se modificando.


Conclusões:
1° - A língua está associada ao estado inicial da faculdade da linguagem + os resultados do desenvolvimento desse estado inicial pelo contato com um determinado ambiente lingüístico.
2° - A partir disto, a Gramática Gerativa consegue:
a) descrever o conhecimento do falante de uma língua em particular;
b) caracterizar o tipo de conhecimento inato que a criança traz para o processo de aquisição de uma língua;
c) explicar os processos que levam uma criança desse ponto inicial do conhecimento lingüístico inato até o conhecimento de sua língua.


Objeto de estudo da Gramática Gerativa:

A língua enquanto competência, ou seja, o conhecimento que um falante tem de sua língua, desenvolvido a partir da informação genética trazida pela faculdade da linguagem em seu estado inicial.

É o conhecimento mental que um falante tem de sua língua. É o resultado do desenvolvimento do conhecimento lingüístico inato, a partir de sua interação com dados de uma determinada língua.

O contrário de competência é performance, ou seja, o uso concreto da língua.

Por exemplo, lapsos de memória não é um problema de competência, mas de performance


Linguisticamente um professor de doutorado e um trabalhador rural de baixo nível de escolarização são iguais?

Ambos têm uma competência com a língua portuguesa igual, o que os diferencia é a competência para utilizá-la em situações sociais diversas.


Como pode isso?

Ambos nasceram biologicamente iguais, ou seja, os dois têm a mesma faculdade da linguagem com as mesmas informações lingüísticas genéticas. Os dois cresceram em ambientes lingüísticos em que o português era a língua falada. Em conseqüência, os dois desenvolvem a mesma língua, a mesma competência.

A diferença sócio-cultural-econômico causa desnível da performance, e não da competência.


O FOCO DA GRAMÁTICA GERATIVA:

Se Saussure analisava os componentes dos signos (significado e significante), Chomsky preocupa-se com os princípios inscritos na mente humana que compõe esse sistema chamado Língua.

Exemplo:

Sintagma Nominal: os constitutivos de uma sentença.

PORTUGUÊS
Os
meninos
inteligentes.
artigo + plural
substantivo + plural
adjetivo +plural

INGLÊS
The
intelligent
boy+s
artigo
adjetivo
substantivo+plural


Sentenças Interrogativas:

PORTUGUES:
Quem o João viu ontem? / O João viu quem ontem?

INGLES:
Única forma: Quem o João viu ontem?


NA LÍNGUA DE SINAIS:

Têm-se entendido que a ordem básica é: SUJEITO – VERBO – OBJETO.

Mas é comum o uso de frases como:

LIVRO            PEDRO           COMPRAR    ONTEM
Objeto             Sujeito             Verbo

Em sentenças interrogativas, podem existir dois tipos de ordem:

JOÃO COMPRAR O QUÊ? 
QUEM COMPRAR CARRO QUEM?


O DESENVOLVIMENTO DA GRAMÁTICA NA MENTE DE UM FALANTE


Há uma dicotomia extrema:

Língua como objeto externo à mente
Língua como objeto interno da mente
Falante chega ao conhecimento de sua língua por meio de um sistema de aprendizagem que envolve processos de observação, memorização, associação, etc.
Os seres humanos nascem dotados de um conjunto de estruturas lingüísticas mentais altamente abstratas e geneticamente determinadas, que funcionam como um mapa, orientando o processo de aquisição de língua para a criança.

Esse conjunto de estruturas lingüísticas mentais é a Gramática Universal.


Porque então as pessoas não falam a mesma língua?

O ambiente em que a criança cresce tem um papel fundamental na aquisição.

É dessa interação da gramática universal com o ambiente lingüístico que se desenvolvem as gramáticas dos falantes ou de qualquer língua de sinais.

Como Chomsky explica a relação entre significante e significado?

Ele não explica. A Gramática Gerativa não se preocupa com questões de significado, de léxico. A preocupação é a estruturação da sentença, ou seja, a sintaxe.

Se Chomsky se preocupa somente com a sintaxe, e as demais partes da análise da Lingüística que não são estruturais, sintáticos, não são também língua?

São. Porém as outras partes para Chomsky não são inatas e, portanto, não são focos da atenção central dos estudos da Gramática Gerativa.

OBSERVAÇÃO:

Material preparado para a aula da disciplina de Linguística, para o Programa de Pós-Graduação em Libras do IMES - Instituto Mineiro de Ensino Superior, produzido em 20/07/2012.

terça-feira, 24 de julho de 2012

RESUMO: A LINGUÍSTICA SEGUNDO SAUSSURE



Ferdinand de Saussure (1857 a 1913).
Lingüista e filosofo suíço.
Sua teoria propiciou o desenvolvimento da Lingüística enquanto ciência autônoma.
Influenciou a teoria da literatura e dos estudos culturais.
Serviu de base para o desenvolvimento do estruturalismo (a realidade social como um conjunto formal de relações) no século XX.
Pronuncia-se mais ou menos “sóissir”.



LINGUÍSTICA:


Idade Antiga: Interesse filosófico. Estudo filosófico, como de Aristóteles, da relação entre língua e pensamento, gramática, retórica, poética.

Idade Média: Tentativa de preservar o latim da influencia das línguas dos povos bárbaros que invadiram o Império Romano. Registro do surgimento de outras línguas como o espanhol, italiano, francês, romano, português.

Idade Moderna: Com o descobrimento da África e das Américas e com o domínio europeu na Ásia, surgiu o interesse lingüístico em relação às diferentes línguas como, por exemplo, as línguas africanas e o chinês.

1816. Historiador lingüístico Franz Bopp. Estudo comparativo da conjugação verbal entre diversas línguas, como o grego, latim, persa, germânico – todas essas línguas têm uma origem em comum: “família das línguas indo-européias”.

  
Análise da língua e da linguagem, não somente na comparação entre as variadas línguas.

Linguagem
·  Ciência, pois não só descreve os fatos lingüísticos, como busca uma explicação coerente para a sua ocorrência.
·  É uma faculdade humana, uma capacidade que os homens têm de produzir manifestações simbólicas: as artes, o cinema, o teatro, a dança e a língua, por isso não tem como ser estudada como uma categoria única de fatos humanos.
·  A linguagem pode ser analisada a partir de várias ciências: fisiológica, antropológica, etc.

Língua  
·  Sistema de valores estruturado e autônomo que é subjacente a toda e qualquer produção lingüística.
·  É uma parte bem definida e essencial da faculdade da linguagem.
·  Um conjunto de convenções necessárias, estabelecidas e adotadas por um grupo social para o exercício da linguagem, por isso é um produto social e também é convencional.
·  A partir da língua, se pode classificar e estabelecer certa ordem da linguagem. A língua é o objeto da lingüística, pois é o produto social da faculdade da linguagem, e por isso, é uma unidade.

AS DICOTOMIAS SAUSSURIANAS:

1. Língua x Fala:


A fala é a prática da língua, porém a língua não se limita ao meio sonoro, gestual, escrito, sendo um sistema.  A fala é individual, já a língua é um produto social, não podendo ser modificada por um único individuo. A Lingüística deve estudar apenas a língua.


Mas o que significa dizer que a língua é um sistema:

Conjunto organizado
Escola
De elementos, que se define pelas características desses elementos
Estudantes
No qual cada elemento se define pelas diferenças que apresenta em relação a outro elemento
Alunos da 1ª série são definidos por oposição aos da 2ª serie.
E por sua relação com todo o conjunto
Alunos do turno matutino e vespertino


Então na língua só há diferenças. E em cada diferença que se estabelece entre cada elemento do sistema é que se revela o seu valor lingüístico.

Exemplo de diferenças na linguagem: /ata/ - fonemas: p, b, m, l.

Exemplo de valor lingüístico: /ar/ - fonemas: bord, cant, mat. E se diferente do /er/ e /ir/.

Na Libras:

Qual diferença, na análise da fonologia, entre APRENDER e SÁBADO? Ponto de Articulação.

Qual diferença, na análise da morfologia, entre SEMANA, DUAS-SEMANAS, TRÊS SEMANAS? Composto de dois morfemas (numero + semana pela configuração de mãos).


2. Significado x Significante:

Signo lingüístico: são unidades lingüísticas que significam alguma coisa. Uma palavra (arvoredo: arvor + edo), uma sentença (uma frase) e um texto são também signos (Os Lusíadas de Camões), pois tem uma significação própria.

Questionamento:

O mundo está repleto de coisas e utilizamos a língua para nomeá-las (e as coisas já existiam antes da língua) ou nossas idéias a respeito do que as coisas são dependem da língua?

Para Saussure:
·  Antes da língua, existem duas massas amorfas (nebulosa, desordenada): a do pensamento e a fônica/gestual
·  Ao impor uma formatação à massa amorfa do pensamento, a língua cria o significado – o conceito.
·  Ao impor uma formatação à massa amorfa fônica/gestual, a língua cria o significante – a imagem acústica (línguas orais) ou ótica (línguas de sinais).
·  Juntos, significante e significado, formam o signo lingüístico.
·  Esse processo de formatação das massas é ao mesmo tempo, onde a língua cria ao mesmo tempo o significado e o significante. Metáfora da folha de papel.


Cada signo tem seu valor, ou seja, cada signo difere-se quando comparado à outros signos. É a partir disso que se pode dizer que a língua é um princípio de classificação: uma forma de interpretar, de organizar e categorizar o mundo.

Para Saussure, naquela época (diferente de hoje), a Lingüística considera a análise dos significantes e significados como formas, não substâncias. Se fossem substancias seriam objeto de estudo, respectivamente da Psicologia e da Fonética acústica e articulatória.


3. Sintagma x Paradigma:

A análise do valor dos elementos lingüísticos deve ser feita considerando dois eixos:

Eixo Horizontal - Sintagmático
Eixo Vertical – Paradigmático
Trata das relações combinatórias.
Trata das relações associativas
Contraste que um elemento estabelece com outro elemento que está adjacente a ele na cadeia de elementos que ocupa a linha horizontal
Os signos que têm algo em comum se associam em memória, formando grupos.
Exemplos:
In-constitu-cion-al.
Forçar a barrar (insistir)
Não dar bola (não dar importância)
Exemplos:
a) Semelhança de significados: Demonstração, exibição, amostragem, exposição.
b) Semelhança de radical: demonstrar, demonstração, demonstrável.
c) Semelhança do sufixo: educação, construção, constituição.

Ressalvas:

Para Saussure, o significante de um signo (imagem acústica ou gestual) é sempre imotivado, arbitrário.

A Libras têm a maioria de seus sinais icônicos. Saussure não levava em consideração as línguas de sinais.


4. Sincronia x Diacronia:

A lingüística é um tipo de ciência que deve ser construída sobre dois eixos:

Eixo do estado
Eixo das evoluções
É o eixo sincrônico
É o eixo diacrônico
A língua é estudada como ela se apresenta em um determinado momento de sua história
A língua é estudada como um produto de uma série de transformações que ocorrem ao longo do tempo

Ressalta-se que as línguas não mudam intencionalmente, são mudanças naturais.

No campo da sociolingüística não há muitas pesquisas profundas sobre as mudanças que ocorreram na Libras.


RESUMO DE SAUSSURE:

  • Diferencia língua de linguagem;
  • Língua é um sistema de valores, em que o valor de cada unidade é computado pela diferença que essa unidade apresenta em relação a outras unidades do sistema, e em relação a todo o sistema.
  • O calculo do valor dos elementos lingüísticos deve ser feito levando em consideração dois eixos: das relações paradigmáticas e das sintagmáticas.
  • Diferença entre língua e a fala, que a manifestação externa desse sistema de valores.
  • A constituição do signo lingüístico como a associação indissolúvel de um significante e de um significado, ambos obtidos, respectivamente, de uma formatação feita em uma massa amorfa fônica/gestual, e em uma massa amorfa do pensamento.
  • A constituição do signo pode ser motivada, mas é sempre convencional.
  • A língua pode ser estudada em sua dimensão estática e em sua dimensão evolutiva/histórica.

OBSERVAÇÃO:

Material preparado para a aula da disciplina de Lingüística, para o Programa de Pós-Graduação em Libras do IMES - Instituto Mineiro de Ensino Superior, produzido em 20/07/2012.