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domingo, 14 de dezembro de 2014

ESTÉTICA NA ANTIGUIDADE GREGA: A FILOSOFIA DE PLATÃO E ARISTÓTELES


O presente texto é uma produção realizada a partir de um fichamento da disciplina “Estética” do Curso de Licenciatura em Filosofia, que realizo pela Universidade Federal de Lavras, em novembro de 2014, analisando alguns problemas e conceitos chaves da Estética durante a Antiguidade Grega, precisamente, a partir da Filosofia de Platão e Aristóteles. 


Os poetas inspirados na Grécia Antiga:

No período micênico e arcaico, a função do poeta podia ser compreendida como a de ser o “mestre da verdade”. Noutras palavras, isto significa que, dependendo de sua palavra, ou de seu silêncio, a façanha do guerreiro seria eternizada por meio da memória, ou cairia no esquecimento. 

Os atos do guerreiro, no período compreendido entre o século XII e IX a.C (período de uma cultura helênica predominante, onde a tradição oral era imprescindível para o que desenvolvimento de uma memorização ocorresse), não lhe pertencia. O guerreiro arcaico dependia da palavra do poeta. Essa palavra era eficaz, pois, além de refletir uma eficácia pragmática mnemotécnica, apontava para uma memória divinizada, para uma potência religiosa. 

Portanto, por meio de sua palavra cantada, o poeta, celebrava as façanhas dos homens valorosos, bem como louvava aos deuses imortais. Aos homens valorosos, tal canto servia para “imortalizar” a existência e o próprio ser do guerreiro, ou para levá-lo para a obscuridade do silêncio e da morte. 


Estudo do problema da inspiração divina em Platão:

“Mas, o homem que, sem ser tomado por essa loucura (mania) dispensada pelas Musas, chega aos portais da poesia com a convicção de que, no final de contas, a arte (techné) bastará para fazer dele um poeta, este é um poeta imperfeito; da mesma forma, diante da poesia daqueles que são loucos, ofusca-se a poesia daqueles que estão na posse de sua razão.” (Fedro, 245a).

O Íon é um diálogo aporético da juventude de Platão, em que cuja dialética, se propõe a refutar as opiniões de seus interlocutores em busca da excelência que se repousa sobre o saber. Íon, o interlocutor neste caso, é tido como um rapsodo, isto é, um anti-dialético, que além de ser considerado tolo, comportava-se com jactância como sua marca. Aristóteles entendia que o homem virtuoso se encontra no meio dessas duas características: 

"No que diz respeito à verdade (alétheia), podemos chamar de verídico aquele que se mantém no meio e de veracidade, a justa medida. A dissimulação que tende ao aumento é a alazonia e aquele que a pratica, um alazon; aquela que tende à diminuição é a ironia e quem a pratica, um iron" (II-7).

Assim, o alazon é “aquele que finge possuir títulos de glória que não possui ou então aqueles maiores do que realmente tem”. Já o iron “nega possuir os títulos de glória que possui ou os faz menores do que são” (IV-7). 

Como Íon se portava com jactância (ninguém saberia expressar pensamentos mais belos sobre Homero que ele mesmo, merecendo uma coroa de ouro), Sócrates queria demonstrar que era um rapsodo, pois entendia que o que os poetas faziam não decorriam de uma arte (techné) ou de um conhecimento próprio, mas antes, de uma inspiração de ordem divina. Para tanto, apresentou dois argumentos: a) se Íon confessa ser incapaz de discorrer sobre outros poetas que não Homero é porque não fala por arte ou conhecimento, pois a especificidade conferida através da inspiração pelas musas contrapõe a universalidade de conhecimentos de quem possui uma arte; b) cada arte corresponde a uma profissão de acordo com a aptidão natural, e, portanto, ser especialista de todas as artes é o mesmo que não ser especialista em nenhuma.

Portanto, se no mundo micênico e arcaico onde a inspiração divina do poeta concedia-o a condição de “mestre da verdade”, de uma palavra eficaz, em Íon, Platão retoma a essa inspiração para refutá-la decorrente de qualquer conhecimento. Trata-se de uma possessão por um deus, sendo este o responsável pela beleza dos poemas, onde o poeta é um mero instrumento da voz divina, perdendo o uso de sua razão.


Inspiração divina no Fedro:

Na palinódia de Sócrates no Fedro tem-se um diálogo que se inicia com um encontro de Fedro e Sócrates pelo caminho. O primeiro, saindo da casa de Lísias, tinha consigo um discurso que, ao fala-lo com Sócrates, deixa-o curioso, fazendo que Fedro e Sócrates fossem para fora da cidade para analisa-lo. Sentados sob a sombra de uma arvore, passa-se a ler o discurso. Tal lugar era marcado pela presença do divino:

"Mas, meu caro Fedro, não te parece que estou falando sob uma inspiração divina? (...) Na verdade, esse lugar parece divino. Não deves admirar-te se durante o discurso as ninfas tomarem posse de mim, pois o que estou dizendo já se assemelha muito a um ditirambo"(238c)

Pode-se considerar que o fato de Fedro levar Sócrates para fora da cidade como uma representação do espaço onde os discursos se produzem e são transmitidos, apontando para a formação dos homens. Na cidade os discursos são feitos, sendo a cidade de fundamental importância para que o homem possa ser formado. No entanto, é preciso que o homem “deixe a cidade”, isto é, para sua formação é preciso que o homem vá além dos discursos que a cidade forma e comporta. Ir além dos muros da cidade significa que o homem deve ir além de si mesmo. Tanto Fedro como Sócrates podem ir além da própria alma humana. 

Deixar a cidade e ir para um lugar onde a presença do divino se faz presente significa deixar a cidade e sua dialética, deixar a discussão em praça pública e se aprofundar nos discursos inspirados enquanto prática privada de se relacionar com a natureza, e a plenitude de divindades. No próprio diálogo, Sócrates recorre ao cenário natural para ir além de sua realidade, mas para se aprofundar nos mitos, nas lendas contadas, auxiliando na compreensão das questões desenroladas no diálogo entre ele e Fredo. 



Estudo da crítica à poesia nos primeiros livros da República:

A discussão acerca da possível elaboração do livro I da República antes dos demais, com sua incorporação posteriormente, possuem argumentos favoráveis e contrários. Isto se dá, principalmente, em razão do próprio titulo e subtítulo da obra, fazendo com que alguns estudiosos a compreenda como uma obra que consagra enquanto questão principal a educação (assim entendem Rousseau e Havelock), e outros estudiosos a considere como um primado acerca do Estado, sendo um ideal de cidade (como entende, por exemplo, Diès).

Segundo Takayama (2014, p. 38), com base nos estudos de Annas (1994, p. 25-27) pode-se observar que “o livro I se assemelha aos primeiros diálogos socráticos os quais, via de regra, partindo de um pretenso conhecimento por parte de seus interlocutores, terminam numa aporia”. Já os demais livros, onde não se tem interlocutores já individualizados de forma clara, “poderiam ser considerados muito mais como um monólogo por parte de Sócrates do que propriamente um diálogo, aproximando assim a República das últimas obras de Platão”.

Certo o é que em tal diálogo tem-se um painel que expõe como a cultura ateniense daquela época se dava, notadamente, a partir da paideia grega, onde os poetas, e sobretudo, Homero, ao apontar o problema da justiça, utilizavam-se de fábulas, para descrever como os deuses castigavam os mortais por causa de suas iniquidades. Platão propunha então uma crítica à poesia, desde o Livro I de a República, denunciando como o encanto cego pelas palavras dos poetas se dava, chegando, ao ponto de concluir que o problema da justiça, na verdade, se dá porque ela “só é útil para as coisas inúteis”, bem como “que o homem justo e bom é o mais habilitado para roubar dinheiro; além de ser ele o responsável por tornar outras pessoas piores e mais injustas” (TAKAYAMA, 2014, p. 41).



Estudo da crítica à poesia nos primeiros livros da República:

Platão, nos primeiros livros de República, se põe a criticar os poetas, sobretudo Hesíodo e Homero, a partir de aspectos teológicos e morais. 

Para o filósofo, o problema da justiça na alma individual poderia ser compreendido a partir de uma analogia à justiça na sociedade, sendo a diferença que naquela é difícil de ser visualizada a questão da justiça, e nesta última, ao contrário, ao se transpor à alma individual, a justiça possui dimensões ampliadas, sendo facilmente percebida, em razão de sua diferença dar num grau maior. Tem-se assim que para o filósofo, é preciso saber o que é justo para se criar bem as pessoas, podendo dessa forma também se ter uma cidade justiça, uma vez que o contrário é verdadeiro: uma cidade só é justa, se nela as pessoas assim o forem. 

Analisando a gênese da cidade, Platão ao propor uma formação especifica para os guardiões da cidade no seu exercício de defesa e da promoção do bom funcionamento da mesma, crítica como se dá formação tradicional grega, que se utiliza da música para a alma, com discursos verdadeiros e mentirosos. Os mentirosos são justamente as fábulas que são utilizadas para instruir as crianças. Platão afirma como necessário recusar as fábulas ruins, sobretudo as de Hesíodo e de Homero, que ensinam a existência de um Deus que causa a desgraça, pois Deus é bom. Não se pode aceitar também fabulas que ensinam um Deus que se modifique e que engana os outros, pois Deus é perfeitamente simples e verdadeiro. De igual forma, é preciso refutar o quadro tenebroso exposto pelas fábulas mentirosas à respeito do Hades (para Platão, tão falso quanto inútil), bem como “os risos homéricos dos deuses, exemplos de avareza e mesquinhez, cenas de adultério e outros atos sacrílegos” (TAKAYAMA, 2014, p. 44).

O filósofo entende que a formação tradicional grega, com a utilização de tais fábulas mentirosas, tanto em seu conteúdo como na sua forma veiculada, traz um evidente prejuízo na formação moral da juventude.



Crítica da poesia no livro III da República: a mímesis

O conceito de mímese aparece na obra República, na discussão sobre os modos de composição ou dos estilos poéticos. Koller (1954) propõe sua definição ao analisar sua origem relacionando-a com o grupo de palavras ligadas à dança e à música que faziam parte dos cultos dionisíacos, cuja representação era a exteriorização de uma determinada entidade espiritual incorporada. Junto à Havelock (1993), tem-se uma noção de “revivificação” ou “expressão” dramática, um “comportamento caracterizado por empatia” no sentido de que “fazer como outro faz”, ou mesmo de artefatos animados. Diferentemente dos autores citados, Else (1958) a partir de ocorrências pré-platônicas, propõe a concepção de mímese enquanto a ideia de imitação (como cópia de um original, através da “representação direta” de gestos e sons), ou uma imitação ética de um “exemplo” moral, ou ainda, enquanto réplicas (de uma pessoa ou coisa em forma material). Platão avança na conceituação ao afirmar que ela ocorre quando o poeta se dirige falando como sendo outra pessoa (quando sua linguagem tenta ser parecida com a da pessoa por ele anunciada). Para além desse modo de narrar, ainda pode ser pensando no sentido de uma performance de um rapsodo ou ator, uma “representação” dramática de gesto e fala de um personagem qualquer.

Sua relação com o banimento dos poetas na cidade ideal se dá porque com a intervenção do Estado na educação institucional, segundo o principio da especialização, é preciso condenar todo tipo de poesia que objetive tudo imitar, favorecendo somente aquelas que imitem somente as virtudes do homem de bem, o que é apropriado para a formação moral dos guardiões da cidade, uma vez que a existência do poder da mímese na formação da alma jovem, devendo se ter uma “estrita vigilância do que deve ou não ser imitado pelos futuros guardiães” (TAKAYAMA, 2014, p. 52). 


As artes imitativas no livro X da República e no Sofista:

Acredito que a indagação acerca de ser Platão um inimigo declarado e incondicional das artes não se sustenta enquanto verdadeira. Primeiro, é preciso considerar a partir do referencial ora estudado, que se têm um painel sobre a cultura ateniense daquela época, sobretudo, a partir da “paideia grega”, onde os poetas, em especial Homero, ao apontar o problema da justiça, utilizavam-se de fábulas, para descrever como os deuses castigavam os mortais por causa de suas iniquidades. 

É neste contexto que Platão propunha então uma crítica à poesia, desde o Livro I de a República, denunciando como o encanto cego pelas palavras dos poetas se dava, chegando, ao ponto de concluir que o problema da justiça, na verdade, naquele contexto, se dava porque ela “só é útil para as coisas inúteis”, bem como “que o homem justo e bom é o mais habilitado para roubar dinheiro; além de ser ele o responsável por tornar outras pessoas piores e mais injustas” (TAKAYAMA, 2014, p. 41). Platão avança na conceituação ao afirmar que a mímese que ora denunciava ocorria quando o poeta se dirige falando como sendo outra pessoa (quando sua linguagem tenta ser parecida com a da pessoa por ele anunciada). Para além desse modo de narrar, esta pode ser pensada no sentido de uma performance de um rapsodo ou ator, uma “representação” dramática de gesto e fala de um personagem qualquer.

Em segundo lugar é preciso considerar que Platão, nos primeiros livros de República, se põe a criticar os poetas, sobretudo Hesíodo e Homero, a partir de aspectos teológicos e morais. Para o filósofo, o problema da justiça na alma individual poderia ser compreendido a partir de uma analogia à justiça na sociedade, sendo a diferença que naquela é difícil de ser visualizada a questão da justiça, e nesta última, ao contrário, ao se transpor à alma individual, a justiça passa a possuir dimensões ampliadas, sendo facilmente percebida, em razão de sua diferença se dar num grau maior. Tem-se assim que para o filósofo, é preciso saber o que é justo para se criar bem as pessoas, podendo dessa forma também se ter uma cidade justiça, uma vez que o contrário de tal afirmativa é verdadeiro: uma cidade só é justa, se nela as pessoas assim o forem. 

Por fim, é preciso considerar a análise da gênese da cidade na perspectiva de Platão, quando este propõe uma formação especifica para os guardiões da cidade no seu exercício de defesa e da promoção do bom funcionamento da mesma. O filósofo se põe a criticar como se dá formação tradicional grega, que se utiliza da música para a alma, com discursos verdadeiros e mentirosos. Os discursos eivados são justamente eram justamente tais fábulas utilizadas para instruir as crianças. Platão afirma como necessário recusar as fábulas ruins, sobretudo as de Hesíodo e de Homero, que ensinam a existência de um Deus que causa a desgraça, o que contraria a perspectiva de que Deus é bom. Não se podia aceitar também fabulas que ensinavam um Deus que se modificava e que enganava os outros, pois Deus é perfeitamente simples e verdadeiro. De igual forma, era preciso refutar o quadro tenebroso exposto pelas fábulas mentirosas à respeito do Hades (para Platão, tão falso quanto inútil), bem como “os risos homéricos dos deuses, exemplos de avareza e mesquinhez, cenas de adultério e outros atos sacrílegos” (TAKAYAMA, 2014, p. 44). O filósofo entende que a formação tradicional grega, com a utilização de tais fábulas mentirosas, tanto em seu conteúdo como na sua forma veiculada, trazia um evidente prejuízo na formação moral da juventude.

Assim, sua relação com o banimento dos poetas na cidade ideal se dava não porque Platão era um inimigo declarado e incondicional das artes, mas sim porque entendia que na intervenção do Estado na educação institucional, segundo o principio da especialização que era adotado, era preciso se pautar pela condenação de todo tipo de poesia que objetivasse a tudo imitar, mas era preciso que se favorecessem aquelas que imitassem somente as virtudes do homem de bem, o que, na perspectiva platônica era apropriado para a formação moral dos guardiões da cidade, uma vez a existência do poder da mímese na formação da alma jovem, devesse ocorrer tendo “estrita vigilância do que deve ou não ser imitado pelos futuros guardiães” (TAKAYAMA, 2014, p. 52).


Crítica à poesia no livro X da República:

Platão, no livro X de República, se põe a criticar os poetas, sobretudo Homero, a partir de aspectos psicológicos e éticos. O filósofo entendia que a formação tradicional grega, com a utilização de poesias imitativas, tanto em seu conteúdo como na sua forma veiculada, trazia um evidente prejuízo na formação moral da juventude.

Para o filosofo, as poesias imitativas induziam à uma prática condenável numa perspectiva ética, pois conduzia a sentimentos específicos que satisfaziam, pelo prazer, somente a parte inferior da alma, desejando lágrimas e lamentos. Isto faria com que a melhor parte da alma, a sua porção racional, fosse desabilitada, nos momentos de adversidades. 

Para além da crítica acerca da poesia imitativa ser nociva (já que a sua produção é um simulacro de três graus de distancia da verdade e que há uma ausência de conhecimento acerca das coisas que os poetas imitam), bem como dos prejuízos na conduta moral, tal crítica psicológico-ética desenvolvida por Platão refutava a forma institucionalizada de pedagogia existente no contexto grego, que subvertia o principio da especialização, fazendo com que a alma fosse comandada por aquilo que deveria ser comandado (o prazer), o que destina tal alma ao domínio da injustiça. 

Para combater o poder da poesia, com seus encantos e com o prazer obtido a partir do sentimento de simpatia com os dramas dos personagens das poesias, o filosofo propunha destituir o poeta do seu posto de educador dos gregos, dando-o ao filósofo, uma vez que além de ter compromisso com a verdade, ao contemplar as Ideias, este mantém a alma sob o comando da razão, podendo dessa forma filtrar, selecionar, diferenciando o verdadeiro do falso.


Platão e a arte de seu tempo

“Alcamene, que não tinha nenhuma experiência de óptica e de geometria, havia feito uma estátua de Atena de grande beleza para aqueles que podiam vê-la de perto. Fídias, ao contrário, [...] estimando que a forma da estátua devia ser completamente modificada em razão da altura prevista em que seria colocada, alarga, por conseguinte, a abertura da boca, desloca a implantação do nariz, e todo o resto em proporção. Quando, em seguida, conduzem-se as duas estátuas a plena luz a fim de as comparar, Fídias se encontra em grande perigo de ser linchado pela multidão, até que as duas estátuas foram enfim erguidas, pois vê-se então se desfazer a doçura dos traços finos do modelo de Alcamene, enquanto que, pelo efeito da altura do local em que foram colocadas, apagam-se as disparidades e as chocantes deformações da obra de Fídias, o que fez com que Alcamene fosse ridicularizado e Fídias visto com ainda maior estima.” (Tzetzès1 apud Villela-Petit, 1991, p. 78)

Tal anedota pode ser relacionada ao diálogo entre dois artistas, uma que um se relaciona com a arte da cópia e outro com a arte da ilusão. Essa é a divisão das artes miméticas apresentada por Platão em Sofista. A arte da cópia pode ser compreendida como aquela que é capaz de copiar as próprias Ideias, onde se produz algo de belo, revelando, em virtude de uma proximidade e solidariedade, alguma coisa da essência das Ideias. Não se trata de uma cópia da aparência das coisas. Por não ter qualidades sensíveis, tal arte é uma mímese noética, isto é, se dá através da inteligência. A arte da cópia é a produção de imagens governadas pela essência e não pela aparência, pelo inteligível e não pelo sensível. Trata-se de, para Platão, um cânon de proporção invariável.

Já a arte da ilusão é aquela ilusionista. Com uma conotação negativa, tal arte tinha grande aceitação e admiração na época de Platão. A anedota acima destacada revela isto, a partir da disputa entre dois pintores (Parrasios e Zeuxis). Platão não era contra toda e qualquer arte, mas somente a esta arte ilusionista de seu tempo. Ele tinha certa neofobia, isto e, ojeriza a tudo que se apresenta como novo, pois entendia que isto era mudança, e, portanto, imperfeita e corrupta da arte da cópia das Ideias, uma vez que a arte da ilusão desprezava a verdade, produzindo imagens segundo proporções que pareceriam belas, mas que só tinha a aparência de se assemelhar ao que é belo, produzindo uma aparência de uma cópia, mas sem ser semelhante. Esse domínio dos falsos, na concepção platônica, é aquele da poesia e da sofística, que produz simulacros-fantasmas, cuja mimese ilusionista produzida não tem relação com as verdadeiras proporções do modelo. 



As diferenças e semelhanças entre a mímese de Platão e a de Aristóteles.

Platão e Aristóteles protagonizam o embate a respeito da teoria da estética filosófica. A categoria de “mimese” existe desde a Antiguidade, e nestes filósofos baseiam-se pontos de vistas distintas acerca de seu significado de sua função.

Em Platão, a mímese tem uma conotação de falsidade, uma vez que a arte não aponta para a verdade, sendo um discurso afastado do verdadeiro conhecimento. A arte é uma imitação, podendo tal imitação ser compreendida como uma cópia ou um simulacro, cuja representatividade é noética, apresentando a falsidade pela qual se fundamenta. Para este filósofo, a arte só possui valor quando se propõe pedagogicamente a transmitir conhecimentos, valores, porém, isto só é possível pelos filósofos, uma vez que os poetas têm como objetivo enganar, a partir do que imitam.

Já Aristóteles, em A Poética, aponta para uma conotação positiva da mímese. Ao utilizar o termo platônico, Aristóteles visa demonstrar que a compreende de forma diferente. Para ele, toda espécie de arte é uma mímese, uma vez que se propõe a reproduz os caracteres, bem como as artes, e principalmente, as emoções. Para o Estagirita, as artes poéticas se propunham a reproduzir a ação humana, e tinha uma conotação de verossimilhança, pois aponta para a exemplificação da universidade das ações humanas. E assim como Platão, entendia que se utilizada didaticamente, as tragédias presentes nas artes poéticas, esta era ativa e criativa, uma vez que levava seu expectador à reflexão e aprendizagem. A catarse seria, portanto, um efeito produzido pela tragédia no publico, onde este reconhecia na arte poética a verossimilhança com a realidade.


Estudo da mímese na Poética de Aristóteles.

Platão criticava os poetas, sobretudo Homero, a partir de aspectos psicológicos e éticos. O filósofo entendia que a formação tradicional grega, com a utilização de poesias imitativas, tanto em seu conteúdo como na sua forma veiculada, trazia um evidente prejuízo na formação moral da juventude. Para o filosofo, as poesias imitativas induziam à uma prática condenável numa perspectiva ética, pois conduzia a sentimentos específicos que satisfaziam, pelo prazer, somente a parte inferior da alma, desejando lágrimas e lamentos. Isto faria com que a melhor parte da alma, a sua porção racional, fosse desabilitada, nos momentos de adversidades. 

Para combater o poder da poesia, com seus encantos e com o prazer obtido a partir do sentimento de simpatia com os dramas dos personagens das poesias, Platão propunha destituir o poeta do seu posto de educador dos gregos, dando-o ao filósofo, uma vez que além de ter compromisso com a verdade, ao contemplar as Ideias, este mantém a alma sob o comando da razão, podendo dessa forma filtrar, selecionar, diferenciando o verdadeiro do falso.

Já em Aristóteles, a mímese tinha uma intenção positiva. Não se tratava de uma mera imitação, cópia da aparência, para identificar uma dada realidade ou objeto. Ele a compreendia enquanto algo compartilhado tanto pela natureza como pela arte. Por entender que “a arte imita a natureza”, Aristóteles não a via enquanto uma retratação, uma imitação falsa da realidade, mas sim um fazer à maneira, como a natureza, imitando o processo como está se dá. Nesse sentido, a imitação era um produto: se a natureza tem um principio interno, a arte por sua vez tem um principio que é externo. Para além da imitação que reproduz as coisas que a natureza produz, o filosofo entendia que a mímese ajudar o homem a completar a si mesmo aquilo onde a natureza não o fez. 

Assim, tem-se que em Aristóteles a imitação não é somente da matéria, mas também da forma, sendo esta vista enquanto um princípio de substância concreta, a partir da qual a matéria é dada. A mímese é, portanto, uma verdade conhecida, cuja imitação da natureza não se põe a fazer a matéria, mas sim a produzir à maneira (forma). Se Platão não se preocupava com a forma, enquanto um saber prático, enquanto uma técnica das artes miméticas, em Aristóteles isto ocorre.


Estudo sobre o problema da catarse trágica na Poética de Aristóteles:

A arte mimética em Platão tinha uma conotação negativa. Aristóteles vê essa categoria como positiva, apontando que as artes literárias possuem um valor de verdade, e um sentido tradicional de sabedoria. Nesse sentido, a mímese em Aristóteles diverge da de Platão, uma vez que aquele se propõe a reforçar um valor de verdade às artes, o que contradiz o último, que via nas artes a possibilidade da falsidade e da ilusão, onde a verdade não se encontrava existente. 

Portanto, tem-se que em Aristóteles, a partir da compreensão de ser a mímese a possibilidade da semelhança, com a matéria e com a forma, da realidade ou objeto imitado, podendo-o reconhecer na representação produzida, é que sua poética tem por objetivo apontar a utilidade, moral e política, nas três acusações, que são de caráter noético e estético, destinadas à poesia, ou seja, no sentido de ser falsa, de ser sedutora e traiçoeira, e de deformar o caráter emocional.

Para o filósofo, quando o poeta concretiza em sua imitação algo que se existe na ação de um individuo, ele produz uma situação exemplar de que o universal se faz possível. E que, a partir disto, o filósofo tido às questões de abordagem humana, passa a teorizar a respeito de tais ações, numa perspectiva ética, a partir da utilização das personagens existentes nas tragédias que o poeta produz, possibilitando desta forma que a natureza humana seja compreendida e lições sejam produzidas e apreendidas. Tem-se assim que o problema noético da mímese em Aristóteles é solucionado, quando este aponta a utilidade que a representação possui para fins didáticos. 

Enquanto transformação da mímese em didática, Aristóteles supera as análises de moralidade propostas por Platão, e aponta que as epopeias e as tragédias, são uteis, pois, ao produzir o terror e a piedade a partir das representações produzidas que demonstram realidades terríveis, a ponto de provocar a emoção daqueles que dessa arte bebem, são capazes de tornar tais expectadores mais fortes e menos compassivos, redimindo a tragédia em razão de uma utilidade didática. 


REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA:

ELSE, G. F. “Imitation” in the Fifth Century. Classical Philology, vol. 53, n. 2 (apr. 1958), 73-90.

HAVELOCK, E. A. Prefácio a Platão. trad. Enid Abreu Dobránzsky, Campinas, Papirus Editora, 1996.

KOLLER, H. Die Mímesis in der Antike. Nachahmung, Darstellung, Ausdruck. Dissertationes Bernenses Ser. I, Fasc. 5. Bern 1954.

TAKAYAMA, Luiz Roberto. Estética: Mímese e poesia em Platão e Aristóteles: Guia de Estudos. Lavras : UFLA, 2014.


ACESSE TAMBÉM:

segunda-feira, 7 de abril de 2014

TEORIA DO CONHECIMENTO – PARTE 1: PLATÃO




O presente texto é uma produção realizada a partir de um fichamento das atividades propostas na disciplina “Teoria do Conhecimento” do Curso de Licenciatura em Filosofia, que realizo pela Universidade Federal de Lavras, em 07 de abril de 2014.


Proposta da disciplina:

“A primazia do conhecimento sobre os demais âmbitos de realização da existência humana, no entanto, está diretamente relacionada com a apropriação do pensamento grego pela tradição subsequente e a paulatina expansão de seu pensamento filosófico-científico, este que procurava, em certa medida, romper com os princípios da narrativa mítica e com uma apropriação discursiva do real por parte do homem que fosse pautada principalmente por entes religiosos. 

A importância concedida à atividade racional e seu resultado, o conhecimento verdadeiro, pode ser vista de modo claro quando nos deparamos com a afirmação de que este é o traço distintivo do próprio homem, aquilo que o difere dos demais seres vivos existentes no mundo. De acordo com esta visão, somos humanos apenas na medida em que conhecemos verdadeiramente as coisas. Homo sapiens: o homem que sabe. Mas o que efetivamente significa conhecer? Como é possível que realizemos esta atividade de modo bem sucedido? Em que repousa a possibilidade de conhecermos de maneira inadequada? Quais são as características constitutivas do homem que o permitem conhecer? O que significa, afinal, verdade? De que modo verdade e conhecimento se relacionam? Estas são algumas questões com as quais devemos nos deparar ao longo desta disciplina de teoria do conhecimento”. (Roberta Cassiano)



A caracterização platônica do conhecimento no Teeteto:

A discussão empreendida no diálogo aporético “Teeteto”, de Platão, sobre o conhecimento e de sua possível definição, se dá com Sócrates indagando seu interlocutor Teeteto, se o ato de aprender não significava se tornar sábio, a qual obteve uma resposta positiva. Posteriormente, Sócrates pergunta-lhe se haveria diferença entre sabedoria e conhecimento, recebendo, novamente, uma resposta afirmativa. A partir disto, Sócrates manifesta à Teeteto sua inquietação com o tema, proponho-lhe uma discussão sobre a definição de conhecimento.

A primeira definição apresentada por Teeteto é que o conhecimento se baseia em coisas particulares. Sócrates o refuta – pois se assim o fosse, teria que ser utilizada tal definição o se tentar definir as coisas particulares – e refaz a pergunta a partir da perspectiva de se definir conhecimento como algo que seja comum a todas as formas de conhecimento, e não somente em casos particulares. Sócrates queria uma compreensão do que seria a essência do conhecimento.

Em sua segunda definição, o interlocutor propõe que conhecimento seja sensação, ou seja, por meio do contato com a coisa, por meio dos sentidos, pode-se conhecê-la. Sócrates refuta-o afirmando que apreensão por meio de sentidos só se produz algo que seja parecido. Caso isto fosse possível, seria necessário aceitar o que Protágoras afirmou, ou seja, que aquilo que parece, é verdadeiro para a pessoa. Sócrates não aceita que conhecimento possa seja a percepção sensorial de algo, uma vez que aquilo que é verdadeiro pode ser conhecido, e não somente percebido pelos sentidos.

Com a continuação do diálogo, Teeteto afirma que o conhecimento não pode ser representado por qualquer opinião, considerando a possibilidade da existência de opinião falsa. Propõe então que o conhecimento seja uma opinião verdadeira, ao posso que Sócrates o refuta ao definir que pensamento seja um discurso produzido pela alma para consigo mesmo, por meio de perguntas e respostas, afirmando-as ou negando-as. A opinião falsa se daria, portanto, quando se confunde duas coisas igualmente existentes, no pensamento. Para solucionar a lide, Sócrates propõe a transformação da dicotomia “saber x não saber” em “ser x não-ser”. Noutras palavras, por meio dessa transformação o filósofo demonstra a diferença entre opinião falsa e em pensar em algo que não existe, uma vez que quando se pensa algo, pensa-se em algo existente, e que quando se pensa em algo não existente, num “não-ser”, não se pensa em nada, ou melhor, não se pensa de maneira alguma.

Após toda a confusão com tal refutação de Sócrates, Teeteto empreende a elaboração do que seja conhecimento e afirma que o mesmo seja a opinião verdadeira acompanhada de explicação racional. Sócrates o refuta novamente afirmando que os elementos primitivos do que venha a ser “explicação racional” não admitem explicação sobre sua existência ou inexistência, uma vez que somente se pode nomeá-los, bem como que o conhecimento (o todo) é formado por elementos diversos, o que demandaria necessariamente conhecer todas essas partes, o que é impossível, razão pela qual não se explica o todo, tornando-o incognoscível.

A discussão é concluída sem que se defina o que seja o conhecimento, porém, sabe-se que o conhecimento não é sensação, nem opinião verdadeira, e nem opinião verdadeira aliada à explicação racional.



Contribuições aristotélicas para a teoria do conhecimento:

1) A divisão dos cinco modos de apreensão da verdade na Ética a Nicômaco: 

a) Ciência (episteme): Trata-se de juízos sobre coisas universais e necessárias, cujas conclusões e demonstrações derivam de primeiros princípios, ou seja, é o estado que permite demonstrar, se ter uma convicção, conhecendo os pontos de partida para se chegar ao conhecimento cientifico.

b) Arte (tekné): Trata-se da capacidade de produção que envolva o reto raciocínio. Relaciona-se com a geração, com a invenção, com as formas de se produzir algo que possa ser ou não ser, tendo o que produz como origem, e não quem a produz. Não diz respeito ao que se gera por necessidade, nem com as que se referem a natureza, uma vez ser uma produção e não um agir.

c) Prudência / Circunvisão (phrónesis): Trata-se da capacidade de raciocinar e agir no que se refere ao que é bom ou mau, diferindo-se da arte, uma vez que esta é excelente ao ser elaborada. Essa capacidade racional de ação em relação ao que é bom ou mau para o homem se dá na busca pelo bom tanto para si como para a vida em geral.

d) Sabedoria (sophia): Trata-se do conhecimento cientifico, da compreensão, e não da ação. É a combinação do pensamento com a ciência, com objetivos elevados. É a forma de conhecimento mais perfeita.

e) Pensamento (nous): Trata-se de onde se parte a ciência, de onde se apreende os princípios. Por meio da indução, apreende-se a verdade universal como evidente a si.



2) Os três primeiros tipos de saber (eidenai): percepção sensível (aisthesis), experiência (empeiría) e arte (techné), com base no Livro I da Metafísica.

A percepção sensível é a possibilidade de se conhecer na medida do possível, mesmo sem o apoio da ciência, é a sensibilidade de se perceber apenas o que se é dado. É dela que surge as outras. Já a experiência é a possibilidade de se conhecer as coisas mais complexas. Tem o sentido amplo, pois possibilita a experiência sensível e a abstrata. Por fim, a arte é a capacidade de produzir, baseado em regras gerais, um conhecimento sólido. É a sabedoria que vai além dos dados, encontram-se as justificativas e as causas.



O que difere conhecimento e opinião verdadeira no pensamento platônico?

Platão, por meio do diálogo aporético em tela, apresenta um diálogo empreendido por Sócrates e seu interlocutor, o matemático Teeteto, com a perspectiva principal da maiêutica, isto é, do conhecimento, objetivando-o concretizá-lo. Numa analogia à uma parteira que se experiente, que se propõe auxiliar mulheres inexperientes na hora do parto, Sócrates auxilia na tentativa de dar luz ao verdadeiro conhecimento para aqueles que tem dificuldades em produzir ideias, e para tanto, desenvolve uma reflexão filosófica com o objetivo de demonstrar as diferenças na dicotomia do falso e do verdadeiro, o que analogamente ao parto, se aplica à dor e o sofrimento seguido da alegria que se tem ao se nascer a criança.

Assim, tem-se que o conhecimento humano pode ser dividido em sensível (opinião verdadeira) ou em conhecimento racional (intelectual), sendo o primeiro particular, mutável, relativo; e o segundo, geral, universal, imutável, absoluto, responsável por contribuir para o sensível, porém, não sendo deste derivado. 

Platão se diferencia de Sócrates porque entendia ser impossível tirar o conceito de universal, imutável, absoluto do conhecimento sensível, que é justamente mutável, particular e relativo. O filósofo entendia que os conceitos se dão de forma a priori, estando no próprio espírito humano, e que são utilizados quando necessários para sustentar os sentidos para compreensão dos conceitos, não para originá-lo, mas sim para que se associá-los sempre que se depare com os sentimentos. 

Assim, em Platão o conhecimento racional é aquele onde se baseia a realidade, possui objeto próprio que são os conceitos, de forma universal e eterna. Já o conhecimento derivado do sensível é mutável, se dá com as coisas particulares, não precedi de ciência, sendo um conhecimento meramente sensível do que seja a verdade, e, portanto, inferior ao conhecimento racional. As ideias são conhecimentos sensíveis que captam somente as aparências, não sabendo o que é de fato a verdade, podendo cometer erros sem que se saiba. 

É o conhecimento racional que possibilita se alcançar o ser e a verdade. É o empírico, a realidade material em que se vive transcendido pelo conhecimento racional. Pela ciência, tal tipo de conhecimento se vincula as causas das coisas, não se satisfaz com meras sombras do que possam ser coisas, como o é o conhecimento sensível. 



BIBLIOGRAFIA:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996. VI 2-7.

_________. Metafísica. In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996. I, 1-2.

PLATÃO, Teeteto. Trad. A. M. Nogueira e M. Boeri. Lisboa: Gulbenkian, 2005. 



VEJA TAMBÉM:






terça-feira, 10 de julho de 2012

ÉTICA I - ARISTÓTELES E O PROBLEMA DO MAL MORAL NA ÉTICA GREGA




01) SOBRE A TRAGÉDIA, SÓCRATES E PLATÃO:

A relação entre “ser” e “parecer” bom, tão debatida nos dias hodiernos, fora objeto da atenção de Platão em sua obra A República, porém com uma nova perspectiva, uma vez que se desenvolveu por intermédio de argumentos de diversos interlocutores da obra. O filósofo, por intermédio do personagem Sócrates, relaciona a noção de felicidade à justiça e, assim, considera ser feliz apenas o justo, pois é feliz apenas quem pratica a justiça. O ponto principal do diálogo é justamente relacionar a ética e a política, mesmo isso não representando a realidade, mas sendo uma mera proposição do que definiria uma “boa cidade”.

Na procura pelo o que seria a justiça, em A República, algumas teses foram apresentadas: Céfalo, que entende justiça como o ato de “devolver aquilo que se recebeu”; Polemarco, onde a justiça seria a realização do “bem ao amigo e mal ao inimigo”; e, Trasímaco que a entende como o “interesse do mais forte” (PLATÃO, Livro I, p. 9, 11 e 20). O tirano, que vários interlocutores de Sócrates tomam como exemplo, tem uma cara que todos nos conhecemos: ele é a pessoa injusta que detém o poder tendo em vista sua própria utilidade; é aquele que é capaz a submeter os outros com sua força; é quem cria leis convencionalmente chamadas de “leis justas” e que visam só ao máximo proveito de que detém o poder. O homem bom, isto é, o justo se comporta desta forma só por obrigação. Daí a consequência que naquela época, assim como hoje em dia, “aparecer” é mais importante que “ser”. 


Sócrates entendeu que as duas primeiras teses são facilmente refutáveis, pois são definições muito fracas de justiça, encontrando somente certa dificuldade em produzir uma refutação relevante para a última das teses, porém argumenta que os governantes não são os fortes infalíveis, pois caso não obedeçam às leis, podem criam legislações que sejam desfavoráveis à eles próprios, razão pela qual é que cabe aos governantes visar sempre ao bem dos governados (BOTTER, 2012, p. 18). Ressalta-se que essa refutação socrática revelou-se abstrata, baseada em considerações teóricas e questões de princípios, uma vez que seus refutadores firmavam-se na realidade para produzir suas teses.


No prosseguir do diálogo, Glauco apresenta o conceito de justiça como algo convencionado, onde as leis fazem parte dessa convenção, sendo, portanto, a justiça um compromisso dos homens, ou seja, cumprir o que a lei determina visa a não ser repreendido pelo mais forte. (PLATÃO, Livro II, p. 42-43). 


Assim, Glauco prenuncia o “parecer” em detrimento do “ser”, considerando que ao homem melhor é parecer ser justo, visando assim submeter imperativamente os outros a seu domínio, às suas leis tidas como ‘justas’, podendo tirar o máximo de proveito pessoal e manter a sua governabilidade, mesmo que na realidade haja desigualdades e injustiças. Juntamente com Adimanto, Glauco conclui que a justiça parte de uma organização social.


De igual forma, Platão também desenvolve essa concepção de organização social ao realizar um paralelismo entre o individuo e o cidadão (CASERTANO, 2011, p. 41). Em sua concepção, a cidade se constitui em classes sociais, onde cada qual se determina pela aptidão de seus serviços, ou seja, segundo sua virtude. Dessa divisão em classes, como elementos independentes, porém integrados, tem-se uma unidade, que é a sociedade, a “boa cidade”.


As classes sociais que compõem a sociedade na concepção platônica seriam os governantes que dirigem a cidade, os guerreiros que cuidam da defesa da mesma e os produtores responsáveis pelos bens necessários de sustento da cidade. No paralelismo feito com a alma do individuo, a parte da inteligência responsabiliza-se por dirigir o conhecimento (comparando-a com a cabeça no corpo), a irascibilidade pelos desejos e as paixões (comparando-a com o peito) e desiderativa, pela nutrição e a procriação (comparando-a com o ventre).

Cabe, portanto, a cada classe ou parte distinta da alma cumprir suas próprias tarefas, ou seja, suas próprias virtudes. Somente quando cada função é cumprida por seus responsáveis pode-se tornar o individuo e a sociedade justos, sendo a razão tida como o princípio da organização, partir de onde o individuo governa sua vida particular e os governantes, a cidade. A cidade, portanto, na concepção platônica, é boa e virtuosa quando o cidadão faz aquilo que lhe cabe enquanto virtude, segundo sua classe social, “sem intrometer-se em outras atividades”, o que possibilita a “imagem da justiça”. E é a partir dessa virtude que se manifesta a justiça, pois, caso o cidadão não realize sua própria virtude, estará cometendo injustiça. (PLATÃO, Livro IV, p. 145).

Uma cidade boa é aquela que a mostra com seus atributos ser sábia, corajosa, moderada e justa, sendo a justiça e a temperança atributos dos componentes da própria cidade, porque a temperança que
“faz os cidadãos cantarem a uma só voz”, e a justiça “porque ela espalha largamente o exercício habitual da cidadania e envolve a cidade em seu conjunto” (DESCLOS, 2001/2, p. 18 e 19).

Nesse contexto, o malvado é aquela
“pessoa que não possui sabedoria, isto é, que não exerce a parte racional da sua alma, e assim desconhece totalmente o bem ou o confunde a um bem aparente com um bem real”. (BOTTER, 2012, p. 23).

Destarte, pode-se concluir que Platão, em A República, produziu um discurso paradigmático, propondo um modelo científico de uma “boa cidade”, porém não instanciado numa realidade (CASERTANO, 2011, p. 88). Isso não quer dizer que quando Sócrates propôs um modelo a ser realizado em relação à ética e à política, tratava-se de uma mera utopia. Para que essa “boa cidade” fosse concretizada, algumas mudanças precisariam ocorrer, sendo a principal que os Filósofos governassem – em nossos dias que os Chefes de Estado fossem Filósofos –, uma vez que assim os homens poderiam compreender a diferença entre o “bem real” e o “bem aparente”, onde o primeiro é o parecer justo e não ser, enquanto o justo quer ser tal, porém não aparenta.


Por fim, para ter clareza a respeito dessa distinção, Platão, de forma taxativa, aponta ser necessário o conhecimento e a educação, sendo essa a segunda mudança fundamental, ou seja, o realce ao justo peso à educação, uma vez que a mesma possibilita a capacidade de distinguir entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto.





02) ARISTÓTELES E A DEFINIÇÃO DA VIRTUDE:


A virtude é entendida por Aristóteles como uma prática e não como sendo mero conhecimento ou algo natural de cada ser humano possui, sendo essa a razão pela qual se faz necessária a sua prática constante como um hábito. A prática da virtude inclina a pessoa para o bem, que é a busca pela felicidade. 

Para o filósofo existem dois tipos de virtudes: as intelectuais (geradas e desenvolvidas pelo conhecimento racional) e as morais (adquiridas propriamente pelo hábito, não sendo inerentes à natureza humana – o que não impede que o homem tenha uma tendência natural à bondade). É o exercício dessas virtudes o responsável por tornar o homem em justo ou injusto, “pois o mesmo se pode dizer dos apetites e da emoção da ira: uns se tornam temperantes e calmos, outros intemperantes e irascíveis, portando de um modo ou de outro em igualdade de condições”. 

Sendo as virtudes desenvolvidas pelo hábito, o filósofo as considera como disposições. Nas palavras de Zingano, “a disposição é o modo pelo qual o homem se comporta relativamente às emoções”, ou seja, são as tendências de se agir de forma determinada em determinadas circunstâncias. Uma pessoa virtuosa, portanto, apresenta três condições específicas: 

a) A razão: onde a pessoa precisa age conscientemente e não ignorando o que ela faz. 
b) Agir livremente e não por constrangimento ou constrangido nem visando fins alheios.
c) O virtuoso tem de agir com uma intenção firme, por hábito. 

Ressalta-se que se pode avaliar as ações virtuosas quando se observa a intenção da ação e não sobre a análise das ações do agente da mesma. Uma pessoa é boa ou má, segundo o caráter que escolhera e não em razão de suas faculdades ou da ocorrência de paixões. Apesar de não ser uma emoção, a virtude demanda da mesma para ocorrer, por faz parte do processo desse tipo de caráter que o homem escolhe para qualificar suas ações. Segundo o filósofo, a paixão pode ser determinada pela razão, o que justifica que a emoção seja virtuosa. 

Em Aristóteles, a análise da relação entre a razão e a emoção para a ação virtuosa está ligada à tripartição da alma humana, que entende que a alma é o ato primeiro de um corpo natural que possui a vida em potência. Diferentemente de Platão que, considerando os parâmetros de condutas éticas que observava nos seres humanos, dividia a alma em três partes (concupiscível, irascível e intelectível), Aristóteles divide-a analisando as funções que entendia inerentes aos seres vivos. Segundo o estagirita, a alma é composta por: 

a) parte vegetativa: preside às operações concernentes à geração, nutrição, crescimento, etc.; 
b) parte sensitiva: preside a sensação, os apetites e o movimento; 
c) parte intelectiva: preside o conhecimento, a deliberação e a escolha. 

As partes vegetativa e sensitiva estão relacionadas à matéria, já a intelectiva possui uma operação que não depende da matéria e um objeto que é puramente imaterial: a forma inteligível das coisas sensíveis, que “podemos assim considerar que as emoções se formam a partir de uma cognição – sentir é tomar alguma coisa sob um certo ângulo”

Assim o desejo humano sempre dá com o acolhimento da razão, uma vez que as emoções “podem escutar a razão e, deste modo, aperfeiçoar-se, tornando-se assim emoções moderados pela razão". Dessa relação de coadunação entre os dois lados, pode-se chegar à uma ação reta,ou seja, a parte emotiva da alma e a parte racional da alma são parceiras na formação do caráter do homem, devendo a primeira ser primeiro educada pela segunda, para tanto.

Aristóteles apresenta a disposição como gênero da virtude moral por entender que as virtudes são desenvolvidas pelo hábito, onde a razão prevalece ao ensinar o ser humano como “educar” suas emoções, e dessa forma, estabelecendo tendências de se agir de forma determinada, em determinadas circunstâncias. 

Para tanto, devem ser observados três critérios (BOTTER, 2012, p. 37): 

a) agir conscientemente: onde a razão esteja presente, e portanto, não se ignora o que se faz. 
b) agir livremente: não havendo constrangimentos, nem tendo em vista fins alheios, e; 
c) agir por hábito: possuindo uma intenção firme. 

O homem não se torna justo ao praticar atos justos, antes, se torna virtuoso ao saber agir temperadamente em diferentes situações, sabendo controlar suas emoções. Além disso, os atos justos devem ser a fixidez do caráter do indivíduo, direcionando as suas ações. 

De igual forma, o que difere a virtude moral da virtude intelectual (adquirida pelo conhecimento) é justamente essa possibilidade de ser encontrar a mediedade, em grego mesotes, termo que significa o “meio-termo, justa medida”. 

Essa concepção é fruto da sabedoria grega anterior à época do Estagirita, que indica o encontro de uma via média, onde não há excessos. Como na arte e na medicina, onde o meio-termo preserva a excelência das obras e dos procedimentos, o como na filosofia pitagórica onde significava a proporção e a harmonia da perfeição, ou mesmo como na filosofia platônica onde seria a justa proporção entre as diferentes partes da polis e das partes das almas, Aristóteles utilizasse da mediedade como regra para a análise da moral para a ética. 

A boa medida aristotélica é a necessidade de não silenciar as emoções, pelo contrário, buscar encontrar a exata proporção, uma vez que isso possibilita à ação ser adequada do ponto de vista moral, pois estará ancorada, ao mesmo tempo, em emoções e paixões. 

Essa exata proporção das emoções não diz respeito à coisa, e sim em relação a nós, como o filósofo apresenta ao dizer que: 


“Em qualquer coisa, seja ela homogênea ou divisível, é possível distinguir o mais, o menos e o igual, e isto ou em relação à própria coisa ou em relação a nós [...] cada pessoa que tem ciência evita o excesso e a falta, enquanto busca o meio e prefere-o, e esse meio é estabelecido não em relação à coisa, mas em relação a nós” (EN II 6, 1106a26). 


A originalidade da justa proporção aristotélica é sua diferença em relação a justa proporção matemática, pois retira a análise sobre a coisa, e a coloca em relação à nós mesmos: 


“A posição de meio com relação a nós é interpretada assim: com efeito, se comer dez minas é muito e comer duas é pouco para alguém, não por isso o mestre de ginástica mandará comer seis minas; de fato, para quem receber tal porção, ela pode ser muito ou mesmo pouco: para Milo, de fato, é pouco, para um principiante de ginástica é muito. [...] Assim, cada pessoa que tem ciência evita o excesso e a falta, enquanto busca o meio e prefere-o e esse meio é não em relação à coisa, mas em relação a nós” (EN II 6, 1106a28-b7). 


A análise da mediedade talvez possa não ser inédita em Aristóteles, pois como apontam alguns estudos (GAUTHIER e JOLIF, 1970, p. 138, apud R. PEREIRA, 2010), essa compreensão está inserida em duas das mais conhecidas inscrições da Grécia do período clássico: “conhece-te a ti mesmo” e “nada em excesso”. AUBENQUE (2008, p. 264) aponta que a primeira inscrição não diz respeito à necessidade de se encontrar o fundamento de todas as coisas em nós, mas sim alertar-nos para a finitude da vida humana, razão pela qual a prudência enquanto sabedoria dos limites é essencial. 

Nesse sentido, a busca pela justa medida visa à destruição dos extremos (ARISTÓTELES, EN II 5, 1106a25-30). É o equilíbrio entre “sentir excessivo” e a “apatia”, não somente das paixões, mas também das ações, uma vez que as emoções controladas levam à prática de ações moderadas, pois “de modo análogo, também existe excesso, carência e meio-termo no que diz respeito às ações” (1106b25). 

O ser humano, na busca do meio-termo visa conquistar a excelência moral. ZINGANO (2007, p. 146) afirma que a mediedade é a “quididade” da virtude, pois para Aristóteles a razão prática “não pode operar a não ser que existam previamente as disposições morais, isto é, paixões ou emoções moderadas pelo hábito e pelo exercício”

É o hábito que determina os comportamentos humanos em bons ou ruins e assim pode-se encontrar a justa medida relativa a nós em relação às emoções, como é exigida pela razão. A mediedade, em si mesma, enquanto tal, em sua generalidade, é para todos os entes racionais, uma vez que delimita as circunstâncias e aos atos permitidos em cada uma destas, sabendo, portanto, o ser humano, o melhor que se pode esperar em cada circunstância. 

Assim, pode-se concluir que a ação da moral pelo Estagirita passa pelo dualismo da natureza humana: a racionalidade e a irracionalidade, que ao mesmo tempo, necessitam se encontrar e coexistirem. A razão e o desejo, promovem o valor moral do caráter do ser humano, porém somente quando os atos são moderados, determinados, aperfeiçoados pela razão, em detrimento das emoções, que passam a ser “ensinadas” pela razão à controlarem-se. 

A virtude moral é perfeita quando o ser humano satisfaz seus desejos a partir do uso de suas razões, havendo diferenças no modo de agir e em suas disposições. Essa virtude própria, aperfeiçoada pela apreensão da razão, somente se dá quando a parte irracional for determinada pela razão, mudando o simples desejo em um desejo racional. 





03) A ORIGEM DO VALOR MORAL DO ATO: 


A virtude, para Aristóteles, era uma disposição que estava vinculada à escolha deliberada, o que “consiste em uma mediedade relativa a nós, a qual é determinada pela razão, isto é, como a determinaria o homem prudente”. Na busca da ideia de justa medida, “o meio termo é determinado pelos ditames da razão”. É na harmonia entre a razão e as paixões que se pode chegar à virtude. Essa é uma disposição que todos podem ter e, para tanto, se deve fazer uma escolha deliberada, consciente, daquilo que se deseja ao fim, e bem como dos meios para se chegar a tal, sendo sempre guiado pela mediedade. 

Se a razão determina de forma consciente as decisões voluntariamente escolhidas, os desejos, ao contrário, busca a realização do ato desejado, sem a análise do que isso pode vir a gerar, razão pela qual, deve a parte emocional da alma “dar ouvidos” à razão, pois assim, com as escolhas deliberadas o individuo realiza seus atos, consciente dos meios para se chegar ao fim, analisando as consequências para tanto. É pesando a razão que se pode conhecer o impacto que as escolhas deliberadas podem ter, sendo o homem bom ou mau quando suas ações promovem a mudança de seu caráter, podendo ser virtuoso ou vicioso, ou seja, se decide ser guiado pela razão ou meramente pelos desejos, sem que os mesmos sejam educados para pesar a razão em seus atos. 

Essa escolha deliberada é, segundo o filósofo, uma ação voluntária, ou seja, o seu principio motor está no próprio agente e o mesmo tem conhecimento das circunstâncias em que está agindo. Somente essas ações voluntárias podem ser consideradas na construção da virtude, uma vez que esta é a disposição ligada à escolha deliberada, voluntária. 

Nesse sentido, o indivíduo deve ser um bom juiz, uma vez que o mesmo só alcançará o fim desejado se saber escolher sobre o que é moralmente bom e agradável. É por isso que depende do indivíduo “praticar atos nobres ou vis, e se é isso que significa ser bom ou mau”, dependerá dele ser “virtuoso ou vicioso”.

Aristóteles procura mostrar que o valor moral dos atos depende da capacidade que a parte irracional da alma humana tem de ser ensinada pelos ditames da razão, ou seja, quando da harmonização dos desejos com a razão. Para tanto, pode-se formar a boa disposição com a realização da mediedade, ou mesmo formar o desejo racional. Essa formação, no primeiro caso, é dada pela educação e pelas leis, quando se promove disposições moderadas, onde as emoções não estão em excessos, podendo a razão imperar. Já na formação do desejo racional, as virtudes morais se dão quando o agente age, considerando as razões que ele próprio se dá, sendo, portanto, os atos voluntários, e as ações as escolhas e as deliberações do agente. 

A razão aqui apresentada não é aquela entendida por Sócrates e Platão, onde a mesma não tem o papel de distinguir o âmbito teórico e o prático. Essa distinção entre a razão teorética e o pensamento prático feita por Aristóteles está vinculada à definição que o Estagirita promove sobre a virtude moral: 


“A virtude é, então, uma disposição de caráter relacionada com a escolha das ações e paixões, e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, que é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática” (Aristóteles, EN, II 6, 1106b36). 


Para Aristóteles, assim como a alma irracional tem duas partes (a que ‘dá ouvidos’ à razão e aquela que é ‘surda’ à razão), a alma racional também tem duas partes, com realidades distintas, sabedorias práticas distintas e com virtudes distintas, sendo uma a parte cientifica (epistemonikon) e outra, a parte calculativa (logistikon), onde a investigação da primeira são as realidades invariáveis, e da segunda, as realidades que podem ser diferentes, que mudam, e que possibilita a prática, a experiência. 

A parte cientifica da alma racional tem como objeto o conhecimento científico, já a parte calculativa visa à percepção, tendo assim uma sabedoria prática (phronesis): 


“essa espécie (a prática) de sabedoria não se relaciona apenas com o universal mas também com os casos particulares, que se tornam conhecidos pela experiência (...) A sabedoria prática se relaciona com o fato particular imediato, que é objeto não do conhecimento científico mas de percepção” (Aristóteles, EN VI 8, 1142a13). (destaque nosso). 


Nesse sentido, a virtude da parte cientifica da alma racional é a procura pela verdade, a partir do conhecimento cientifico. Por sua vez, a virtude da parte calculativa da alma racional é a sabedoria prática, que consiste “em saber dirigir corretamente a vida do homem, isto é, em saber deliberar corretamente sobre o que é bem ou mal para o homem” (BOTTER, 2012, p. 59), ou nas palavras do Estagirita, “uma disposição prática, acompanhada de razão veraz, em torno do que é bem e mal para o homem”. (ARISTÓTELES, EN, VI 1, 1139a5). 

Nessa busca pela sabedoria prática, que promove a virtude da parte calculativa da alma racional, visa-se uma disposição prática que consiste na regra de escolha, onde se procura a correção do critério de escolha, como salienta AUBENQUE (2008, p. 61), visando deliberar bem acerca daquilo que é bom para o homem: 


“julga-se que seja característico de um homem dotado de sabedoria prática ser capaz de deliberar bem acerca do que é bom e conveniente para ele, não sob um aspecto particular (...), mas sobre aquelas coisas que contribuem para a vida boa de um modo em geral” (Aristóteles, EN, VI 5, 1140a27). 


A sabedoria prática é uma virtude justamente por sua capacidade de deliberar no tocante às coisas que podem ser diferentes e que dependem de nós. Um desejo correto do fim, juntamente com uma boa deliberação acerca de quais e quantas são as ações e os melhores meios para alcançá-lo, faz com que essa ação seja virtuosa, ou seja, moralmente boa, pois o objetivo é certo e a sabedoria é prática, uma vez que escolhera os meios corretos.




04) O ANALFABETISMO MORAL: A MALDADE NA ÉTICA ARISTOTÉLICA


As diferenças entre os perfis, das pessoas viciosas, distinguidos por Aristóteles: 

1) Akolastos - Homem que visa apenas o prazer, impulsionado pelo desejo do agradável, e que de nenhuma maneira se arrepende por se comportar desta forma. Ele não é punido, faltando-lhe rigor, tendo indulgência excessiva consigo mesmo. 

2) Malakos - Homem que quer fugir da dor e por isso a evita maximamente, sendo mole e voluptuoso. 

3) Theriotes - Homem que apesar de aparentar ser humano é um animal, se colocando fora dos padrões humanos. É o polo posto ao ente divino, um monstro por excesso de vício. 

4) Akrates - Homem que é fraco de vontade, se perde guiado por uma cólera profunda e cega, cometendo o mal, embora saiba que é mal. 

5) Kakos - Homem que voluntariamente adquiriu o hábito do vício, agindo com excesso ou com falta relativamente aos prazeres e às paixões. 




A figura definida do malvado por Sócrates e a figura da pessoa injusta e feliz, que aparece na República: 


Sócrates na República apresenta a figura do malvado como sendo aquele homem que age em razão de sua ignorância, pois foi educado de forma incorreta ou porque vive um tipo de analfabetismo moral, onde suas vontades estão sempre em conflito com sua razão. Platão entende o malvado como a pessoa que age visando seus próprios interesses, não se preocupando com a cidade. Por não possuir sabedoria, não utiliza a racionalidade da alma ,sendo essa pessoa injusta, e também infeliz. O seu oposto, uma pessoa justa e feliz, é aquela pessoa que tem suas práticas mediadas visando à felicidade. 

A felicidade está relacionada com o conceito de justiça, que é a manifestação máxima do desejo. Por ser justo, essa pessoa também é feliz. Em Sócrates e Platão, a virtude estava relacionada apenas à razão, que governa as ações do ser humano. É em Aristóteles que a parte irracional da alma começa a ser considerada. Nessa nova concepção, a emoção 'dá ouvidos' à razão, e a virtude se manifesta com a correta deliberação, através da escolha. É nesse processo de mediedade/justa medida, entre a razão e a emoção, que se pode ter a figura do homem justo e feliz, bem como de seu oposto, aquele que vive nos extremos (seja da razão ou da emoção), sendo por isso, injusto e infeliz. 



O que mudou na tradição cristã em relação à tradição grega?


O homem na tradição grega age mal por natureza, não se arrependendo do que faz. Tendo um posicionamento sádico, ele está sempre disposto à prática do mal. Com seus atos, todos à sua volta são prejudicados. Aristóteles entende o malvado como aquela pessoa que, de forma voluntária, adquire o vício por hábito, sempre com excessos ou faltas, em relação à seus prazeres. Em suma, sua natureza é irremediavelmente má. 

Na tradição cristã, por sua vez, o homem mesmo sabendo o que é bom comporta de forma errada, uma vez que ele não consegue por si só dominar a profunda laceração e dissenso em relação à sua própria vontade que é boa, cometendo assim a maldade em seus atos. O grande diferencial é que a vontade boa do homem, no cristianismo, depende da graça divina presente na vida humana, para que ele consiga então não praticar o mal.



A relação entre virtude e felicidade: 


Num contexto onde viver uma vida feliz ou infeliz representava uma diferença significativa, a análise da ética antiga – sobretudo a aristotélica – a felicidade estava relacionada à concepção de eudaimonia, ou seja,“uma atividade própria da alma humana que se estende ao longo da vida e que todos os homens têm o direito de alcançar” (BOTTER, 2012, p. 72), o que se difere da atual concepção de felicidade, onde a mesma se manifesta em momentos isolados da vivência humana. 

Sócrates na análise do conceito de felicidade – na qual entendia ser o homem justo feliz e o injusto sumamente infeliz –, utilizou-se da ‘função própria do homem’. Para o filósofo, o argumento do ergon significava que cada homem tem uma função que pode realizá-la bem. Se a realiza bem, o faz com virtude, porém se a realiza mal, com vício. Dessa forma, um ente tem uma função a qual se pode atribuir uma virtude ou um vício. A alma, por exemplo, tem como função viver, e em razão disto, tem uma virtude, que é a justiça. Caso a pessoa seja injusta, logo a alma não terá uma virtude, e sim um vício. Conclui-se então que, vive bem quem age com justiça, e vive mal, quem age com injustiça. É feliz e vive bem quem é justo. É desditoso quem vive com injustiça. 

Aristóteles, na análise da eudaimonia, retoma ao conceito de ergon – onde o homem só atinge a felicidade autêntica quando exerce devidamente sua função –, porém de forma articulada. A felicidade para o Estagirita está relacionada à satisfação dos desejos, porém, a partir dessa consideração do argumento do ergon, sendo necessária a satisfação dos desejos com um acordo com a parte racional, uma vez que a razão é o atributo que distingue o ser humano. 

Utilizando-se da teoria da mediedade, Aristóteles entende que o homem só consegue evitar seus excessos quando a paixão ‘dá ouvidos’ à razão, existindo uma harmonia daquela com a razão, onde as emoções são transformadas por ela. Essa harmonização não é acidental, pelo contrário, faz parte da constituição da felicidade própria do ser humano. A eudaimonia é, portanto, essa “satisfação do desejo ‘transformado’ pela razão” (BOTTER, 2012, p. 73). 

Portanto, pode-se concluir que a concepção aristotélica de felicidade humana é aquela onde há o cumprimento da função própria do homem (ergon) e o comportamento de forma correta (mediedade), através de um posicionamento ético-racional. A razão prática, nesse contexto, é busca pela determinação do meio-termo, onde os desejos humanos estão correlacionados à racionalidade. 

É feliz o homem que age satisfazendo seus desejos, ‘dando ouvidos’ porém aos ditames da razão, escolhendo por deliberação suas ações. A deliberação de um fim não pode se dar, visando qualquer um. É preciso escolher os melhores meios para que chegar ao melhor fim, sendo este aquele que se conforma com a racionalidade. O contrário disto é ser malvado, e consequentemente, infeliz. 

O malvado utiliza-se de um preciso raciocínio na escolha dos melhores meios para alcançar o pior fim. Por desconhecer o arrependimento e por não ter conflitos entre suas normas de vida e os seus desejos corruptos, o malvado vive uma ética aleijada e perturbada, pois sua mente é desta forma, além de sua razão ser confusa e sua consciência moral obscura, vivendo sozinho e sem amizades. 


BIBLIOGRAFIA:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2003. 

AUBENQUE, P. A prudência em Aristóteles. Trad. Marisa Lopes, São Paulo: Discurso Editorial, 2008.

BOTTER, Bárbara. Ética 1: Guia de Estudos. Lavras. UFLA, 2012. 

CASERTANO, Giovanni. Uma Introdução à República de Platão. São Paulo: Paulus, 2011. 

DESCLOS, Marie-Laurence. É possível ser corajoso e justo sem ser sábio?. Trad. Alice Bittencourt Haddad. In: Kléos. Revista de Filosofia Antiga. Rio de Janeiro: Pragma – UFRJ, 5, 6, 2001/2002, p. 9-22.

GAUTHIER, R. N. & JOLIF, J. Y. L´Étique à Nicomaque: Introduction et commentaire. Paris, Publications Universitaires de l´Université de Louvain, 1970.

PEREIRA, R. R. Kant, Aristóteles e a razão prática. Estudo para uma leitura aretaica da Ética Kantiana. Tese de doutorado defendida na PUC-Rio no ano 2010. Orientador de Doutorado: prof. Edgar José Jorge Filho; Co-orientador: profa. Barbara Botter.

PLATÃO. A República. Livros I, II, e IV. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

ZINGANO, M. Aristóteles. Ethica Nichomachea I 13-III 8: Tratado da Virtude Moral. São Paulo: Odysseus, 2008. 



OBSERVAÇÃO:


Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina “ÉTICA I” da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA – Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 10/07/2012.


VEJA TAMBÉM:





4. Ética II - David Hume e a Teoria sobre o Sentimento Moral na Filosofia Moderna

5. Ética III - Imannuel Kant e o Fundamento da Metafísica dos Costumes na Filosofia Moderna