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terça-feira, 8 de abril de 2014

TEORIA DO CONHECIMENTO – PARTE 2: DESCARTES E HUME


O presente texto é uma produção realizada a partir de um fichamento das atividades propostas na disciplina “Teoria do Conhecimento” do Curso de Licenciatura em Filosofia, que realizo pela Universidade Federal de Lavras, em 08 de abril de 2014.

A primeira parte deste estudo sobre a Teoria do Conhecimento em Platão, você pode acessar aqui.



O racionalismo de René Descartes

1) A dúvida metódica (hiperbólica) e o argumento do Gênio maligno (Discurso do Método: Terceira e Quarta parte; Meditações: Primeira meditação):

Trata-se da discussão sobre o conhecimento para Descartes, cuja duvida metódica se destaca na História da Filosofia Moderna, haja vista colocar em duvida tudo o que Descartes conhecia, até então, enquanto verdade. Tal característica de metódica se dá em razão de se processar de forma ordenada e pela lógica, tendo como inicio a simplicidade e concretude das ideias, de um lado, até o fim do percurso chegando à abstração e generalização destas. Também é tida como radical e hiperbólica uma vez que se colocam em extrema dúvida todas as certezas existentes. Descartes, portanto, apresenta a dúvida como sendo extensa e intensa, uma vez ser natural e metafísica. Descarta a possibilidade de conhecimento a partir da percepção e sensibilidade, já que as percepções sensoriais são muitas vezes eivadas, assim como as representações, pois são pouco nítidas. A dúvida de Descartes se apresenta também em relação às representações da metafísica, indagando a hipótese de um Deus enganador e de um gênio maligno. Porém, entende que somente alguém poderoso, no caso Deus, pode fazer existir a crença na verdade das representações matemáticas, clareando-as e distinguindo-as, mesmo não as sendo. Por isto, o filósofo conclui descartando a possibilidade da existência de um Deus enganador, e propõe a existência de um Gênio Maligno, que com poderes tais passa a enganar o homem ao pensar, e começa a questionar se os pensamentos humanos podem, de alguma forma, derivar esse gênio maligno.


2) A verdade do cogito: “penso, logo existo” (Discurso do Método: Quarta parte; Meditações: Meditação Segunda):

Essa é a primeira conclusão a que chega Descartes. Ao se indagar sobre a possível existência de um gênio maligno enganador, o filósofo conclui que ele só age porque existia algo anteriormente, para que possa ser enganado. Assim, se esse algo pensa, logo esse algo existe. O próprio ato de duvidar demonstra a existência de algo, pois se há uma duvida é porque há pensamento, assim, se há pensamento é porque algo que existente produz esse pensamento.


3) Existência de Deus e imortalidade da alma como bases do conhecimento seguro (Discurso do Método: Quarta parte e Quinta parte [p.59-63; 68-70]; Meditações: Meditações Segunda e Terceira):

Esta certeza de Descartes se dá a partir da existência do cogito. Deus é a própria ideia de Deus para o filósofo, tratando-se, portanto, do autor da perfeição que existe no ser. Na concepção do filósofo, a ideia de Deus é verdadeira, sem possibilidade de duvidas. É certa, clara, distinta. O ser que pensa faz parte dessa ideia, porque faz parte dessa perfeição da ideia de Deus, e por fazer parte desta ideia, pode conhecer esse infinito ao qual faz parte. O ser que conhece a ideia de Deus a conhece porque o próprio Deus a embutiu neste ser. É por fazer parte dessa ideia perfeita de Deus que o homem pode existir enquanto autor de si próprio, uma vez que sem essa ideia de Deus, o homem seria o próprio Deus, considerando sua necessidade de ser completo e perfeito. Tal completude, tal perfeição, se dá com a figura de Deus, enquanto ideia perfeita.


4) A elaboração cartesiana das bases da teoria do conhecimento tradicional (Meditações: Meditação Quarta):

A partir da ideia da perfeição em Deus, o filósofo busca a origem dos erros, do que seja verdadeiro e do que seja falsidade, partindo do pressuposto da bondade de Deus e não da existência de um Deus enganador. Justamente por ser Deus bondoso, o mesmo faz com que a imperfeição do homem se acabe. Deus é tão perfeito e bom que concede aos homens a amplitude da vontade que lhe é própria. Porém, ao poder fazer escolhas, negando ou afirmando algo, o homem depara-se com a fonte do erro pelo qual se decaí, justamente por ter o entendimento limitado. Assim, Descartes propõe o método a ser percorrido pelo homem para se alcançar a verdade, além de se poder evitar o erro. Por isto, investigar o problema do erro não só se ter uma solução, de caráter metafísico para um problema, mas é também a possibilidade do conhecimento do próprio homem se dá de forma fundamentada.



O empirismo de David Hume:


1) “Todo conhecimento se origina na experiência”: a distinção entre impressões e ideias

A concepção humeana entende as percepções por meio das impressões e das ideias. As primeiras são consideradas sensações tidas de forma mais nítida na experiência, podendo ser de dois tipos: a) impressões de sensação (a partir de estímulos externos – os sons, por exemplo); b) impressões de reflexão (a partir de estímulos internos da mente – as emoções, vontade, etc).

Já as segundas, as ideias, são percepções não muito nítidas, diferindo-se das primeiras por serem copias de tais impressões na memória. Assim, tem-se que as impressões se manifestam de forma mais forte ou violenta, enquanto as ideias são tênues, mais fracas e que são produzidas pela memória, a partir de tais impressões.

Portanto, as impressões são responsáveis apenas por gerar a ideia, e por tal razão, não tem sua natureza enquanto percepção alterada. O conhecimento, desta forma, somente é uma crença porque se trata de uma impressão forte. O conhecimento é uma percepção, um sentimento que se faz por meio das ideias.


2) Distinção entre relações de ideias e questões de fato:

As relações tidas de ideias são consideradas por Hume como conhecimento a priori, isto é, são conhecimentos, ou verdades, necessárias. Tudo que deriva destas não fornecem conhecimento sobre o que acontece contingencialmente. São exemplos das relações de ideias o teorema de Pitágoras e as proposições aritméticas, geométricas, dentre outras. Por outro lado, as questões de fatos são tidas como conhecimento a posteriori, ou seja, suas verdades são contingentes, dependem das possibilidades, e as proposições que destas derivam refletem coisas existentes no mundo, possibilitando assim o conhecimento do que existe e do que de fato, acontece. Um exemplo de uma questão de fato é a assertiva: “o sol nascerá amanhã”.

Na concepção humeana não se pode ter certezas sobre questões de fato, nem a verdade de muitos assuntos/ideias está à disposição do sujeito. Tem-se assim que as questões de fato relacionam-se à relação de causa e efeito dos registros da memória, podendo ser compreendido a partir da experiência habitual dos fenômenos concretos, não havendo, para tanto, raciocínio a priori, apenas desenvolvendo-se pelo hábito, isto é, trata-se de um conhecimento involuntário.


3) Causalidade e princípio do hábito:

Para Hume, a causalidade resulta da experiência, não sendo, portanto, produto da razão. É pela experiência que se pode compreender a existência de uma e de outras coisas, sendo a causalidade fundamentada, portanto, exclusivamente na experiência. O principio do hábito diz respeito à conclusão de que a repetição de algo passado não apresenta nova conclusão, novo raciocínio. Trata-se da experiência instintiva da natureza humana, que é vivida de forma associada às impressões, por meio da repetição. Pelo hábito, pode-se inferir a relação de causa e efeito, e a relação entre experiências vividas e o presente, podendo a partir disto, inferir o futuro. Toda projeção do futuro se baseia, portanto, no habito, no conhecimento resultante da experiência. É pelo hábito, portanto, que o sujeito pode ter prudência e expectativas futuras.



Principais controvérsias acerca do conhecimento existentes entre a posição racionalista de Descartes e o empirismo humano.

O racionalista Descartes admitia a existência de duas fontes de conhecimento, a saber: a experiência e a razão/pensamento, porém, destacou que a razão/pensamento é a fonte fundamental de conhecimento. Por sua vez, o empirista Hume diferencia-se de Descartes, pois, apesar de admitir as duas fontes de conhecimento, considerava somente a experiência como fonte primordial do conhecimento.

Para Descartes, o conhecimento se justifica pela razão, pelo pensamento. Tem-se assim a primeira certeza cartesiana, ou seja, o cogito (penso, logo existo), sendo este adquirido pela razão. As crenças básicas, portanto, seriam racionais, a priori. Já em Hume, o conhecimento de fato (as questões de fato) é adquirido pela experiência, tratando-se de um conhecimento a posteriori, uma vez que a razão não apontava nada sobre o mundo exterior, e, portanto, as crenças básicas não teriam um caráter racional.

Disto decorre que na concepção racionalista de Descartes os sentidos não são confiáveis, pelo contrário, são enganadores, e de igual forma, na concepção de Hume, a razão não produz nada sobre o mundo, já que os conhecimentos sobre o mundo, sobre os fatos, são fundados na experiência. Descartes, portanto, entende as ideias inatas como fulcral para o conhecimento, ao passo que Hume, nega a existência destas ideias inatas, tendo o conhecimento origem nas impressões.

Portanto, no racionalismo de Descartes para se decidir quais as crenças podem ser aceitas enquanto verdadeiras se faz necessária rejeitar, enquanto falsidade, de tudo o que não seja indubitável, ou seja, há um cepticismo metodológico, isto é, uma duvida de todos os conhecimentos que não sejam irredutivelmente evidentes. Tudo que não for completamente evidente e tudo aquilo que já serviu de enganação no passado, não pode ser considerando enquanto conhecimento tido verdadeiro. Nessa concepção, existe um conhecimento que resiste a todas as duvidas que seja céptica, qual seja, o cogito (penso, logo existo), sendo tal conhecimento justificável pela própria possibilidade da existência do ato de duvidar.

Já no empirismo de Hume há uma defesa do cepticismo, porém de forma mais moderada, com base nos argumentos da ausência de justificações para as crenças na existência do mundo exterior e na uniformidade da natureza, bem como na consciência dos limites do entendimento humano. Assim, apesar do principio da causalidade não ser nada além de uma crença subjetiva, o produto de um hábito, sem essa crença, a vida se dá impraticável.

BIBLIOGRAFIA:

DESCARTES, R. Discurso do Método. In Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

______________. Meditações. In Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano in Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1978. Sessões I a V


VEJA TAMBÉM:




terça-feira, 19 de novembro de 2013

FILOSOFIA DA LINGUAGEM VI - HUME: LINGUAGEM E EXPERIÊNCIA



A crítica de D. Hume à linguagem da metafísica: 

A verdade, aparentemente, sempre esteve fundada, na perspectiva do paradigma filosófico platônico-cartesiano, com um elemento ideal suprassensível (ou inteligível habitado por Ideias eternas), capaz de fornecer embasamento ao mundo empírico e suas mudanças continuadas. A investigação humeana, de caráter empirista, questiona e propõe-se a dissolver tal posicionamento, ao desconfiar da razão e da linguagem, não procurando a verdade em algo exterior ao próprio mundo. 

Em sua crítica, Hume parece querer asseverar o fracasso da linguagem metafísica e sua incapacidade de produzir discursos que seriam a última palavra acerca dos fenômenos do mundo, e, portanto, como a verdade e forma de conhecimento que possa discursar sobre realidades para além daquelas fornecidas pela experiência.

O filósofo escocês se baseia na experiência para criticar a metafísica com suas ideias complexas e vazias, pois concebe que tais ideias consistem somente em composições de termos simples, oriundos da experiência. Todas as ideias advêm de impressões e de cópias de impressões, não existindo nada que seja oriundo de um mundo suprassensível, havendo assim uma inadequação entre linguagem e mundo. 

Em sua crítica à metafísica, o cético Hume afirma que o ser possui somente impressões sensíveis – e suas respectivas cópias. Para ele, a imaginação são cópias das impressões sensíveis, seja por meio de sensações externas (dos cinco sentidos) ou de sentimentos (impressões internas). Isso significa que se pode afirmar que existe uma distância ontológica entre um mundo sensível e um inteligível, considerando que os pensamentos são reproduções das impressões sensíveis do ser humano. 

Todo e qualquer pensamento, pretenso como verdade, deriva da experiência, se fundamenta em elementos oriundos da percepção empírica. Nas palavras de Barboza (2011, p. 19), "o pensamento complexo é composto de pensamentos simples, que por sua vez fundam-se sobre sensações e sentimentos"

É nesse sentido que a investigação humeana é uma contraposição ao discurso metafísico, pois afirma ser a experiência o guia e critério de validades para as afirmações. De igual forma, é por isso que se pode afirmar a existência de uma concordância entre o ceticismo de Hume e a afirmação de Bacon ora analisada – sem se preocupar com as posições e teses levantadas por este último.

Bacon, ao defender uma razão instrumental, faz a alusão ao quadro para afirmar que a ideia da imagem é recorrente na Filosofia. O quadro, enquanto aquilo que reflete e apresenta algo é um simulacro, uma vez que enamorar-se de uma imagem seria erro no que tange ao seu estatuto, já que o quadro apenas representa aquilo que foi projetado, ou seja, a coisa real, se perdendo a coisa real de vista. De igual forma seria a busca pela verdade por meio de objetos que absolutamente não podem ser experienciados, ou que se busque num falacioso “mundo do além”, como propõe o paradigma filosófico platônico-cartesiano ao discursar sobre questões de fato concernentes aos objetos do mundo.



Os princípios de associação de ideias:

Hume realiza uma critica a qualquer possibilidade de metafísica como estilo de discurso que favoreça o suprassensível e seus objetos em detrimento da experiência. Não concebe, portanto, que a verdade seria suprassensível e que seria apreendido pelo mero pensar e pela linguagem pura, sem embasamento empírico. Na investigação humeana o ser humano possui limites em seu entendimento, “pois não podemos conhecer para além do que nos é dado”. (BARBOZA, 2011, p. 22).

Nesse sentido, as ideias, os discursos, as palavras e frases decorrem da associação de ideias, que se processam segundo certas normas. O mesmo vale para a imaginação e para a memoria, responsáveis pela capacidade de retomar e reinvocar as impressões e sensação. Não existe possibilidade de acontecer encadeamentos argumentativos de forma aleatória, uma vez existir uma maneira correta de se conectar as impressões e as memorias.

Para o filosofo escocês não se pode distinguir os níveis de verdade entre discursos, nem diferenciar o discurso verdadeiro da mera retórica, uma vez que tais instâncias variam apenas em grau de assentimento, já que as mesmas se valem de ideias e pensamentos que surgem da impressão.

Isto ponto, tem-se que as conexões das ideias para Hume é uma critica a qualquer estilo de metafisica e de discursos sobre o suprassensível. São considerados como os três princípios de conexão das ideias a semelhança, a contiguidade, e a causa e efeito.

A semelhança diz respeito à possibilidade de se procurar o original a partir de uma cópia. A contiguidade refere-se à circunstância ou estado daquilo que se é próximo, adjacente. E a causa e efeito, remete-se a causalidade entre um evento A (considerado causa) e um segundo evento B (considerado o efeito), onde o segundo evento seja uma consequência do primeiro. Tais princípios se relacionam com a linguagem na medida em que as ideias, por meio de conexões (em seus diferentes tipos) foram discursos, ou seja, associam as ideias, o que explica o pensamento e suas externalização pela linguagem.


BIBLIOGRAFIA:

BARBOSA, Jair. Hume: Linguagem e Experiência. In: Filosofia da Linguagem II. Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2011.

HUME, David. Tratado da natureza humana. Tradução de Déborah Danowski. São Paulo: Ed. Unesp, 2004.

domingo, 5 de maio de 2013

ÉTICA III – IMANNUEL KANT E O FUNDAMENTO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES NA FILOSOFIA MODERNA




Esse estudo visa abordar aspectos da filosofia moral de Imannuel Kant (1724-1804), principalmente as noções de imperativo categórico e vontade livre, tais como nos são apresentados na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, buscando com isso compreender como Kant, munido de sua perspectiva crítica, busca reformular e fornecer novos fundamentos para as questões elaboradas por Hume. 


Introdução: 

O que é metafísica dos costumes? A Filosofia se divide em três campos: Física, Ética e Lógica. O conhecimento racional pode ser material (considerando um objeto qualquer) ou formal (apenas uma forma da razão – lógica). 

Existe uma diferença entre conhecimento empírico e conhecimento a priori, onde o conhecimento empírico é originado pela experiência, cujos objetos são apreendidos pelo individuo. Já o conhecimento a priori independe a experiência e sim do que o sujeito já possui antes do conhecimento dos objetos. 

Todo conhecimento começa pela experiência dos objetos, com as estruturas a priori funcionando. Elas são anteriores às experiências, razão pela qual o homem pode ter conhecimento dessas estruturas, portanto, a priori, antes da experiência. 

O que distingue conhecimentos empíricos e os a priori é que os empíricos são aqueles onde sempre é possível pensar o contrário, bem como que possibilita a generalização de regras para casos específicos observados. Já os conhecimentos a priori são aqueles necessários e pensar seu contrário é uma contradição. Os conhecimentos a priori também são universais. 

No campo da lógica não cabe empirismo, ela não se ocupa de objetos particulares e sim com regras universais da razão e pensamento. A Filosofia Natural (ou Físca) e a Filosofia Moral, tem cada uma, uma parte empírica e uma parte a priori. 

A Filosofia Pura é aquela, portanto, que se ocupa de princípios a prior. Dentro dessa Filosofia, encontra-se a Lógica, que se ocupa com as regras do pensamento, e a Metafísica, que se ocupa com objetos específicos. 

A Metafísica (análise da natureza) dos Costumes ocupa-se, portanto, da ética, de conteúdos a priori, ou moral, que são dadas ao conhecimento, antes da experiência. 



Conhecimento a priori: 

O conhecimento a priori nos dá a fundamentação da ética. A antropologia prática, parte empírica da ética, se assenta em conhecimentos a priori. É o conhecimento a priori que fornece os fundamentos do dever e das leis morais. Pela razão pura, sem experiência, que se encontra o fundamento da moral, e não nas circunstancias específicas ou na natureza humana. 



Princípio supremo da moralidade: 

A boa vontade é a única coisa que se pode considerar como extremamente bom. A felicidade precisa dela. Visa uma vontade moralmente boa. Em moral, o que é bom irrestritamente bom, não tem condicionalidades. Mesmo que haja elementos que a favoreçam, de nada adianta se não há algo que fundamente, ou seja, a vontade boa. 

O conhecimento moral visa o que de fato fundamenta o que se quer demonstrar. A boa vontade deve ser boa por querer e não por ter capacidade de atingir determinado fim. Não é meio e nem considerada pelos resultados. Se o objetivo do homem fosse a felicidade da preservação humana, a razão não valeria, pois os instintos conseguem a preservação. Se a razão não guiar a vontade, ela não serve para preservação humana. 

Se a razão influencia guiando a boa vontade, ela deve orientar a produção da boa vontade em si mesmo, não para outro fim. A boa vontade é o bem mais elevado para outros bens, como a felicidade. É preciso esclarecer que a razão visa cumprir o fim que ela se dá, ou seja, o dever, que sustenta essa boa vontade. 

A boa vontade com o dever é aquela útil para atingir fins específicos ou para agradar somente. A boa vontade pelo dever é aquela que independe de utilidade ou de ser agradável, e não há, portanto, condicionalidade ou inclinações humanas. 

Para exemplificar, agir para conservar a vida é um dever. Toda ação para isso é moral, ocorre pelo dever de viver. Se houver interesses diferentes, essa ação fica sem o caráter moral. Ser caridoso, por exemplo, é agir pelo dever. Mas se a pessoa tem o prazer, se isso lhe dá uma sensação prazerosa, essa ação de ser caridoso já não mais moral. 

Ser moralmente bom é ter uma ação restritiva, onde se abre mão de algo mais prazeroso pelo dever, podendo ser atribuído a qualquer sujeito que compreende essa diferença. Já agir por utilidade é visar algo agradável, é ter uma ação condicionada, influenciada por inclinações subjetivas. 

Porém, saber o que é bom não garante que o bom seja feito. É preciso assegurar o principio que garanta isso. Em razão disso, temos algumas proposições: 

a) ação moral se dá não por inclinação, mas por dever: o caso do filantropo que age por prazer não age moralmente, mas se é filantropo sem sentir prazer nisso, por ser somente, age moralmente. 

Deve-se fazer o que é dever exclusivamente pelo dever. Separar o que é prescrito como dever e a conformidade externa, ou seja, as leis. 

b) uma ação por dever tem valor moral não pelo resultado a ser obtido por ela, mas sim na máxima segundo a qual é decidida, não dependendo da realidade do objeto da ação, mas do princípio do querer. 

É o principio do dever e não do resultado a ser obtido. Ou seja, sem se preocupar com sua utilidade. A vontade encontra-se entre o principio a priori (formal) e a mola propulsora material (objeto, resultado da ação). Deve ser determinada pelo principio formal do querer em geral. 

c) representação da lei e não os efeitos dela esperado que constituem o bem moral. A legalidade universal da lei moral. O dever é uma ação necessária, por respeito a lei moral, que se impõe sozinha como legalidade, como o universal principio da vontade. É um imperativo: “Aja apenas segundo a máxima que você gostaria de ver transformada em lei universal." 

A ação moral que se dá por máximas é aquela que admite que existam princípios subjetivos da vontade de cada um. Exigir que seja um principio universal, é exigir uma objetividade ao querem que valham para todos. O que é bom é irrestritamente bom, não se limitando a casos específicos. 

Guiar-se pela lei moral determinada como dever é mais seguro que abandoná-la por ações aparentemente mais proveitosas, mas provavelmente não são boas moralmente. 

O encontro do principio racional moral comum quando passa para o conhecimento filosófico parte de dados morais pré-filosóficos. Quando se conhece esses princípios atem-se à aquilo que é fornecido pela razão pura, sem contato com casos específicos da experiência. 

No domínio prático, o poder de ajuizamento é vantajoso, quando o entendimento compreende o principio da ação moral, sem considerar as motivações pessoais, com adequado orientação, sem necessidades e inclinações. O imperativo categórico é um método analítico no fundamento da Metafísica dos Costumes, passando assim da Filosofia Comum. 



Noção da boa vontade e a contradição com a felicidade: 

Kant, na primeira seção da Fundamentação da metafísica dos costumes, discute a aparente contradição entre considerar a felicidade o fim último para a ação humana, na medida em que a razão, que nos foi favorecida pela natureza, não parece servir para alcançá-la. A noção de boa vontade faz desaparecer essa contradição. 

A razão por si mesmo não serve para alcançar a felicidade, que não é a virtude considerada o fim último para a ação humana. A razão pura, sem experiência, é o fundamento da moral, e não as circunstâncias específicas ou a natureza humana. A boa vontade, entendida como o princípio supremo da moralidade, é a única coisa que se pode considerar irrestritamente boa. Por isso, a felicidade precisa dessa boa vontade para existir. Se não for assim, essa felicidade terá uma concepção empírica, e isso significa a possibilidade da existência de julgamentos morais e inclinações que podem se tornar negativas. 

O que é bom moralmente é irrestritamente bom, sem condicionalidades e inclinações humanas. Mesmo que a virtude da felicidade ou outros elementos favoreçam essa boa vontade moral, de nada adianta se não há algo que a fundamente, ou seja, se não for a boa vontade boa em si mesmo. Essa boa vontade deve resistir sendo boa em si mesmo ainda que tudo acabe. A razão pode ser utilizada, desde que subordinada à intenção do homem, exercendo influencia sobre a vontade, a vontade boa em si mesma. 


A noção do dever: da boa vontade à lei determinada pela razão: 

A vontade boa é o bem mais elevado, superior a todos os outros bens, como a própria felicidade. A razão, nesse contexto, visa cumprir o fim que ela se dá, ou seja, que a boa vontade consista no dever. É o respeito ao dever que sustenta a boa vontade. 

O dever é livre de todas as inclinações e condicionamentos, onde a ação, obedecendo ao imperativo da razão, age puramente por dever. As ações precisam ser independentes de quaisquer tipos de motivação, sem qualquer elemento de interesse, ou seja, deve-se agir pelo interesse puro. Trata-se de uma absoluta submissão, onde o dever tem como raiz a razão, e não apresenta qualquer inclinação, como afirma Kant: 

“Dever! Nome grande e sublime, que nada em ti incluis de deleitável, trazendo em si a adulação, mas exiges a submissão; no entanto, nada ameaças que excite no ânimo uma aversão natural e cause temor, mas, para mover a vontade, propões simplesmente uma lei que por si mesma encontra acesso na alma e obtém para si, ainda que contra a vontade, veneração (embora nem sempre obediência) lei perante a qual emudecem todas as inclinações, se bem que secretamente contra ela atuem (...)” 

Agir por dever é agir moralmente, onde não se deve visar o resultado que as ações devem produzir, mas sim, agir somente por dever, objetivamente, em conformidade com a lei, e subjetivamente, na máxima desta mesma ação, onde há o respeito ao dever como modo único de determinar a vontade por ela mesma. 

Na Crítica da Razão Prática, o filósofo afirma que o valor do caráter de uma pessoa reside no fato de praticar o bem não por inclinações, mas por dever, sendo moral, pois não há qualquer finalidade –inclusive a felicidade - que não seja somente obedecer à razão. Salienta-se que a felicidade pode ser contemplada somente pelo dever e não por inclinações nas ações, uma vez que somente pelo dever é que se tem valor moral. 

De igual forma, o mandamento cristão de exercer o amor ao próximo deve ser concebido como um amor que é ordenado, como um amor por dever, segundo afirma o filósofo: 

“É sem dúvida também assim que se devem entender os passos da Escritura em que se ordena que amemos o próximo, mesmo o nosso inimigo. Pois que o amor enquanto inclinação não pode ser ordenado, mas o bem fazer por dever, mesmo que a isso não sejamos levados por nenhuma inclinação, e até se oponha a celeuma aversão natural e invencível, é amor prático e não patológico, que reside na vontade e não na tendência da sensibilidade, em princípio de acção e não em compaixão lânguida. E só esse amor é que pode ser ordenado.” 

Uma ação praticada por dever é uma ação moral, pois seu valor moral está na determinação, independentemente do seu objeto. A ação moral tem sua vontade determinada pelo princípio formal, sendo praticada pelo dever. A razão fornece a forma da lei pela qual se deve motivar as máximas das ações, sendo um dever obedecê-la. As máximas das ações devem se submeter aos princípios puros ou imperativos da razão, onde o dever tem uma necessidade de ser uma prática incondicionada da ação, onde todos os seres racionais podem tê-la como lei para viverem, como toda vontade humana. 

Agir em cumprimento a lei não é necessariamente agir moralmente, pois não é determinada pelo sentimento de dever. Quando se age em cumprimento a lei visa-se não ser punido, ou seja, há um temor. A moralidade reside não na ação, mas sim na sua determinação. De igual forma, agir em conformidade com o dever não é também agir moralmente. Kant apresenta o seguinte exemplo elucidativo: 

(...) o comerciante que atende lealmente aos fregueses, age em conformidade com o dever, mas não por dever, se não tem em vista senão o seu interesse bem compreendido. Do mesmo modo, a pessoa que leva uma vida feliz e se esforça por conservar a vida, age conformemente ao dever, pois conservar a vida é um dever. Ser benfazejo por prazer é, igualmente, agir conformemente ao dever, mas não por dever. Por outro lado, quem pratica a beneficência, mesmo sem sentir-se inclinado a isso, possui um valor moral maior do que aquele que é benevolente por temperamento, e isto no sentir de todos. 

Age-se moralmente quando se age por dever, quando uma ação fundamenta-se no dever, determinada pela lei de forma incondicional. A ação será boa independentemente do resultado, pois tem por escopo, exclusivamente, a própria boa vontade de agir. 

Portanto, as ações serão morais ou não, de acordo com suas intenções. A moralidade reside na intenção que se tem e não no resultado em si. O elemento que determina a ação é a intenção. Quando esta é determinada de forma objetiva, será moral, porém, se for de forma subjetiva, visando o cumprimento da lei, será legal, porém não moral. É moral o que é feito pelo dever, onde este determina exclusivamente o cumprimento da lei pela razão, e não por condicionalidades ou inclinações, e sendo também, válido de forma universal, o que não acontece com que é imoral. 




A noção do dever e a experiência: 

A noção de dever é uma elaboração mora de Kant, onde o filosofo analisa a vontade e a separação do que é bom moral (sem condicionalidades) e o que bom por utilidade ou prazer. Nesse sentido, o principio da moralidade não é fornecido de forma alguma pela experiência, o que não significa que os dados desta não possa carregar esse principio, mas que esse princípio não é fundado na experiência, determinado a priori. 

O conhecimento da experiência carrega conhecimentos empíricos e a priori, sendo difícil separar esse dois elementos. Quando se encontra o elemento a priori na experiência consegue entender que ele não é fundado na experiência e assim pode-se conhecer a forma e o conteúdo do principio a priori da moralidade. 

Na final da primeira seção, Kant afirmava que as necessidades humanas (que determina o que é bom pelo prazer ou por utilidade) resiste ao que é bom pelo dever, incondicionado, e faz com que aja contra o que é imposto pelo dever, o que significa que o que o dever orienta pode não ser realizado pela vontade humana, porque essa se inclina a vontade humana e, portanto, aspectos subjetivos. Por isso, precisa-se mostrar porque o principio a priori da moralidade fundamentado exclusivamente pela razão, a priori, sem inclinações subjetivas e particulares. Por isso é preciso mostrar que se funda na razão e esse jogo de não realizar que o dever impõe, mostra uma relação fundamento no âmbito da moral de jogo entre liberdade e necessidade. 

A noção de um dever impõe que o dever moral, obrigação moral, é uma necessidade e vetaria a liberdade e a vontade. Porém, o dever não impede a liberdade de agir de forma contrária ao dever prescrito. A necessidade como princípio pela razão, a priori (ou seja, os deveres são universais e necessários) não é arbitrário decidir se tem ou não obrigações morais, mas é do arbítrio agir ou não de acordo com essa obrigação. 

No título da segunda seção há uma transição de uma filosofia popular para uma metafísica dos costumes. Encontrar o princípio a priori não analisasse os sistemas filosóficos particulares. Filosofias populares são exemplificações de objeções que filósofos contemporâneos a Kant faziam de sua moralidade e sobre a tendência da moralidade humana se inclinar a princípios particulares e afastar-se do principio fundamental da moralidade. O filosofo propõe analises de determinar formulações do principio da moralidade a partir de inclinações e confunde o que seja empírico e o que seja a priori. 

Não se deve pensar o principio da moralidade como o conceito da experiência. Kant afirma que se olhar não há exemplos de ações por puro dever e que muitas coisas, embora possam parecer acontecer em conformidade com dever, pode-se duvidar se elas acontecem por dever, e não em conformidade com o dever moral. 

Impossível na experiência determinar o que de fato tem seu fundamento a priori. Impossível pela experiência afirmar que a máxima pelo dever acontecer realmente por dever e a representação que cada um faz de seu dever. É importante considerar essas representações. 

Há uma infinidade de molas propulsoras secretas, ou seja, inclinações subjetivas que levam o sujeito a agir, interferem em sua vontade. Não se pode conhecê-las. Na experiência, conhece-se a ação. Mas para a moral importa é o principio interno da ação, o que a experiência não acessa. Entender que a razão comanda o dever em si independente de tudo que as aparências demonstram. 

A vontade está ligada a razão pratica, como poder de agir por princípios determinados pela razão. Assim, as inclinações não determinam sempre a vontade, podendo sim a razão determina-la. 

É justamente aqui que Kant se afasta totalmente da teoria do sentimento moral de Hume, onde a vontade é tida como impressão e determinada por um sentimento moral e não pela razão. Para Kant, embora a experiência mostre que a vontade frequentemente se inclina por sentimentos particulares e subjetivos, o estabelecimento dos princípios da moralidade só pode ser dado pela razão. 

Ressalta-se que o que Kant considera como moralidade, enquanto lei, obrigação, é estendido para além dos homens, indo para todos os seres racionais em geral, de forma necessária. Ou seja, se se puder conceber a ideia de Deus, enquanto ser racional, as leis da moralidade são necessárias também para Deus. 

A vontade também pode ser considerada em duas perspectivas: a vontade perfeitamente racional, que é boa, e a vontade imperfeitamente racional, onde não faz o que é bom seja por ignorância ou fraqueza. Para o filosofo, pode-se pensar numa vontade que age de forma imperfeita ou perfeita, de acordo com o dever, logicamente possível. 

A distinção entre as vontades está presente na insuficiência da moral, de exemplos, pois se extrai da experiência. Se pensar no primeiro exemplo moral que é o Evangelho, deve-se compará-lo com o nosso ideal de perfeição moral. 

É na filosofia prática pura, na metafísica dos costumes, que se encontra o principio da moralidade, e não na filosofia popular. Na metafísica, fundamentam-se teoricamente os deveres e estabelece-se os preceitos dos deveres., pois o dever, lei moral pura, sem empirismo e pela razão, tem mais poder sobre a vontade que as outras inclinações, e o que dever determinar restringe o que é mais prazeroso, pelo o que é moralmente bom. E por isso, vincula-se a razão com a filosofia prática pura. A lei moral vale para todo ser racional, em geral, e não só para o conceito de natureza humana. 




Formas e conteúdos do principio do dever – definições: 

a) Vontade e razão prática: 

Tudo se opera por lei, e o ser racional tem faculdade de agir por representação das leis, ou seja, pela vontade. A vontade é a própria razão prática, onde há a faculdade de escolher só o que a razão entende como necessário e bom. 

A vontade não é inteiramente pela razão para o homem, por isso separasse da noção de objetividade as leis, considerando os princípios objetivos como além das inclinações subjetivas. São mandamentos, imperativos, expressos como verbo, como dever, onde o que é determinado objetivamente é bom, como valido para todo o ser racional, pois é determinado pela razão. A diferença entre bom moral e o bom agradável é justamente porque esse último depende de sensações e causas subjetivas e sem validade universal. 


b) Inclinação e interesses: 

A inclinação é a dependência da vontade às sensações. Interesses é a dependência de uma vontade contingente determinável de princípios da razão. Nessa perspectiva, a vontade divina não tem interesse, sendo sempre conforme o dever. Para o homem há sempre dois interesses: a ação (um interesse prático, dependente da vontade de princípios) e o objeto (determinado por interesse, fora do escopo da moralidade). 


c) Vontade perfeitamente racional e vontade imperfeitamente racional. 

A distinção está nos resultados: 

- na distinção entre leis e imperativos, onde as leis são aquilo que diz o que é bom fazer em preferencia de outras ações, e os imperativos são o que deve ser feito, independentemente da ação ser igual a ele. 

- na distinção entre princípios objetivos e princípios subjetivos, onde os primeiros possuem validade universal para todo o ser racional, e, portanto, leis imperativas, e os últimos são máximas, o que quer fazer, onde se prefere uma em detrimento a outra. 

Como o dever é um principio da moralidade imperativo, expresso, é nesse imperativo que se encontra o dever. 


d) Tipos de imperativos: hipotético e categórico. 

O imperativo hipotético representa a necessidade de uma ação como meio para conseguir outra coisa. É uma determinação, condição, subjetiva, particular. A felicidade é uma ação hipotética, porque se tem outra intenção. São ações que tem fins determinados.

O imperativo categórico representa uma ação como necessária em si, sem determinação de outro fim. Só ele determina a ação boa por si mesmo e a ação necessária que é conforme a razão. Nele ocorre o principio da moralidade. 

Esse imperativo categórico determina que a vontade aja pela razão, de acordo com o dever. Dessa determinação se forma o principio da ação. Vale para uma vontade racionalmente imperfeita, pois a determinação de conteúdo, pela forma é descolada da experiência, ou seja, é a priori. 

Considerando o imperativo categórico pode-se pensar a ação como uma necessidade do principio objetivo agir sobre o principio subjetivo. Quem quer um fim, quer os meios, e por isso é um impasse. A matéria é o fim que tal ação intenciona, como na felicidade, ou seja, fim determinado, por isso tem meios subjetivos. Os meios dos imperativos categóricos são determinados, e tem força de lei prática, não podendo mudar os meios para atingir o fim. 

O imperativo categórico é juízo sintético pratico a priori. Não é analítico, independendo da experiência. São a priori porque só explicitam o que está no sujeito, não ampliando o conhecimento, como os juízos sintéticos que ampliam o conhecimento, pois unem ao sujeito um predicado. 

A própria formulação do imperativo categórico fornece seu conteúdo, pois além da lei ser universal, a necessidade da máxima se conforma a lei. Por isso há um único imperativo categórico, sendo o principio da moralidade de onde todas as outras formas devem ser deduzidas. 

O principio da razão mostra o principio da moralidade. Todo o principio do dever, do bem incondicional tem seu papel central na razão prática. 


Conclusão: 

Na analise dos limites da razão, tem-se duas formulações fundamentais das questões da moralidade na modernidade. Hume entende que a vontade se dá pelo sentimento, pelas impressões, onde o que distingue o que é bom e mau, a moralidade, é um sentimento de aprovação ou desaprovação. Já Kant o limite da razão é o postulado da razão, que se dá a priori. O imperativo categórico garante que a vontade se paute por este princípio racional e definido, mesmo a vontade podendo ser imperfeitamente racional. 


BIBLIOGRAFIA: 

DALL`AGNOL, Darlei. Ética II. Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2009. 

HUME, David. Tratado da natureza humana. Oxford: Clarendon Press, 1978. 

KANT, Imannuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Abril Cultural, 1980. 


OBSERVAÇÃO: 

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina “ÉTICA II” da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA – Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 05/05/2013. 


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sábado, 4 de maio de 2013

ÉTICA II – DAVID HUME E A TEORIA SOBRE O SENTIMENTO MORAL NA FILOSOFIA MODERNA


O presente estudo visa conhecer a filosofia moral de David Hume (1711-1776), para compreender alguns aspectos fundamentais de sua teoria sobre o sentimento moral, focando em duas partes do Tratado sobre a natureza humana. 


Introdução: 

O Tratado sobre a natureza humana é amplo, por isso aqui se faz um recorte sobre os problemas da liberdade. Hume é britânico, empirista, e entende que toda a forma de conhecimento se dá por meio da experiência. Aponta um privilegio sobre o papel das percepções como aquilo que descreve os conteúdos mentais que o sujeito é possível. 

Hume vai delinear a moral com a relação entre vontade e paixão, com a relação entre a necessidade e a liberdade, e a partir disso o papel delas com a vontade. Entre como paixões diretas as impressões que resultam por alguma outra coisa, não sendo inatas, onde o bem ou mal podem causar essas paixões. A vontade tem papel fundamental. Se não é propriamente uma vontade, qual é o seu papel? Como pode haver uma relação de uma paixão e vontade numa moral? 

O filósofo entende a vontade como um conteúdo moral que deve ser pautado pela percepção. Na seção 2 da obra analisada, Hume apresenta quais as origens das ideias e como os conteúdos mentais estão presentes na mente humana. Eles, os conteúdos mentais, são percepções, se dividindo em impressões e ideias. O que as difere é a vivacidade. As impressões são mais vivas. Já as ideias são cópias enfraquecidas daquilo que são as impressões. Separam-se, portanto, pelo grau de vivacidade. Também se separam pela anterioridade, onde as ideias surgem pelo o que as impressões determinam. O filosofo entende também que há diferentes tipos de impressões e ideias, podendo ser simples e compostos. 

As impressões e as ideias correlatas não possuem ligação entre as impressões e ideias, o que há é uma operação mental que as vincula: trata-se da imaginação, onde de forma livre, estabelecem-se essas ligações entre impressões e ideias. É a plena liberdade de correlacionar, criando ideias compostas sem ter impressões compostas. 

Essa conexão é determinada pela imaginação por 3 modos fundamentais: 

a) associação de ideia simples e impressão simples por semelhança: ver uma foto + pessoa que conheço; 

b) por continuidade espaço-temporais: o percurso que faço, sei o que há do lado do local onde estou; 

c) causa-efeito: não há nenhuma relação entre causa e efeito. É uma imaginação feita pela experiência da repetição da sucessão desses eventos. Torna-se presente por uma impressão determinada, impressões que estão ausentes. Exemplo: o fogo causa calor, mesmo que a distancia, não sinta o calor. 

Essa relação é arbitraria pela imaginação, que se inclina a fazer uma inferência, pelo habito da experiência. 

Na análise da vontade há o problema da necessidade e liberdade. Vontade é um tipo de impressão presente no entendimento humano, sendo um equívoco esforçar descrevê-la de forma acabada. Deve-se somente considera-la como impressão. A sua relação com necessidade e liberdade considera objetos externos e necessários. Não há qualquer registro do acaso. Não se tem acesso à necessidade de relação dos objetos, o que não significa que eles não existam. 




01 – O estabelecimento de identidade entre as relações que a mente infere entre corpos externos não dotados de vontade e as relações entre as ações dos corpos dotados de vontade: 

Para Hume a mente tem um funcionamento que reage às percepções, podendo ser estas as impressões e as ideias. Todas as ações humanas decorrem das percepções. O filósofo propõe explicar as paixões diretas, ou seja, como pela percepção dos sentimentos (como o bem e o mal, a dor e o prazer, o amor e o ódio, etc) pode-se explicar a vontade humana. Nesse sentido, a vontade humana possibilita compreender esses sentimentos, e é “a impressão interna que sentimos e de que temos consciência quando deliberadamente geramos um novo movimento em nosso corpo ou uma nova percepção em nossa mente”. 

É a partir da vontade que Hume passa a analisar as relações inferidas pela mente, seja com os corpos externos, que não são dotados de vontade, seja entre as ações dos corpos que são dotados de vontade. Para tanto, ele considera as questões que envolvem a necessidade e a liberdade. 

Assim sendo, o filósofo reconhece que as operações dos corpos externos são ações necessárias, sem nenhum traço de liberdade. Tudo que esteja na mesma situação da matéria, ou seja, as dos corpos externos, devem ser vistas como ações necessárias. Isto porque a mente só tem conhecimento de uma união constante que produz essa necessidade. E essa conjunção uniforme e regular é que produz a ideia para a mente da relação de causa e efeito. Essa união constante de causa e efeito produz essa inferência na mente sobre os corpos externos de que eles agem sobre uma necessidade regular e uniforme. 

A ideia de causa e efeito é fruto dessa necessidade, dessa identidade entre as relações dos corpos externos não dotados de vontade. E isso é uma determinação da mente que infere a existência da necessidade desses corpos externos de se unirem, como causa e efeito. Essa união ocorre por não se conseguir ter uma visão direta da essência desses corpos. A experiência, portanto, faz existir a inferência de que as ações desses corpos possuem uma união constante com os motivos, os temperamentos e as circunstâncias que os envolvem. A experiência possibilita dessa inferência de que causas semelhantes sempre produzem efeitos semelhantes, do mesmo modo que na ação mútua dos elementos e poderes da natureza. Tal regularidade é reconhecida como exemplo da necessidade e da existência de causas nos corpos externos. 

A necessidade tem por essência a uniformidade das ações do curso geral da natureza humana, que é conhecida pela mente humana. A uniformidade das ações humanas fundamenta essa união necessária, essa conexão regular. Ao se julgar as ações dos corpos dotados de vontade deve-se ter a mesma base das máximas que são utilizadas ao se julgar as ações dos corpos externos, ou seja, é preciso considerar que há uma uniformidade das ações humanas como regra, e as exceções que ocorrem quando há uma conjunção que varia dessas experiências constantes, devem ser vistas como acaso e com indiferença, e é fruto do conhecimento humano imperfeito, mas nunca tendo como explicação as próprias coisas que variaram, as quais necessariamente deveriam acontecer de forma igual constantemente. 

Pode-se então concluir que essa identidade das relações que são inferidas pela mente entre os corpos externos não dotados de vontade e entre as ações dos corpos dotados de vontade, é a união entre os motivos e as ações, que possuem a mesma constância, sejam nas ações humanas, sejam nas operações naturais. 

Noutras palavras, a necessidade de união é igual entre os motivos e as ações humanas e nas operações naturais. E de igual forma, a necessidade é a mesma na influencia sobre o entendimento, onde há a inferência da existência de uns da existência dos outros, não havendo espaço para a liberdade. E essa é uma evidencia moral, ou seja, uma conclusão acerca das ações humanas, onde todos os atos da vontade decorrem dessa necessidade que também existe. A relação de causa e efeito necessária é fruto da inferência pela experiência. É uma conclusão da percepção da mente, que infere tal união como necessária, porque deriva dos mesmos princípios e tem a mesma natureza. 

Nesse contexto, a liberdade é o acaso, pois para ela existir é preciso suprimir a necessidade, que tem como essência a causalidade, a relação necessária existente, seja entre os corpos externos ou entre as ações dos corpos dotados de vontade. 



02 – As três razões para a prevalência da doutrina da liberdade: 

Considerando que a identidade das relações que são inferidas pela mente entre os corpos externos não dotados de vontade e entre as ações dos corpos dotados de vontade, é a união entre os motivos e as ações, que possuem a mesma constância, sejam nas ações humanas, sejam nas operações naturais, e que, de igual forma, a necessidade é a mesma na influencia sobre o entendimento, onde há a inferência da existência de uns da existência dos outros, sem espaço para a liberdade. 

De igual, a partir da compreensão de que esse entendimento é uma evidencia moral, ou seja, uma conclusão acerca das ações humanas onde todos os atos da vontade decorrem dessa necessidade que também existe, bem como onde a relação de causa e efeito necessária é fruto da inferência pela experiência, sendo uma conclusão da percepção da mente que infere tal união como necessária, porque deriva dos mesmos princípios e tem a mesma natureza. Assim, a seção anterior a esta em tela, conclui que a liberdade é o acaso, pois para ela existir seria necessário suprimir a necessidade, que tem como essência a causalidade, a relação necessária existente, seja entre os corpos externos ou entre as ações dos corpos dotados de vontade. 

Hume passa então, na seção 2 da parte 3 do Livro 2 ora analisada, a apresentar três razões para a prevalência da doutrina da liberdade, no entendimento humano, a saber: 

A primeira razão é que ao realizar uma ação o ser humano tem dificuldade em aceitar que agiu de forma governada, ou seja, parece-o que, se aceitar que agiu por uma necessidade (relação de causa e efeito) foi forçado, violentado e constrangido a agir dessa maneira, não tendo, portanto, consciência do seu agir. Isso se dá pela confusão de compreender liberdade como espontaneidade e não liberdade como indiferença, onde agir por livremente por espontaneidade é opor-se à violência e agir livremente por indiferença, é deliberadamente negar a necessidade e as causas de sua ação. 

A segunda razão pela qual a doutrina da liberdade prevalece na aceitação humana é a falsa sensação ou experiência da liberdade de indiferença. A necessidade de uma ação não defira do próprio agente, mas é característica de qualquer ser pensante que, se estiver de fora da ação em si, irá considerar a determinação do pensamento que infere a existência da ação a partir dos objetos preexistentes, da relação causa e efeito da ação. Essa sensação de liberdade de indiferença é falsa, pois, por mais que o agente sinta que suas ações estão submetidas à sua vontade, e esta não está submetida a nenhuma determinação, outra pessoa de fora conseguirá inferir essa ação de necessidade, diferenciando-a dos motivos que fez com que o agente assim o procedesse, bem como o caráter dessa ação e do agente. 

Por fim, a terceira razão decorre da religião, que muitas vezes é utilizada para refutar a doutrina antagônica da necessidade, levando a discussão para consequências perigosas, seja para a religião e para a moral. Para Hume, essa atitude não contribui em nada para a descoberta da verdade, e só serve para “tornar odiosa a pessoa do adversário”, uma vez que sua proposta é analisar a relação de necessidade nas ações humanas e nos objetos externos, e isso no campo das matérias sensíveis, e não no patamar das operações da matéria insensível. 

Porém, o filósofo ressalta que a necessidade é essencial tanto para a religião como para a moral. No campo da moral, é a necessidade – a relação de causa e efeito – que justifica a existência de leis humanas fundadas em recompensas e punições, produzindo sob a mente influência para a realização de ações que sejam consideradas boas e impedindo as que são consideradas más. No raciocínio ligado às leis divinas, a necessidade se justifica porque se considera Deus como um legislador que impõe punições e concede recompensas para que haja a obediência por parte do ser humano. Dessa forma, a doutrina da liberdade não encontra justificativa para o filósofo, pois caso contrário, os homens, seja no campo moral ou no religioso, não seriam responsáveis por suas ações planejadas e premeditadas, casuais ou acidentais. O mérito ou demérito das ações humanas é, portanto, um princípio da doutrina da necessidade e não da liberdade. 




03 – As ideias de virtude e ócio extraídas das noções de dor e prazer: 

Na ética de Hume toda ação da mente é uma percepção, inclusive as de aprovar ou não um caráter e as de distinguir entre o bem e o mal. As percepções se dividem em impressões e ideias relacionadas às essas impressões. Quem entende que a moralidade é uma conformidade com a razão, entende que o certo e o errado são impostos por leis, por divindades, sendo discernidos pelas ideias de justaposição e comparação, conseguindo assim distinguir entre o bem e o mal. Hume, no entanto, discorda dessa concepção justamente porque a filosofia, no que se refere à moral, é prática, ou seja, ela influencia as paixões e ações, indo além do entendimento meramente racional. 

Nesse sentido, na ética humana, a moral desperta as paixões, produzindo ou impedindo as ações. A razão sozinha não é capaz disso. As regras da moral, portanto, não são conclusões da razão, pois esta é inativa para tanto. A moral não é fruto de dedução racional. Se a moralidade fosse um acordo ou desacordo com a razão, as outras circunstâncias, como os juízos, seriam sempre arbitrários, não podendo conferir a uma ação o caráter de virtuosa ou viciosa, ou privá-la de tais caracteres. Todos os vícios e virtudes seriam, dessa maneira, iguais. 

Porém, a razão pode influenciar uma ação quando desperta uma paixão, informando-a sobre a existência de algo que é objeto de tal paixão, ou descobrindo conexões que possibilitam meios de exercer uma paixão qualquer. A ação pode causar um juízo ou ser causada por um juízo. Nesse sentido, os juízos podem ser falsos e errôneos. E este é o problema da moral, pois, por ser afetada pela paixão, uma pessoa pode supor que um objeto comporte dor ou prazer sem que isso seja de fato. A moral, fundamentada na paixão, tem a virtude como provocadora do prazer e o vício como provocador da dor. 

Por não ser a moralidade objeto da ciência, de descoberta pelo entendimento racional, na análise de um vício ou uma virtude só se encontram paixão, motivos, volições e pensamentos. Não se tem questões de fato. Tem-se o sentimento de aprovação ou desaprovação, que está em quem o sente, e não no ‘objeto’ considerado aprovado ou desaprovado. Por isso, na filosofia moderna, o vicio e a virtude podem ser comparados ao som, às cores, ao calor e frio, pois são percepções da mente e não qualidades do objeto. Interessam-se os sentimentos de prazer e desprazer, sendo favoráveis à virtude e desfavoráveis ao vício, para assim regular as ações humanas. 



04 – A noção de bondade em Hume:

Hume entende que toda ação da mente é uma percepção, seja para aprovar ou não um caráter, seja para distinguir entre o bem e o mal. Essas percepções podem ser impressões ou ideias relacionadas às próprias impressões. De igual forma, compreende que a moral não decorre do uso da razão, pois o filósofo vê esta última como inativa para despertar paixões ou ações, bem como para despertar a virtude enquanto a provocadora do prazer, e o vício enquanto provocador da dor. Não é, portanto, em Hume, a razão que possibilita distinções morais, que favorece a consciência e o sentido moral. 

Ao entender essa base do agir moral é possível compreender que as paixões e as virtudes consistem na experiência. Ser bom ou mal se aplica as ações da mente, derivando dessa experiência das relações com objetos externos. Ressalta-se que essa distinção entre ser bom e ser mal, se encontra apenas entre as ações internas e objetos externos e, portanto, não se aplica às ações internas comparadas entre si e nem a objetos externos opostos a outros objetos externos. 

Por essa razão, não se pode comprovar que os critérios entre bem e o mal podem ser conhecidos somente pela razão como definidora do que seja bom. É preciso conhecer essa virtude e conformar a vontade humana a ela. É preciso ter uma conexão de relação da virtude da bondade e a vontade, e isso se dá somente pela experiência, pela influência da paixão nas ações da mente humana, pois as distinções morais derivam do senso moral, que é sentido e não racionalizado. 

A concepção humana propõe justamente descobrir quais são essas percepções (as impressões ou as ideias) que, consistindo no empirismo, acompanham a moralidade. Assim, a impressão que deriva da virtude é agradável, bem como o seu oposto, ou seja, a impressão que deriva do vício é desagradável. Dentre todas as impressões, uma se destaca pela pressuposição de um utilitarismo de Hume, é a ação benevolente, a bondade, que é tida como a mais bela e nobre, prazerosa, a que provoca a aprovação pela paixão. 

Juntamente com a justiça (que depende das circunstancias externas e que promove o benefício público ao garantir a segurança e a propriedade), a virtude da bondade, é também um dos principais objetos de aprovação social. Isso se dá porque a bondade moral, na análise de Hume, é uma qualidade apreendida nas ações, a qual se obtém aprovação, e de igual forma, provoca o desejo de felicidade do agente. Ser o que não é bom é reconhecer aquilo que leva à desaprovação, ou seja, é ser o mal moral. Ressalta-se que a aprovação ou desaprovação está relacionada à concordância ou não com os interesses e vantagens do agente. Isso reforça o caráter utilitarista da concepção humana sobre a bondade moral. 

Assim, a bondade para Hume é uma virtude social, onde os objetos de aprovação da benevolência tendem a promover os interesses da espécie e a felicidade da sociedade humana, justamente por promover dentre outras ações, a harmonia das famílias, a ordem na sociedade, o suporte entre amigos, que demostram o caráter útil da bondade. 


BIBLIOGRAFIA: 

DALL`AGNOL, Darlei. Ética II. Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2009. 

HUME, David. Tratado da natureza humana. Oxford: Clarendon Press, 1978. 


OBSERVAÇÃO: 

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina “ÉTICA II” da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA – Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 04/05/2013. 


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