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sábado, 26 de fevereiro de 2011

NÃO DEIXE PARA AMANHÃ


A vida é sempre muito corrida. Temos todos nossos compromissos que precisamos dar conta, no tempo mais rápido possível, com a melhor perfeição que se possa conseguir. Neste ciclo atropelador e catalisador de nossas forças e atenções, focamos nossas ações nas atividades em detrimento das pessoas. Pessoas que fazem parte da nossa família, que vivem sob o mesmo teto que nós, de nossas famílias, amigos de trabalho, de estudos, de igreja, de lazer, de esporte.

E meio que de repente, vem a vida com a brutalidade de suas intempéries e nos faz repensar posicionamentos. Em alguns raros casos ela ainda se permite a deixar pré-avisos, tenta nos chamar a atenção. Porém, muitas vezes, preferimos nos fazer de surdos.

E quando acontece o inesperado é que, envolto a dor, o choro, a perplexidade, a angústia no peito, nos damos conta de verdades que estão escondidinhas dentro do nosso ser, inócuas.

Dentre elas, uma essencial: não podemos deixar algumas coisas para o amanhã. Ele não nos pertence. Não temos esse direito. Não podemos deixar para amanhã:

... para falar que amamos a quem nós realmente amamos: Como é difícil realizar esse ato. Tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexo. Ele mexe com toda a nossa estrutura. Por que o simples ato de falar que amamos as pessoas que realmente amamos é tão difícil? Nunca deixe que saia da sua presença uma pessoa que você ama sem que ela tenha essa certeza. Não adie para amanhã essa fala. Simples, porém complexa. Banal, porém essencial.

... o ato de demonstrar nosso amor pelos outros: Mais importante que amar e falar que amamos quem realmente nós amamos é demonstrar. Amor sem ação é só emoção. É palpitação. Excitação. Ilusão. Amar demanda ação. É mais que a mera fala. É um afeto. Um pensar e fazer para o outro. É agir pelo outro em detrimento de si próprio. Demonstração de amor, pela prática, pela ação, é talvez o estágio mais profundo do ato de amar alguém.

... a oportunidade de perdoar os erros dos outros: Só quem nunca errou é que pode negar perdão. A vida é tão peregrina que guardar ódio, raiva pelo outro que erra conosco é como purificar um veneno para si mesmo. Perdoar a falha do próximo como se deseja ser perdoado ao falhar, é também uma forma de amar. É a tentativa de amenizar a dor, mesmo que as cicatrizes do ato falho sejam imutáveis.

... a prática de beijar, abraçar, acariciar quem amamos: O amor demanda de contato físico. Até os animais precisam disto. Não negue um beijo a quem você ame. Não perca a chance de em todas as oportunidades que você tiver de abraçar com toda sua força quem lhe é importante. Passe a mão na cabeça, no rosto de quem lhe cativou. Elogie. Eleve a auto-estima do outro. Acariciar a alma do outro. Desejar o bem e expor esse desejo.

... o cuidado com quem amamos: Cada ser é único. Descobrir a unicidade de cada pessoa que amamos e o que lhe provoca o medo com o intuito de apoiar no seu processo de superação deste é a melhor forma de cuidar. Mais do que muitas vezes disponibilizar bens financeiros, o cuidado demanda interação, convívio, dedicação de tempo, do ouvir, do pensar e repensar juntos.

... para aceitar as pessoas como elas são: Não importante se quem amamos é branca, negra, ruiva ou parda; homem ou mulher, atleticana ou cruzeirense; cristã, espírita, umbandista ou atéia; de classe mais alta ou pobre; sem ou com deficiência; hétera ou homossexual; estudada ou analfabeta. Amamos as pessoas pelo o que elas são. Amar deve independer de suas escolhas, orientações, práticas e crenças. O amor transcende a individualidade do ser e de suas escolhas. E como é difícil aceitar que quem amamos seja diferente de nós? Amar aceitando as pessoas como de fato elas são, sem juízos de valores e com o respeito que queremos para nós mesmos, reconhecendo e aceitando suas diferenciações é, na realidade, uma oportunidade de evolução pessoal.

... o cultivo da uma vivência mais intensamente com quem amamos: Não se pode deixar para amanhã a oportunidade de se encontrar com quem amamos. De ouvir o outro, de praticar exercícios físicos, passeios, viagens com as pessoas que amamos. Passar mais tempo com quem amamos, conhecendo-as.

... para valorizar mais as pessoas e menos o que se tem: Não valorizar o que se tem e sim o que se é. Corremos tanto atrás de adquirir bens materiais. Ter um bom emprego, uma boa residência, um carro, dinheiro no banco, aquisições e aquisições. Acumulamos tantas coisas que a vida, às vezes, se encarrega de eliminar tudo em meio minuto. E que o fica? Nada além da certeza de que somos amados e que estas pessoas são realmente importantes em nossa existência, porque se o pior acontecer é o amor destas que nos fará prosseguir.

Não deixar para amanhã! Amanhã pode ser muito tarde. A vida muda tão rápido. Mudamos todos. Os sentimentos mudam. Os contextos mudam. Tudo chega ao fim e o fim chega para todos.

Não espere que a força do silêncio que esfrega em nosso peito a falta do riso gostoso de ouvir no local de trabalho ou nas reuniões de família, que a ausência na cadeira ao lado na sala de aula, ou mesmo o cheiro agradável característico de alguém que você ame, lhe faça entender que o amanhã já é muito tarde para esse amor.

Ame hoje. Falando hoje. Demonstrando hoje. Perdoando hoje. Abraçando, beijando, acariciando hoje. Cuidando hoje. Aceitando hoje. Desfrutando da convivência hoje. Valorizando hoje, quem você ama.

Amanhã pode ser muito tarde!


Autor: Edmarcius Carvalho Novaes

www.edmarciuscarvalho.blogspot.com

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

POR QUE VOCÊ NÃO QUER MAIS IR À IGREJA?

Era um domingo, dia 23 de janeiro de 2011. Hora do almoço. Como de costume – tradicionalíssimo – minha avó, ao agradecer a Deus “as mãos que fizeram aquele alimento”, interpelou também: “que o Edmarcius possa se regenerar e voltar a ser o que era na igreja”. Finalizou sua oração e todos se alimentaram normalmente.

Menos eu. Essa oração – frase no sentido lingüístico e no caso também no religioso – ficou na minha mente, porque no fundo, no fundo, ainda hoje, manifestações deste tipo, causam-me certo incômodo, porque mexe numa das maiores dores que já vivenciei: a dor da alma fruto de experiências religiosas. Porém, como bom neto que sou, preferi me omitir e deixar tal desconforto passar despercebido.

Seis dias depois chegou meu aniversário. Antes me levantar da cama recebi, da minha mãe, meu primeiro presente do dia. ‘Poxa, que legal’ – pensei eu! Antes de abrir o presente, a recomendação que demonstra uma preocupação amorosa de uma mãe por seu filho: ‘não brigue comigo pelo presente, mas quando o vi, lembrei de você e decidi comprá-lo. Leia-o e depois me diga a resposta pra pergunta título do livro’.

Com as vistas embaçadas pelo sono apenas confirmei com a cabeça a resposta positiva, abri o livro, li seu título, sorri e voltei a dormir. E junto com o sono as idéias remeteram-me ao fato ocorrido no domingo e conclui precipitadamente comigo que este poderia ser mais um desconforto que passaria, agora em relação ao presente de aniversário, dado pela minha mãe.

Ledo engano! Acho que se não for o melhor presente de aniversário que já ganhei em minha vida, está entre os melhores. É, sem dúvida alguma, a melhor leitura que poderia ter feito nesses últimos dias, meses e anos - tempo este enquanto a pergunta título do livro se concretizou na minha existência terrena.

“POR QUE VOCÊ NÃO QUER MAIS IR À IGREJA?” (2009, Editora Sextante), escrito por Wayne Jacobsen e Dave Coleman, traduzido no Brasil por André Costa, é a obra em questão. Recomendo a leitura urgente para todos os que abraçaram o cristianismo enquanto opção religiosa para suas vidas.

A estória do livro é uma ficção. Porém, mesmo que haja a recomendação contrária, creio que foi sim baseado historias de vidas reais. Muitas. Milhares espalhadas pelo mundo afora. Todas de vítimas, consciente ou inconscientemente, de um período em suas vidas, onde jogaram “o jogo da igreja”.

Não se trata de uma apologia aos que criticam a igreja, mas sim de uma das melhores produções já realizadas no que diz respeito a (re)flexão – pensar de novo – sobre o papel desta e do significado de sê-la nas vidas das pessoas que se propõem a vivenciar suas experiências de fé neste contexto, e por fim, a possibilidade de ver novas formas de viver a realidade de uma Igreja.

A estória de ficção tem como sua personagem principal, o pastor Jake Colsen, que depois de toda uma vida dedicando-se a Igreja e ao caminho que sempre lhe pareceu o certo, encontra-se diante de uma dolorosa dúvida: como é possível ser cristão há tanto tempo, e ainda assim, se sentir tão vazio?

Porém, observando uma multidão numa praça, Jake depara com João, um homem que fala de Jesus como se o tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião. É com a ajuda desse novo amigo que Jake irá reavaliar os conceitos e crenças que norteavam seu caminho: Levar uma vida cristã significa ter os comportamentos aprovados pelo grupo religioso a que pertencemos?

No decorrer da estória, a cada nova palavra de João, assiste-se ao renascimento de Jake em busca da verdadeira alegria e da liberdade que Cristo veio ao mundo oferecer. Na reconstrução da sua vida, percebemos a ação de Deus, por meio do perdão e do amor.

Pessoas que assim como eu encontram-se feridas em nome de um Cristo pregado por alguma instituição religiosa ou sistema religioso encontram neste livro um bálsamo. É um refrigério saber que, no mundo afora, muitas outras pessoas também passam por este dilema, e encontram a possibilidade de reformular seus pensamentos a respeito do amor de Cristo, da alegria e da liberdade que é a essência de ser um cristão, mesmo afastados de coração de igrejas.

Muitos como eu foram criados em igrejas. No livro registra um dado interessante: 92% das crianças que freqüentam regularmente as escolas dominicais (pra quem não é evangélico não vai entender o ‘evangeliguês’: significa a ‘catequese’ evangélica, grosso modo, comparando-a com o catolicismo), quando deixam a casa dos pais, ou quando crescem, abandonam a igreja.

E abandonam sabe por quê? O livro responde e esta é a resposta a pergunta título do livro. O cristianismo que as igrejas vivem, em sua maioria, é um cristianismo institucional, razão esta que faz com que as pessoas não queiram mais ir às igrejas!

Os autores, em suas ultimas páginas, disponibilizam uma entrevista concedida sobre o conteúdo polêmico do livro. Ao serem inquiridos se procuram por uma igreja perfeita dizem que não espera encontrá-la – a igreja perfeita – neste lado da eternidade, mas sim procuram por pessoas que fazem de Deus sua prioridade. E manifestam incômodo com o ‘cristianismo institucionalizado’ de uma forma perfeita. Veja:

“Boa parte do que chamamos hoje de ‘igreja’ não passa de uma encenação bem planejada, com pouquíssimas ligação efetiva entre os fiéis. Estes são muito mais estimulados a depender cada vez mais do sistema ou de seus lideres do que do próprio Jesus. Gastamos mais energia adaptando nosso comportamento àquilo de que a instituição necessita do que ajudando as pessoas a se transformarem!”.

E continua, até sendo um pouco duros ao retratar, infelizmente, a realidade:

“Cansei de tentar estabelecer uma comunhão com gente que concebe a ‘igreja’ apenas como um lugar onde um grupo passa duas horas por semana expiando a culpa, enquanto vive o restante da semana com as mesmas prioridades mundanas. Cansei daqueles que exaltam as próprias obras piedosas, mas que não demonstram compaixão pelos outros. Cansei de gente insegura que usa o corpo de Cristo como uma extensão de seus egos e que manipula a comunidade para satisfazer as próprias necessidades. Cansei de sermões que contêm mais regras e moralismo do que a liberdade do amor divino e nos quais os relacionamentos ficam em segundo plano perante as demandas da instituição” (pag. 202).

O Cristo que se deve seguir é o Cristo que está no centro da vida das pessoas. É o Cristo que está no centro das atenções das pessoas, que são tão autenticas e se sentem livres para questionar, para duvidar, para discordar somente para continuam a viver a voz do Senhor sem serem acusados de serem rebeldes ou separatistas. O Cristo que se deve seguir é aquele que nos dá a liberdade e o poder de confiar na Sua capacidade de cuidar de nós diariamente.

O Cristo que se deve seguir é o Cristo que não fica preso em regras e modelos moralismos um tanto duvidosos, mas é um Cristo que se manifesta no próximo, na vida dos companheiros com quem partilhamos livremente a vida, seja numa rua, ou num ambiente de trabalho ou de escola.

O Cristo que se deve seguir é o Cristo da comunhão entre as pessoas. Cristo pode estar na manifestação de um relacionamento com um vizinho, um parente, um amigo. E é isto que é ser Igreja, e não uma organização institucional. O Corpo de Cristo é feito – ou deveria ser feito – de pessoas que se relacionam, e não de paredes e de uma hierarquia de lideres de sistemas.

Cristo anda longe do ‘jogo das igrejas’. Cristo anda longe de lugares onde os que ali participam “são meros assistentes passivos colocados a uma distancia segura do chamado líder”.

O que falar dos líderes? Seria cômico se não fosse trágico! Eu já fui um líder dentro do sistema institucional da igreja. Segundo o livro – e eu sou uma prova vivinha disso – são estes, as maiores vítimas do sistema.

“No que fim, todo o sistema humano desumaniza as pessoas a quem procura servir, e a maioria dessas pessoas que o sistema desumaniza são as que pensam que o lideram”.

(...)

“As pessoas que tratam os lideres como se eles possuíssem uma unção especial são as que correm mais riscos de serem enganadas por eles. Parece que as pessoas que são investidas de maior autoridade se esquecem de dizer não aos próprios apetites e desejos. Os lideres acabam muitas vezes servindo a si mesmos, achando que estão servindo aos outros só pelo fato de manterem uma instituição funcionando”.

Suavizam os autores:

“Porém nem todos os que fazem isso se tornam tão fracos. Muitos são servidores autênticos que, apesar de só desejarem ajudar os demais, foram levados a crer que esse é o melhor modo de fazê-lo. O erro do sistema deve sempre ser separado dos corações das pessoas que pertencem a ele (o sistema)” (pag. 111).

É por isto que sou um bom neto, e agora, um bom filho. Brincadeiras à parte, a verdade é que não é fácil viver da mesma forma depois que “um novo amigo João” passa na vida da gente. Na minha, ele teve o nome de José Marcelo. Um amigo (que é pastor) que o amo muito, e que me fez vivenciar e entender em momentos difíceis, mas essenciais como preparatórios para uma nova perspectiva de vida em Cristo, que viver em Cristo é ter alegria, liberdade e amor, uns pelos outros.

Viver em Cristo é ter relacionamentos. Dizia sempre o meu João:
“pessoas precisam de pessoas”. Como isso hoje soa suave aos meus ouvidos! Viver em Cristo é saber que Cristo está no meu próximo, mesmo que ele seja um estranho. É tudo aquilo que a Igreja primitiva viveu nos seus 300 primeiros anos, até que a instituição "tomou conta" do Corpo de Cristo.

Os autores concluem o livro, com algumas orações – agora no sentido lingüístico da palavra. Quero reproduzi-las para também encerrar esta postagem. Com elas respondo a pergunta título e instigo a sua leitura do livro.

“A maior parte das pessoas que encontro e com quem falo, porém, não está fora do sistema por ter perdido a paixão por Jesus ou por Seu povo, e sim porque as congregações tradicionais mais próximas não foram capazes de lhes satisfazer a fome de relacionamento. Estão em busca de expressões autênticas de vida em comunidade e pagam um preço altíssimo por isso. Pode acreditar em mim: todos nós acharíamos mais fácil nos deixar levar pela maré, mas, depois de experimentarmos a comunhão viva entre fieis fervorosos, é impossível nos conformarmos com menos” (pag. 203 e 204).

“Sei que incomoda certas pessoas o fato de eu não tomar meu assento num banco da igreja todo domingo de manhã, mas posso lhe garantir, com absoluta certeza, que meus piores momentos fora da religião institucional são, ainda assim, melhores do que meus melhores dias dentro dela (...) Hoje não precisamos mais ficar falando sobre a Igreja. Precisamos é de gente preparada para viver a realidade dela” (pagina 205).

Viver a realidade dela é viver relacionamentos.

Que tal voltar à Igreja? Veja Cristo em cada pessoa com quem você se relacionar e seja alegre e liberto para viver o amor do Deus Pai.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

UM SOCO NO ESTÔMAGO


Um soco no estômago. É isso que acabei de tomar. Explico-me! Há poucos minutos acabou de passar, na Rede Globo de Televisão, o filme brasileiro “Ultima Parada 174”, do cineastra Bruno Barreto. É a arte representando a história real de um jovem chamado “Sandro” que paralisou o Brasil há alguns anos atrás com o seqüestro de ônibus da linha 174, na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de antigo (de 2008), somente hoje tive a oportunidade de assistir a obra. E que puta obra! O foco do filme foi contar a história de vida daquele protagonista do episódio. Uma criança que tem a sua mãe morta para sustento do tráfico, o abandono do restante da família, a vida nas ruas e envolvimento com as drogas e a prostituição, o amadurecimento na rede do tráfico e seu fim trágico. Episódio este que culminou na morte de uma das seqüestradas – na época foi divulgado que se tratava de uma professora –, e da morte do seqüestrador, aliás, muito mal explicada, dentro da viatura.

“Ultima Parada 174” me doeu no estômago. Justamente na hora em que estava jantando minha batata doce que tanto queria comer o dia inteiro! Foi-se totalmente o saber do doce e vieram as indagações sobre o contexto em que vivemos com o paladar da amargura que senti.

Como pode no Brasil haver tanta desgraça? Quantas políticas públicas sociais são inoperantes? Quantos Sandro’s estão morrendo hodiernamente frutos de histórias de vidas desgraçadas, no sentido literal da palavra?

Me dói muito ver que a política de urbanização no Brasil é uma merda. As favelas são o foco dos traficantes e muitos que ali estão acabam como fruto de seus contextos. São Sandros que não tem apoio de uma atuação política forte que combata de fato a violência e as drogas.


Me dói muito ver que a política de igualdade racial no Brasil ainda é um conto da carochinha. É como tampar os olhos com a penheira para não constatar que a maioria da população que vive na miséria brasileira não é negra! Que igualdade e liberdade existem, meu Deus, nessa terra onde os negros deixaram de ser escravos de colonos para serem escravos do tráfico e da violência? Até que ponto vão se preocupar somente com ações afirmativas com cotas para negros em universidades, se a maioria deles não sai nem do ensino primário, isto quando a vida consegue chegar lá?

Me dói muito ver que a política de amparo à pessoa em situação de rua neste Brasil é uma vergonha! Que as ONGs tentam e não estão preparadas para fazer o que é papel do Estado. E a cena em que a voluntaria chega na Candelária para fornecer um sopão e leva consigo uma emissora de televisão? E depois da chacina levar uma turma de meninos para onde? Dentro de uma favela, numa boca de fumo! E pra piorar a situação, produzir um material para divulgar o serviço? E o Estado? Inoperante em berço esplêndido!

Me dói muito ver que milhares de crianças estão nas ruas jogadas à pedagogia mais pragmática que existe: a do mundo das drogas e do tráfico. Que muitas destas crianças são vitimas da violência. Que muitos Sandros estão neste meio porque viram suas famílias se desmoronarem depois da brutalidade do crime! Que os programas de amparo a infância e a adolescência são balelas jurídicas.

Me dói muito ver que mulheres vendem seus corpos porque não tem outra alternativa ou não processaram mentalmente que podem deixar de fazer o que faziam quando moravam nas ruas, para ter em troca o dinheiro com que sustentavam seus vícios. E que essas mulheres são também, em sua maioria, mulheres negras! Até quando o imaginário de que mulher só presta “pro que se faz deitado” irá continuar nesse Brasil? Falta muito ainda para a política da mulher ser, de fato, concretizada nos ideais dos movimentos feministas.

Me dói muito ver que o papel das instituições religiosas está muito longe de ser o que deveria ser. Que os pastores querem, no fundo, no fundo, os dízimos de seus seguidores, pra aumentar seus barraquinhos. Ultimamente o barraquinho pode ser eufemismo: um carro 0 km, empresas, mansões, viagens, jóias, redes de televisão, etc. E o Cristo que dizem carregar é inoperante diante da força do tráfico e da violência enraizada.

Me dói muito ver que as instituições de recolhimento como a FEBEM tem em suas paredes “aqui se constrói o conhecimento da cidadania”, mas na prática se constrói o amadurecimento do pensamento do tráfico e da vida nas drogas. E que aquilo é uma barbaridade administrativa. É a colônia de férias das prisões. Que não chega ao seu objetivo: dar cidadania a alguém!

Me dói muito ver que estamos inseguros nas ruas. Que as políticas de segurança públicas fazem o mesmo que os líderes religiosos: vendem ilusões de prosperidade. Enquanto estes vendem a idéia aos seus alienados mentalmente de um futuro melhor por meio da “fé irracional” no que dizem visando, na realidade, seus suados míseros salários mínimos, aqueles vendem a ilusão da segurança. Segurança, no linguajar do filme: o cacete! A professora seqüestrada dentro do ônibus, coitada, foi vítima da inoperância da polícia. Os policiais que deviam ter morrido pra aprender a trabalhar direito. Onde já se viu o que fizeram? E pra piorar a situação: matam o seqüestrador a caminho da delegacia. Cadê a porra dos Direitos Humanos?

Mas sabe de uma coisa? A professora tinha que morrer mesmo! Quem disse que vida de professora vale a pena nesse Brasil? Se traficantes que matam mães de Sandros existem por aí para sustentar seus vícios, se Sandros crescem sem estrutura familiar e conceitos básicos, se pastores vendem a “alma pro diabo” em busca do seu dizimo de cada dia, se meninas negras (e brancas em menor quantidade também) se transformam em mulheres do prazer, se policiais se matam nas academias e atrofiam os cérebros para passarem nos concursos   visando somente seus excelentes salários como os são ultimamente, é porque a educação, é talvez, a pior desgraça de todas essas. Tudo o que o filme retratou representa um modelo de educação ultrapassada, colonial, retrógrada, que ainda existe neste Brasil. Uma educação que não acompanha seu tempo e seus temas, suas desgraças, percalços.

Que dor no estômago sinto que atormenta até meu cérebro, a ponto de vomitar tudo isto aqui já as 01:20 da madrugada. Dor por saber que ainda estamos muito longes de efetivar as políticas sociais nessa terra brasileira. Dói por saber que os políticos não entendem (ou pouco se importam com isso) que todas as desgraças que acontecem são frutos da má política social.

É vital pra continuidade da espécie humana que se pare tudo e dê prioridade à isto. Não dá mais pra se ter política pra sustentar burgueses engravatados e as engomadas em seus escritórios ministeriais. E que estes fiquem espertos, porque podem também ser vítimas deste sistema inacreditável, como foi, numa cena do filme, a assaltada no trânsito pelo seqüestrador Sandro, e pagarem com suas próprias vidas. Talvez aí alguém resolvam fazer algo.

Sandros mil estão sendo vítimas de si mesmos, de suas historias de vida. Transformam-se em Alessandros e morrem com o nome de “filhos de puta” conclamados pela sociedade após o impacto da mídia globalizada que tudo vê e nada faz pra mudar, se não contribui com a pobreza intelectual com os "BBBs" das vidas. Esquecem, os que gritam, que a pobre da ‘puta’, coitada, já tava morta, pelo tráfico!

Precisamos reorganizar nossas idéias para prosseguir fazendo cada um a sua parte nessa complexa e imensurável roda-gigante, onde o sistema do tráfico e da violência reflete a fraqueza das políticas sociais. É hora de repensá-las e de nos repensarmos enquanto passageiros desse ônibus, antes que chegue a nossa ÚLTIMA PARADA 174.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E DEUS RESOLVEU CONVERSAR ...

Foto tirada em Belo Horizonte, no dia 21 de julho de 2010.

A morte, mesmo que anunciada, assusta. Ela tem o poder de parar toda nossa rotina e nos fazer chorar, lembrar de momentos em que fomos felizes e das conversas que dedicamos com alguém que gostamos e que já se foi. Esse mesmo alguém que a morte resolveu vitimar.

A morte é cretina, ordinária. Ela vem com tudo e não há nada que a faça parar. Nem ela e seus efeitos. Continuar a vida depois de sua passagem demanda de tempo e de apoio – dos que ficaram, da fé transcendental e das crenças religiosas sobre o pós-morte, do trabalho para ocupar a mente, e do tempo.

Sua vítima mais próxima de mim foi atingida na ultima quarta. Tia Lora. Para quem não conhece minha historia de vida, não sabe o significado desta tia. Explico. Em 2008 na seqüência de um entendimento de estilo de vida até então vivido, fui para a cidade de Belo Horizonte cursar Teologia. Esse era o contexto em que me via e cursar essa faculdade seria o ápice de uma trajetória. O verbo foi conjugado no tempo certo: seria. Em razão de vários acontecimentos, vi-me desamparado por todos que prometeram apoio. Tia Lora apareceu para mim como um anjo, que mesmo passando por dificuldades físicas em razão de um doloroso tratamento quimioterápico, abriu sua casa e me acolheu literalmente. Vivi o ano de 2008 dependendo quase que exclusivamente dela. Comer, beber, ter um teto, ou seja, o básico me foi dado por ela. Gratuitamente. Generosamente. Não media esforços para que eu passasse por aquele período da minha vida, no meu tempo.

Pensando agora nos fatos, resgatando as memórias de nossas várias conversas, entendo que ela sabia desde o inicio que aquele não seria o meu caminho. Sabia que aquele período seria o período mais crítico da minha vida, porém o mais importante para eu me definir, me posicionar diante das dificuldades e diversidade da vida, me conhecer enquanto ser, humano, profissional, criatura, sexual e religiosamente. Nunca se posicionou claramente a este respeito, assim ensinou-me que algumas coisas não precisam ser ditas, apenas entendidas e respeitadas.

Deu-me outros ensinamentos, conselhos – valiosos e agora saudosos – sobre o bem viver. Sobre o que é ser cristão. Sobre a importância de estarmos bem com o Cristo e não com a instituição religiosa e suas mazelas. Quando esse período se concluiu e entendi que realmente ele fora importante, porém que o certo seria necessariamente recomeçar, agora de forma mais racional e pragmático, Tia Lora foi novamente um anjo. Mesmo tendo sua situação de saúde piorando e já construído em mim um amparo para seu tratamento, em momento algum se posicionou diferente. Novamente se adaptou e seguiu sua vida, agora sem a ‘obrigação’ que escolheu ter de cuidar de mim.

Com Tia Lora pude vivenciar a dificuldade que as pessoas portadoras de doença oncológica passam. Foram dez meses freqüentando quase semanalmente os hospitais Mario Pena e o Luxemburgo na cidade de Belo Horizonte, passando horas e mais horas dentro dos lotados ônibus do transporte público e mais horas e horas de quimioterapia. Presenciei desmaios, dias bons em que ela não aparentava estar doente e dias difíceis, onde a dor já era sentida e ficar deitada e dormindo era o melhor a se fazer. Presenciei a crença durante todo esse tempo no Deus em que cria. Nunca o sentimento de que aquela doença seria penalização por pecados. Alias, para mim, Tia Lora, não tinha pecados, e se o câncer fosse penalização, precisaria reavaliar as características de Deus. Mas prefiro entender que Deus só concede aquilo que suportarmos. E sabe? É verdade. Ela suportou aquela maldita doença até o fim, bravamente.

Vi também o carinho de uma mãe por seus quatro filhos e seus netos. A preocupação em deixá-los amparados após sua partida. A preocupação com o inventário. A preocupação com o bem estar e a saúde de seus filhos, mesmo estes, às vezes – e como é normal – atarefados em seus trabalhos, não podendo estar muito presentes ao seu redor.

Para mim, Tia Lora, representou o que havia de bom durante todo aquele período. Foi o sinônimo de que nas maiores provações, Ele manda anjos para cuidar de nós. Tia Lora foi mais que uma mãe e um pai emprestado, foi um anjo. O quanto cresci, aprendi, evolui durante esse ano em que convivi com ela! Nossas conversas sobre os mais diversos assuntos, sempre com seus conselhos, de quem já tinha vivido o bastante para saber aconselhar o melhor para mim, sempre me acompanharão. Sua demonstração de afeto mesmo calada e sem contatos físicos me fez ver que se pode amar sem ser pegajoso. Sua força de vontade de viver, atravessando de cabeça erguida e corajosamente, todo seu tratamento quimioterápico, lutando contra a morte até o ultimo momento. São ensinamentos que ficam neste momento.

Hoje, quase dois anos depois desse período doloroso em que vivi, onde sonhos foram exterminados pela crueldade da realidade encontrada, onde paradigmas religiosos me foram furtados pelo o que há de mais podre atrás das cortinas das organizações religiosas, onde a necessidade de se conhecer e se definir enquanto às crenças e orientações se fez e se realizou, posso olhar para trás e ver que evolui. Fez-me bem. Porém não posso e não devo nunca, em momento algum, esquecer do maior ensinamento que tive: o amor, o apoio, nos maiores momentos de dificuldades em que passamos na vida, vem de onde menos esperávamos. Vem dos anjos. Hoje eu sei. Vivenciei. Anjos existem. Tia Lora foi um deles. Pena que Deus gostou tanto das conversas que ouviu e dos conselhos de sua criatura que resolveu chamá-la para conversar. Tia Lora essa hora, descansada das dores terminais, está com certeza com o Pai. Sua missão de ser anjo na vida de todos que com ela conviveu se concretizou.

Ficam os ensinamentos, os conselhos, as reflexões a se fazer sobre o que é importante, e principalmente, o exemplo de vida, e a certeza de que ganhei um anjo, agora do outro lado da vida. Descanse em paz, Tia Lora!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DIVAGAÇÕES DE UMA SEXTA-FEIRA 13


Chego agora a mais um final de semana. Cansativo, muito trabalho: muitos processos de concessão de benefícios analisados, atendimentos feitos, reuniões e suas deliberações, ofícios a perder de vista, preparação de aula e organização de cronograma de todas as minhas atividades profissionais até o ultimo dia do ano, ensino sistemático no início de um curso com muita teoria tentando fazer com que meus alunos compreenderam a construção histórica de uma espécie de linguagem e de movimento social, assistir aula do MBA de Administração Pública e de Direito Público sobre Súmula Vinculante, ler vários artigos a respeito. Cruzes. Tô morto.

Aí me deparo com um detalhe, hoje é Sexta-feira 13. E o pior – ou melhor, sei lá – de um mês de agosto, o mês do azar. Aí me lembro das superstições populares: não passar debaixo de escadas, não passar perto de gato-preto. Acho tudo isso muito engraçado. Saber que ainda existem pessoas tão ignorantes, no sentindo de simplicidade, que ainda acreditam nessas lendas e as repassam por gerações, provocando medos e práticas no ambiente em que vivem que mais parecem com as estórias de novelas.

Na verdade essa data me fez pensar sobre o que tenho medo, de verdade. Não medos de superstições, até porque não as tenho. Medo em relação à vida e as coisas que podem acontecer, tenho alguns:

1. Da forma da morte: Não temo a morte. Acho, aliás, que deve ser uma experiência sensacional morrer. Poder ter certeza absoluta – e prática – de que o que se crer é verdade por ter acontecido ou não, caso chegando do lado de lá, as coisas sejam totalmente diferentes do que se acreditou por aqui. Mas alguns tipos de morte me assustam, como as provocadas por doenças fatais, aquelas que deixam a pessoa na cama. Assassinato, estrangulamento, queimado, afogado. Não gostaria de morrer assim. Aliás, se eu puder escolher, queria morrer dormindo. Deitar e não mais acordar, pegando a todos de surpresa e sem ter passado por sofrimento.

2. Da morte de pessoas da minha família: Até hoje apenas uma pessoa mais próxima a mim já morreu. Era meu avô materno. Via-o todo o santo domingo, e o não santo também. A sensação foi horrível. Hoje, após quase três anos, a dor da ausência já se atenuou e ficaram na memória todos bons momentos vividos e os ensinamentos aprendidos, mesmo que alguns, hoje, não vividos. Mas saber que pessoas que eu amo de uma forma especial podem, a qualquer momento, vir a morrer, me traz medo. O medo do incerto, do que isso provocará, da força da ausência dessas pessoas. Por isso concordo com o artista que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, realmente não há.

3. Da insensibilidade com a dor do próximo: Tenho medo de um dia parar e me ver insensível. De perceber que o sofrimento alheio já não me incomoda, já não me tira o chão, me deprime, como faz hoje. Sei que ando a cada dia me posicionando racionalmente. Tenho me visto às vezes muito técnico, muito profissional, muito neutro. Não quero perder a sensibilidade, a coragem de chorar quando algo me trouxer essa vontade, seja por sofrimento próprio ou alheio. Quem me conhece sabe que sou muito intenso em tudo que faço. Não sei ser meio sentimental. Acredito sempre no que faço, nas pessoas que decido amar, e sofro por isso. Encontrar o equilíbrio sem perder essa sensibilidade é meu ideal.

4. De ter passado pela vida das pessoas com as quais convivi e não ter feito diferença: Acho sinceramente que não transitamos a esmo nas vidas das pessoas. Todos podemos, mesmo que seja de forma pequena, deixar algo de bom no coração das pessoas. Saber que pude ser um bom ouvinte, um bom conselheiro, amigo para rir ou chorar, para amar, acarinhar, para ensinar, para aprender. Não estamos sozinhos na vida. Apesar de ser em muitos momentos racional, não consigo imaginar a existência humana levada ao acaso. Há algo muito maior, que no tempo certo, entenderemos.

5. De ser mal educado, grosso, estúpido com as pessoas: Isso realmente me preocupa. Não sei ser mal educado, prefiro sofrer a ponto de explodir por dentro, mas não consigo explodir com as pessoas, mesmo que eu tenha todos os motivos para tal. Quando criança, aprendi isto com meus pais e é algo que quero levar pro resto da vida. Mas isso não significa que eu goste ou aceite ser mal tratado pelas pessoas. Saber se posicionar quando isso acontece, principalmente utilizando-se da boa educação como prova de que podemos ser superiores é uma arte, que tento sempre exercitá-la.

6. De perder a alegria de viver: Alguns momentos da minha vida com seus 25 anos não foram fáceis. Acho que já passei por poucas e boas. Não me vitimizo e nem gosto que me vejam assim. Mas em todos eles - ou quase todos - não perdi a vontade de viver. Eu acredito que todos têm o direito de viver e também o direito de morrer, quando a vida já não tem sentido. Viver com vontade de morrer não deve valer a pena. Só de pensar nisso, me provoca muito medo.

7. De viver a velhice infeliz: Não quero sofrer na velhice. Aliás, nem muito velho quero ficar. Acho que 70 anos são ideais. Meu medo de depender totalmente das pessoas, de medicamentos, de instituições de longa permanência, de perder a memória, não reconhecer as pessoas. Isso me dá muito medo.

Fora estes, existem outros, como violência, de governos ditatoriais, da pobreza, desemprego, invalidez, falta de saúde, etc. Nessa data em especial escada pra mim pouco importante, gato preto se chegar perto eu pego, abraço e se bobear, adoto. Mas como lendas são importantes, nem que seja pra divertir, viva a sexta-feira 13 do mês de agosto, sem medos.

Pra encerrar a semana de forma divertida e essa postagem mais sombria ainda fique com Zé Ramalho e seu sucesso Mistérios de Meia-Noite.

sábado, 29 de maio de 2010

O QUE É IMPORTANTE PARA VOCÊ?

Acho que depois que passamos por algumas experiências em nossas vidas, algumas coisas ficam mais claras para nós, principalmente no que diz respeito à importância que possuem em nossa vida. O que é passa-tempo deixa de ocupar muitas vezes o espaço do que é importante. O importante se sobressai em nossa mente em detrimento do que é realmente meramente passa-tempo. Algumas coisas são deixadas ao escanteio, outras totalmente abandonadas ou extinguidas. O importante é que após algumas experiências já não dá mais para viver como num conto de fadas, no fantástico mundo do Bob, achando que tudo é importante, que tudo vale à pena, que tudo tem seu momento e o importante é viver o aqui, agora, independentemente de valores sociais e das pessoas que cruzam nossa vida, de dogmas, de conceitos, de opiniões alheias, etc.

Conversando esses dias com uma pessoa que gosto muito, sobre a importância das pessoas, das experiências e das coisas em nossas vidas, pude clarear, acho que mais pra mim do que para a pessoa com a qual conversava, realmente isto. Nem tudo vale à pena. Nem todos os amores são arrasados, devassaladores como vemos nas telas e desejamos experimentar. Aliás, a experiência bem sucedida do próximo não deve sempre servir de parâmetro para nós. Cada um tem jeito de ver as coisas, suas fases na vida, sua própria historia e trajetória de vida.

Pude pensar em algumas coisas que realmente são importantes pra mim. A primeira é a paz interior. Não sei conceituar bem o que seria paz interior. Talvez seja o estado de espírito onde você se sinta totalmente bem consigo mesmo, com suas atitudes, seu desenvolvimento como ser humano. Sei que paz interior é melhor do que qualquer prática rotineira, do que qualquer dogma social ou religioso, do que qualquer ensinamento, enfim. Paz interior é poder olhar no espelho e ver no próprio rosto seu passado, construído a partir de acertos e de erros, e que nestes últimos, pôde-se aprender a ser melhor.

Outra coisa importante para mim são as pessoas da minha família. Não todas. Algumas. É utópico falar que amamos todas as pessoas da nossa família. Respeito, gosto, mas a palavra amor referindo à família deve ter uma conotação mais apropriada. Hoje, após algumas experiências, sei da importância da minha família, das pessoas que fazem parte da minha família e que as quais realmente amo. Isso não significa que tenho que viver somente a partir de seus conceitos, com suas práticas. Essas pessoas, com seus ensinamentos, mais acima de tudo com suas práticas me formaram. Muito do que sou aprendi deles, desta forma. Mas a minha vida precisa ser construída a partir dos meus atos, das minhas decisões. E a família continua importante, mas com outra conotação.

Compreendo também como importante estudar e trabalhar. As duas coisas concomitantemente. Pra mim, uma interfere na outra. A prática profissional em excelência precisa do lado teórico, acadêmico, do ato de pensar, de refletir, de apreender. E apreender só se concretiza em sua total amplitude, com a práxis. Dentro deste contexto, já caminhei por várias trilhas: da lingüística e o uso da Libras; do Direito e a ação jurídica propriamente dita; e atualmente da coisa pública e a prática gerencial da mesma. Clareando as coisas tenho percebido uma evolução nos dois campos, entretanto casadas. Acho importante continuar nesse caminho, estudando, aprendendo, atuando, e talvez no futuro ensinando... aprende-se mais ensinando, pois há a reflexão, tanto da teoria como da própria prática. A rotina do trabalho, a oportunidade se crescer pessoalmente a partir de evolução no trabalho é uma das melhores experiências que já vivenciei. Ser reconhecido, em todos os sentidos, por sua atuação profissional é edificante. Isto considero importante. Posso até errar profissionalmente, mas quero evitá-lo o máximo que puder. Trabalhar bem trabalhado, ver concretizar as metas pré-estabelecidas com o decorrer o tempo é sensacional.

Também importante para minha é a música. Somente há pouco tempo tive consciência disto. A música sempre esteve presente em minha vida. Num primeiro e longe estágio, as musicas cristãs, na fase da prática aprofundada de vida cristã. Elas refletiam entendimentos que possuía àquela época, era a externarção do que até então se cria, se vivenciava. Durante algumas experiências elas marcaram também. São tão pragmáticas que basta algum resquício qualquer que remeta a tais experiências que lá estão presente, ressoando meus ouvidos... e a cada nova fase da vida, a música se recicla, continua presente, com novos acordes.

A experiência de se relacionar amorosamente também é importante. Ir de um lado ao outro. Da pura experiência de pele, do beijo prolongado, de um abraço caloroso até o amor entre duas almas, do romantismo, da preocupação com quem se ama, do ciúme, da vontade de estar juntos, de se sentir unidos, dentro um do outro. Essa experiência é talvez a que mais clareie esse fator em minha vida. Quem nunca amou, e nunca foi correspondido, nunca viveu. Hoje sei que isso é verdade, e sei a importância disto na vida, para clarear outros aspectos.

Amigos. Importantíssimos. Amigos são irmãos diferentes dos de sangue. São escolhidos, são os que permitimos invadir nossa vida, saber tudo de nós, nos conhecer como realmente são, e nos amar por isso mesmo, sem exigências. Hoje sei o que é ser amigo e qual a importância de tê-los.

Enfim... várias coisas são importantes na vida, e poderia ficar aqui relatando inúmeras outras como a saúde, bens materiais, etc. Cada uma delas tem sua situação, seu momento, mas todas são essenciais para se viver bem, principalmente, consigo mesmo.

Contudo, acho que mais importante do que saber é o que é importante em nossa vida, é saber viver, com ou sem estas coisas. Fica a lição:
“Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus por ter um teto para morar. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim." (Charles Chaplin)
E pra você, o que é importante para você?

Responde aí, se achar que isso realmente é importante, tanto pra você como pra mim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

PARA LER MICHEL FOUCAULT – FINAL


Obs: Esta postagem encerra o esboço apresentado pelas duas últimas postagens. Sugiro a leitura preliminar destas, para a perfeita compreensão do texto abaixo. Leia a Parte 1 e a Parte 2

A terceira parte deste estudo trata da Genealogia, tendo como referências as produções de Foucault durante os anos de 1970 a 1984. É nesta fase que se apresenta as “polêmicas e os combates” do autor, tendo como finalidade a análise do discurso tido como verdadeiro portador de poder.

As obras ‘Vigiar e Punir’ e ‘História da Sexualidade 1: a vontade de saber’, completam a análise de Vilas Boas sobre o momento genealógico do acervo foucaultino.

1. UMA ECONOMIA POLÍTICA DO CORPO:A obra “Vigiar e Punir” marca a transição da arqueologia para a genealógica de Foucault. É referência dos acontecimentos e experimentos feitos pelo autor a partir de 1968, em relação à psiquiatria, à delinqüência, à escolaridade, etc. É nesta obra que Foucault deixa explícita sua reflexão do entrelaçamento do saber no poder. (pag. 69).

Foucault utiliza-se de um conjunto peremptório afirmando que: onde o poder produz saber; poder e saber estão diretamente implicados; não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber; também não há saber sem que haja ou se constituam, ao mesmo tempo, relações de poder. (pag. 69 e 70).

Nas obras arqueológicas Foucault já problematizou a permeabilidade dos discursos às práticas sociais, apontando para a permutabilidade entre o nível discursivo (o saber – episteme) e o extradiscursivo (as práticas sociais). (pag. 70 e 71).

Na obra “Vigiar e Punir”, o autor trabalha outro eixo: o dispositivo, sendo “um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas (...) Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo ...”. (pag. 71).

Visava tal eixo servir como instrumento para a análise do aparecimento histórico das instituições, entendidas como sistemas de coerção, seja discursiva (enquanto saber), seja extradiscursiva (enquanto aplicação social). É análise de como as instituições, enquanto elementos de um dispositivo, articulam as relações entre a produção do saber e modos de exercício do poder. Para exemplificar, Foucault se serve do exemplo do desvendamento da historia genealógica da prisão, entendida como instituição em torno da qual se ergue todo um regime de verdade, um saber, técnicas, discursos científicos, e o poder de punir, naturalmente. (pag. 72 e 73).

Eleva a análise para o estudo que denominou como “economia política do corpo”, estudando a metamorfose dos métodos punitivos a partir da tecnologia política do corpo onde se poderia ler uma historia comum das relações de poder e das relações de objeto. Nesta história, há um dispositivo chamado de disciplinar. Utilizando-se da ilustração proposital da prisão, Foucault visa o processo que leva o homem a elaborar uma vontade de supliciar, de punir, mas também a uma mitigação das penas bem como ao desenvolvimento de um processo de interiorização do controle disciplinar, da inscrição desse controle no seu próprio corpo. (pag. 73 e 74).

Numa análise sobre o corpo, passa por várias possibilidades de análise, como demográfica, patológicas históricas, como sede de necessidades e apetites, como lugar para processos fisiológicos e biológicos. Entretanto, adentro no campo político e sobre as relações de poder sobre ele. Tal relação de poder o invade, o marca, o dirige, o suplicia, o sujeita a trabalhos, o obriga a cerimônias, exige-lhe sinais. Entende que todo investimento ao corpo visa a sua utilização econômica, entendido como força de produção, sujeitando-o a um sistema de sujeição. Assim, o corpo só se torna força útil se for ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. (pag. 75 e 76).

A analise genealógica incube então à analise da tecnologia do corpo, como um investimento político, onde se é desenvolvida toda uma relação de poder através da apropriação de um saber sobre o corpo. Neste contexto, a alma deve ser vigiada, treinada e corrigida, controlada durante toda a sua existência. Não se considera a alma como efeito e instrumento de uma anatomia política, como prisão do corpo. Assim como o conceito teológico cristão, a alma já nasce faltosa e é merecedora de castigo, esquecendo-se que ela nasce antes de procedimentos de punição, de vigilância, de castigo e coação (pag. 77).

Prossegue Foucault afirmando que a genealogia do poder se inscreve fora da tradição da ciência política e mesmo da filosofia política, que tomam o poder como função coercitiva do Estado. Ele – o modo de exercer o poder – se estende por sobre toda a sociedade, assume formas institucionais e mesmo corporais concretas de técnicas de dominação. Esse poder atravessa corpo, estruturando-se como meio e o fim, de forma minuciosa, alcançando os gestos, as atitudes, os comportamentos, modos de falar, de estar, de ser. (pag. 78).

A análise do autor permite a compreensão do fato político de o Estado não ser o único lugar que promana o poder, ele nem mesmo é a fonte do poder. Não está em nenhum lugar especifico da estrutura social, mas se nessa rede de dispositivos de que ninguém escapa. Assim, o poder não é algo que alguém detém, não é uma propriedade. O poder se exerce, assim, o poder não existe, o que existe são práticas ou relações de poder. (pag. 79).

O poder se dá como uma estratégia, que seus efeitos não são atribuídos a apropriação, mas a disposições, à manobras, táticas, técnicas, a funcionamentos; que se desvende numa rede de relações sempre tensas, sempre em atividade, e tais relações aprofundam-se dentro da sociedade, não se localizando nas relações do Estado com os cidadãos ou na fronteira de classes. Foucault não associa poder meramente como forma de repressão. Para ele, há poder negativo (que exclui, reprime, recalca, censura, abstrai, mascara, esconde) e poder positivo (que produz, produz realidade e campos de objetos e rituais da verdade). (pag. 80 e 81).

No ponto de vista de Foucault, o poder, para ser eficaz deve produzir uma positividade, de tal modo que o incremento da vida social tem, como preço, o adestramento do corpo, a disciplina do corpo. A disciplina do corpo fabrica corpos submissos e exercitados, corpos dóceis, ela aumenta as forças de utilidade de corpo e ao mesmo tempo diminuição sobre forças em termos políticos de obediência. (pag. 82 e 83).


Assim, a genealogia preocupa-se com a causalidade, valorizando antes a categoria de acontecimento, a proveniência e a emergência dos acontecimentos, relativizando o saber, visto que se autocompreende como um olhar que sabe tanto de onde olha, quanto ao que olha. Assim, com “Vigiar e Punir” Foucault operacionaliza duas operações teórico-práticas: a) analise das práticas sociais e dos saberes por elas instituídas e pela própria constituição do sujeito do conhecimento; b) a utilidade de um discurso enquanto força coercitiva, sendo as ciências humanas tal força, para adestrar e disciplinar o corpo, transformando-o submisso (pag. 84 e 85).

“Vigiar e Punir” representa a tentativa de analisar a proveniência e a emergência de dois acontecimentos: o saber e o poder. O saber representado pelas ciências humanas e o poder pelas relações históricas consideradas ao nível macro e microfísico. Uma tentativa de compreender o investimento político do corpo, num campo político – o corpo como acontecimento, propondo assim uma analise da economia política do corpo. (pag.86).


2. SEXO, CONFISSAO E INDIVIDUALIZAÇÃO:



Antes de entender a problemática central do livro “A História da Sexualidade 1 – A vontade de saber” é necessário o entendimento de dispositivo, conceito segundo Foucault, que se refere a “um conjunto de elementos que abarcam desde discursos a instituições, organizações arquitetônicas, leis, enunciados científicos, etc, cuja função estratégica ou política, é ser o elemento imprescindível para a manutenção de uma forma de dominação”. (pag. 87)

Na obra citada acima a sexualidade é o dispositivo analisado, entendido como forma de poder das sociedades ocidentais, enfocando o sexo enquanto núcleo onde se aloja a verdade dos sujeitos humanos e da espécie. Para tanto, é necessário a superação da representação da sexualidade, que consiste na associação com repressão, processo linear e irreversível da sexualidade ocidental. (pag. 88)

Foucault critica a hipótese repressiva da sexualidade, apresentando três hipóteses que procuram fazer com os discursos serem considerados como verdades, causando efeitos. A primeira hipótese é a associação da repressão sexual com o advento do capitalismo: o adestrado do corpo para focar a capacidade da força viva do corpo para o trabalho. A hipótese segunda é que a repressão sexual é um dos elementos fortes do processo de dominação social, onde o discurso que invista contra tal repressão é considerado transgressão, que procura a libertação e resistência à dominação. Já a terceira hipótese, é que a analise da sexualidade fora da repressão é considerado pelo conceito de poder do discurso da repressão como ‘mentira’, assim, contrariar tal discurso, na realidade, significa fazer esse objeto considerado negativo falar a verdade sobre o sexo. (pags. 89 a 91).

Não obstante, para Foucault, a repressão sexual é positiva. A repressão e a crítica a tal repressão na realidade faz com que as relações de poder se desestabilizem. A positividade da repressão se justifica porque a ação sobre o corpo do individuo faz com que o se evite a percepção do poder em sua forma crua de violência e cinismo. Ao mascarar esse poder cria-se um espaço de aceitação do poder do sexo na medida em que se apresentam como puro limite traçado à liberdade sexual. (pag. 92)

Assim, Foucault acaba por mostrar que ao invés da repressão, houve a partir do século XVIII uma explosão de discursos em torno do sexo, com diferentes posturas e engrenou, conseqüentemente, saberes e novas tecnologias do poder, o bio-poder, ou seja, a tecnologia que toma o corpo como objeto de manipulação e a espécie humana como uma forma da vida biológica que deve ser compreendida a partir de sua finalidade política. (pag. 92 e 93).

A partir do análise do corpo, a espécie humana passa a ser analisada como população. Visa a compreensão do mesmo, até mesmo com necessidades de vitalidade do sistema capitalista. O sexo, portanto, torna-se o problema fundamental, porque nele estão envolvidas as questões relativas aos processos de administração da população em geral, que constituem saberes científicos, exortações religiosas, enunciados jurídicos e tantos outros discursos que visam controlar até mesmo os pequenos atentados contra a moral, as pequenas perversões sem importância, nas palavras de Foucault. (pag. 93 e 94).

Assim, a sexualidade “seria a rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas estratégicas de saber e de poder”. (pag. 94).

O dispositivo da sexualidade tem sua razão de ser: fazer o sexo conhecido. Encontrado em todas as sociedades, tem como funções o casamento, relações de parentesco, transmissão de bens entre gerações, lugares onde são definidos o licito e o ilícito em torna da atividade sexual. Na sociedade sexual, ele encontrou seu lugar na instituição em essência: a família, que, a partir do século XVIII, pacificou e domesticou o sexo. Neste sentido, a família é o lugar obrigatório de amor, de afetos, e neste mesmo envolvimento, surge a figura do incesto, com teor negativo, como regulador do certo e do errado. (pag. 95 e 96).

O discurso sobre a sexualidade surge no momento em que a burguesia descobre seu corpo nu, e o considera coisa importante, frágil, sobre o qual é necessário produzir um conhecimento. É o corpo mesmo corpo que padece de um desejo e de uma privação. À família compete a vigilância contínua, que fornece a expressão do sexo lícito, que controla a sexualidade de seus membros. Ao mesmo tempo em que funda uma concepção do sexo a contrapõe à devassidão, e à imoralidade, que no seu ponto de vista, se encontra no Outro, nas classes subalternas, criando uma repressão de classes, entre os burgueses de famílias e a classe suja, proletária, doente. (pag. 97).

Para o autor, a psicanálise é a potência máxima da vontade de saber do sexo a partir das praticas e dos discursos da verdade do sexo. A vontade de saber do sexo é uma experiência que não se consegue fugir, ela se funda na alma. A vontade é a expressão de uma violência sublimada, que o autor chama de confissão. (pag. 98).

A confissão é um procedimento de extorsão da verdade do individuo; mecanismo presente entre as pessoas desde o nascedouro da civilização cristã. A confissão se torna uma técnica, que inicialmente se ateve apenas no campo religioso, e que visava controlar e disciplinar, em escala ascendente, os corpos das populações, que transbordou paulatinamente do campo religioso para o campo secular e se torna como que natural, fazendo com que não se ache estranho confessar.

Assim, a possibilidade de manifestar um modo de exercício do poder, nem necessitar de um sujeito coator externo, estabelecendo em si mesmo um processo de individualização. A confissão, desta forma, é um procedimento que leva o sujeito a reconhecer em si mesmo sua verdade, como individuo virtuoso ou faltoso, inocente ou pecador, normal ou anormal. Ela induz o individuo a autocorrigir-se, impondo-lhe uma mudança de atitude; ela o induz à culpabilização e, após, à purgação da culpa como destinação inelutável, razão pela qual a confissão é um instrumento de individualização. (pag. 99 e 100).

O dispositivo da sexualidade tem na confissão um elemento onde o sujeito que fala coincidirá sempre com o sujeito para quem se fala: para si mesmo, sua consciência. Segundo Foucault, “o individuo, durante muito tempo foi autenticado pela referência dos outros e pela manifestação de seu vinculo com outrem; posteriormente, passou a ser autenticado pelo discurso de verdade que era capaz de (ou obrigado a) ter sobre si mesmo”. (pag. 100).

Após combater a hipótese repressiva e de demonstrar o mecanismo pelo qual o dispositivo da sexualidade atua, e após definir que a individualização do sujeito reside nesse mecanismo de extorsão e produção de verdade do eu, chamado confissão, Foucault em uma passagem se demonstra utópico, ao afirmar: “Devemos pensar que um dia, talvez numa outra economia dos corpos e dos prazeres, já não se compreenderá muito bem de que maneira os ardis da sexualidade e do poder que sustem seu dispositivo conseguiram submeter-nos a essa austera monarquia do sexo, a ponto de votar-nos à tarefa infinita de forçar seu segredo e de extorquir a essa sombra as confissões mais verdadeiras”. (pag. 101).

No livro “O uso dos prazeres” o autor trabalha que a vontade de saber do sexo não ocorre totalmente, sempre há nas estruturas existentes esse desejo. Encerrando esta obra, Foucault conclui que a descoberta sobre a verdade do sexo passa pela liberdade, pela subjetividade, pela individualidade. (pag. 102 e 103), afirmando:

“Sem dúvida, o objetivo principal hoje não é de descobrir, mas de recusar o que somos (...) Poder-se-ia dizer, para concluir, que o problema ao mesmo tempo político, ético, social e filosófico, que se coloca para nós hoje não é liberar o Estado e suas instituições, mas liberar a nós mesmos do Estado e das instituições que a ele se prendem. É preciso promover novas formas de subjetividades, recusando o tipo de individualidade que nos impuseram durante muitos séculos”.

COMO CITAR ESTE ARTIGO:


NOVAES, Edmarcius Carvalho. "Para ler Michel Foucault - Final". Disponível em http://www.edmarciuscarvalho.blogspot.com/ em 23 de abril de 2010.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

PARA LER MICHEL FOUCAULT – PARTE 2


Obs: Recomendo a leitura da primeira parte deste estudo antes de prosseguir a leitura abaixo.
O momento de análise da arqueologia (onde o homem é o objeto de estudo das ciências envolvidas) começa com a análise da obra “História da loucura na idade clássica” (1961). Ao contrário do que muitos pensam, tal livro não é sobre a história da constituição de uma ciência – a psiquiatria – apesar de conter uma analise de seu nascimento e uma descrição minuciosa e erudita da construção do discurso medido sobre a loucura como doença mental. (pág. 18).

As obras “As palavras e as coisas” (1966) e “A arqueologia do saber” (1969) completam a análise de Vilas Boas sobre o momento arqueológico do acervo foucaultino.


1. A LOUCURA COMO ODISSÉIA DA RAZÃO


A obra “História da loucura na idade clássica” está centrada no período chamado de “Idade Clássica”, compreendido por Foucault como o período entre o fim do Renascimento (final do século XVI e inicio do século XVII) e a Revolução Burguesa (século XVIII), sendo o período de transição para o capitalismo em seu país: França. Para tanto, compara a Idade Clássica com a Idade Média (onde percebia certa liberdade em relação à experiência da loucura, que fora com o tempo sendo solapada com a percepção de louco como demência, sendo necessário recorre à psiquiatria) e procura analisar na modernidade como é vista a loucura, quando então se constitui na ciência psiquiátrica. (pag. 19).

Interessa, entretanto, Foucault não analisar somente a constituição histórica da ciência psiquiátrica, mas sim indicar os mecanismos de ‘patologização’ do louco, os mecanismos de constituição de um saber científico. Historicamente saber o que torna o saber científico da psiquiatria como um discurso normativo, portanto, verdadeiro.

Para o autor, o saber sobre a loucura é extraído do discurso psiquiátrico, de seu lugar de existência – as instituições de controle do louco (família, igreja, justiça, hospital, etc) –, os saberes a elas relacionados e as estruturas econômicas e culturais da época. É aqui se constitui para Foucault, a episteme da época (pág. 20).

Há uma distinção: o conhecimento – saber científico, no caso, psiquiátrico – que é a elaboração teórica sobre um objeto, segundo uma lógica própria, peculiar, e a percepção como diversos modos de agir ao visualizar a loucura, o que depende das instituições sociais e do reconhecimento que estas empreendem sobre os indivíduos como sujeitos sociais, sendo desta forma o conhecimento cientifico posterior as diversas formas de percepção da loucura, e este é apenas uma forma de operar esta percepção. (pag. 21)

Assim, ao elaborar a historia da percepção da loucura, Foucault indica os vínculos não muito nobres do conhecimento psiquiátrico, desvelando o caráter obscuro de certo discurso da verdade da loucura, que deseja ser cientifico, para conduzir os homens, através de mecanismos de repressão, ao domínio da razão.

A razão, como visão do mundo que a tudo organiza e a todos controla, determina o motivo de deslocamento que tornou os anti-sociais (os ociosos, os libertinos, os parias, os loucos), objetos de práticas de segregação. O louco foi aprisionado, retirado do convívio social e domesticado porque representou, aos olhos de uma certa percepção, como a encarnação do mal, que extrai do homem sua natureza, a racionalidade. Assim, o louco é aquele que ameaça os qualificativos da razão. (pag. 22 e 23).

A polêmica entorno de Foucault talvez resida no fato de que para ele a loucura pode constituir-se um modo de ser do homem, uma das formas pelas quais o homem pode experimentar a vertigem de ser livro no mundo, o que, para alguns faz de Foucault um irracionalista, o que é rebatido em suas obras do segundo momento – genealogia – onde procura estabelecer uma razão critica, iluminista, que desmascara o predomínio da razão cínica, degradada, cuja função é servir ao poder e domesticar os saberes. (pag. 23 e 24).

A loucura, então, diante da razão, é considerada como desrazão, e essa como monstruosidade (na idade clássica) ou doença mental (modernidade), tendo-se então que é produzida pela razão, em sua normatividade, através de enunciados discursivos, sendo tudo o que não corresponde à imagem que a razão tem de si mesma. A medicalização representa um momento sutil de privação da experiência da loucura, na medida em que o conceito de doença mental permite a constituição de um sujeito juridicamente incapaz, inofensivo ou perigoso. O papel humanizador é a domesticação na modernidade, com caráter educativo, com vistas a levar o louco de novo ao bom senso da verdade e da moral, defendidas por Phillipe Pinel e William Tuke, pais da psiquiatria. Assim, Foucault desmascara o movimento que tornou possível um conhecimento hegemônico sobre a loucura que faz com que no mundo contemporâneo, a loucura não se possa se pensada sem acompanhamento da medicina e seu discurso da verdade (pag. 25 a 28).

Entretanto, pode-se concluir que para Foucault a loucura continua sendo experiência humana, inexprimível, originária, que escapa de todas as tentativas de classificação, todas as epistemes da cada época, como no Renascimento e sua associação a ilusão, a Idade Clássica associando-a como erro e maldição, e mesmo na Modernidade, que, por intermédio das ciências do homem, transforma a experiência da loucura em doença mental e alienação. (pag. 29 e 30).

2. A DEPOSIÇÃO DO HOMEM:


Para compreender e avaliar o pensamento de Foucault é necessário que se compreenda que suas idéias estão vinculadas a um conjunto de pensamentos possíveis de uma época, fato designado como episteme, sendo esta a que torna possível a individualidade a que se dá o nome de autor. Para o autor em tela, sua formação passa pelas idéias de Nietzsche e Heidegger.

Em “As Palavras e as Coisas – Uma arqueologia das Ciências Humanas”, Foucault está primordialmente interessado em dar resposta a indagação clássica da filosofia sobre “que é o homem?”, tendo como razão a indagação sobre a finitude humana e as possibilidades de o homem encontrar, nessas existência finita, os alicerces de todo saber (pag. 31 a 34).

Nesta obra se indicam as razões pelas quais certas respostas são fornecidas para, logo a seguir, desaparecem. Para ele, estas respostas são constitutivos de uma episteme, o campo no qual, em um determinado momento, instituíram-se os a priori históricos, as condições de possibilidade de determinados discursos ou saberes e os princípios de ordenação dos saberes, não sendo, segundo Foucault, tais epistemes a mesma em todas as épocas, e nem tampouco, o produto de suas transformações progressivas, mas sim uma estrutura, uma sistema localizado em um tempo, que se realiza nele, que se constitui nele.

Em “As Palavras e as Coisas” Foucault se empenha em demonstrar a episteme dos princípios períodos já assinalados: o fim do Renascimento, a ‘Idade Clássica’ e o limiar da Modernidade, agora pensada como um período situado na virada do século XVIII e XIX, procurar demonstrar como cada época se representa ao nível de sua estrutura. Os indícios mais latentes das diferenças entre uma época e outra, Foucault encontra na relação entre as palavras e as coisas, isto é, naquilo que se manifesta no âmbito da empiria e das suas enunciações ao nível de linguagem. Assim, procura explicar as razões subjacentes ao processo de agrupamento de certos enunciados em unidades, o processo que transforma tais enunciados em uma formação discursiva, e como o princípio de ordenação e unificação da esfera lida e abarca zonas discursivas obscuras (alquimia, magia, filosofias obscuras que foram retiradas para os lugares do não-ciência). (pag. 38 a 40).

Conclui-se que Foucault demonstrou que cada período da cultura tem seu a priori histórico, sobre o qual se ergue todo um conjunto de ciências, artes, literaturas, formas de representação que condicionam o pensamento e a atividade dos homens. Ele usa termo episteme para designar o campo particular, o espaço da ordem no qual, em dada época, forma-se tal a priori histórico. Em cada época histórica a episteme é única, e implica a sujeição da totalidade do pensamento possível aquele período de vigência. Uma episteme é essencialmente uma estrutura, sendo, alem disso, um sistema fechado em si mesmo, pelo que não é possível a passagem, em forma de transição, de uma episteme a outra.

Desse modo, os períodos históricos são percebidos pela arqueologia foucaultiana como processos de rupturas que finalizam uma episteme e dá lugar a outra, no âmbito de determinações muitas vezes clandestinas, visto que raramente se tornam explícitas ao nível das consciências dos sujeitos históricos. (pág. 41 e 42).


3. O ELOGIO DO DISCURSO:


“A Arqueologia do saber” é a tentativa de Foucault de estabelecer alguns argumentos justificadores, é a representação de um balanço da produção até então realizada. (pag. 51).

Se em “As palavras e as coisas” o discurso é considerado pelo autor como a linguagem clássica reduzida à categoria de representação da relação entre coisas e palavras, em “A Arqueologia do saber” adquire outro significado, como categoria de sujeito, onde o discurso é uma prática, política, do sujeito. Acompanhado da tradição vinculada ao pensamento marxiano explicitado em “O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte (Marx e Engels), Foucault entenderá que não são os sujeitos que fazem a história, mas esta faz-se a si mesma por intermédio deles e neles. (pag. 55 e 56).

Também entenderá Foucault que a descontinuidade histórica é função da percepção que os têm de sua ação prática no mundo. Aqui cabe a ressalta a crítica feita por alguns autores à Foucault, pois em “Arqueologia do saber” há a ausência da noção de episteme. O uso estruturalista da categoria de episteme tinha como objetivo estabelecer uma posição singular frente às perspectivas humanistas, que traziam consigo, como um elemento central de seus argumentos, a categoria de sujeito, e essa categoria descrevia as configurações do saber como grandes camadas que obedeciam a leis estruturais, não sendo possível, portanto, pensar a historia das formas de percepção a não ser como rupturas, de certo modo enigmáticas, que ocorreriam a partir de mudanças bruscas de uma episteme para outra. Com a nova obra, fica bem evidenciado o foco no conceito de história, e de uma noção de história que rejeita não somente essa idéia de continuidade do sujeito, mas também de descontinuidade estrutural. (pag. 54 a 56).

Assim, o que se enuncia (discurso) são possibilidades de arranjos que dependem de determinadas relações pré-estabelecidas, já dadas àquele que enuncia. Foucault complementa seu entendimento afirmando que os acontecimentos discursivos, então, apesar de se tornarem fatos históricos no processo de sua enunciação, não estão vinculados exclusivamente ao lugar e ao tempo de sua enunciação, mas sim estão ligados às instituições nas quais se tornam acontecimentos, se tornam eventos. Desta forma, ao adotar em suas obras a categoria de prática (existência objetiva e material de certas regras a que o sujeito está submetido desde o momento em que enuncia um discurso) discursiva, assume a perspectiva de jamais tomar o discurso forma do sistema das relações materiais que o estrutura e o constitui. (pag. 60 a 64).

O saber, então, para Foucault “é aquilo que de podemos falar em uma prática discursiva (...): o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico (...), o espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (...) o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem, se definem, se aplicam e se transformam (...) um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso”. Conclui entendendo que “há saberes que não são independentes das ciências; mas não há saber sem uma prática discursiva definida e, toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ele forma”. (pag. 64 e 65).

Por isso mesmo Foucault não aceita a falsa dicotomia entre ciência e ideologia, pois considera a ideologia como um saber, e o problema da relação é a sua existência (da ideologia) enquanto prática discursiva e o seu funcionamento em relação a outras práticas. Pressente-se então o surgimento do tema do poder relacionado ao saber, pois são as instituições que dão corpo à profissão e esta instância confere ao discurso que se desenvolve em torno dela, e ao individuo que a encarna, poder. (pag. 65 a 67).

Conclui-se a etapa da Arqueologia, com a obra “A Arqueologia do saber”, Foucault pensando a categoria do discurso, e de discurso como prática, empreendendo de fato o balanço de sua produção intelectual, até aquele momento, e dando a senha para a elucidação de seus projetos futuros. (pag. 67).

Obs: Acesse a
terceira parte dos estudos, sobre a Geneologia.

COMO CITAR ESTE ARTIGO:

NOVAES, Edmarcius Carvalho. "Para ler Michel Foucault - Parte 2". Disponível em http://www.edmarciuscarvalho.blogspot.com/ em 23 de fevereiro de 2010.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

PARA LER MICHEL FOUCAULT – PARTE 1


Esta resenha é um estudo pessoal da obra “Para Ler Michel Foucault”, de Crisoston Terto Vilas Boas, (Imprensa Universitária da UFOP:1993).

Ela se justifica pelo interesse acerca do autor analisado por Vilas Boas. Para tanto, utilizo-me da 2ª edição da obra do pesquisador, datada de 2002, em sua forma eletrônica.

Foucault é um dos filósofos da vida social contemporânea mais em voga, notadamente no meio acadêmico, por trabalhar a questão do discurso enquanto detentor de poder nas relações sociais, bem como temáticas polêmicas, sobretudo no campo da sexualidade.

Desta forma, antes mesmo de estudar as próprias obras foucaultinas, por meio de pesquisas deparei-me com esta obra que ora resenho, a qual me dedico a análise, por entender que a mesma irá apresentar-me a possibilidade de realizar uma análise macro a respeito de Michel Foucault e seus argumentos, o que muito contribuirá quando da leitura do acervo foucaultino.

A publicação do estudo da obra de Vilas Boas será disponibilizada neste espaço, em três partes: a primeira abaixo de caratér introdutório, a segunda que trabalhará a arqueologia, e a terceira com a genealogia.


PARA LER MICHEL FOUCAULT - PARTE 1





INTRODUÇÃO:



Para Pierre Bordieu, sociólogo francês, a análise da competência de um discurso se dá por meio de sua ação social, esta entendida como razão de ser e de sua eficácia além de aspectos lingüísticos e correção. A decodificação do discurso é o desvelamento dos horizontes estruturados politicamente construídos num contexto histórico, e a enunciação do discurso propõe o poder como objeto de desejo do discursor. (pág. 9)


Michel Foucault foi uma personalidade intelectual imprescindível para o entendimento da vida social contemporânea. Viveu 58 anos, tendo nascido no ano de 1926 e morrido em 1984. Propôs-se a analisar o caráter compulsivo da relação entre o discurso e poder, visando mostrar que o discurso deseja ser, ele mesmo, o portador do poder. (pág. 10)


A reflexão desta temática pode ser dividida em dois momentos, apresentados em suas obras:


1º momento: Arqueologia (1961 a 1969):


Procura estudar “as ciências do homem”, ou seja, todas as ciências onde o homem é o objeto de estudo. Interessa-se pelo devir histórico, indaga sobre o que torna possível o discurso sobre o que é cientifico ou não, como em uma determinada época é possível afirmar o falso contrariando o verdadeiro, o patológico contrariando o normal, e, o errado contrariando o certo. Em suma, propõe-se articular o ‘discurso da verdade’, analisando questões como: quem diz, como se diz, e, que instituição o diz. (pag. 12)


Suas obras significativas deste período são:
1961 – História da loucura na idade clássica;
1963 – O nascimento da clínica;
1966 – As palavras e as coisas;
1969 – A arqueologia do saber.


2º momento: Genealogia (1970 a 1984):


Essa fase apresenta as “polêmicas e combates” de Foucault. Visa à articulação do discurso enquanto saber, poder e verdade. O discurso tido como verdadeiro, para Foucault, é portador de poder. Desta forma, “o poder não possui uma identidade própria, unitária e transcendente, mas está distribuído em toda a estrutura social e é sempre produzido, socialmente produzido”. (pag. 13).


Suas obras significativas deste período são:
1971 – A ordem do discurso;
1975 – Vigiar e punir;
1976 – História da sexualidade 1: a vontade de saber;
1978 – Herculine Barbin/Diário de um hermafrodita;
1982 – A desordem das famílias;
1984 – História da sexualidade 2: o uso dos prazeres;
1984 – História da sexualidade 3: o cuidado de si.


A obra de Vilas Boas analisa ambos os momentos, sendo que se detêm na Arqueologia às obras: ‘História da loucura na idade clássica’, ‘As palavras e as coisas’ e ‘A arqueologia do saber’, e na Genealogia às obras ‘Vigiar e Punir’, ‘ História da Sexualidade 1: a vontade de saber’. (pag. 15)


Na primeira, ‘Historia da loucura na idade clássica’, Foucault procura analisar a que nível se dá a articulação do ‘discurso da verdade’, desvendando aquilo que torna possível esse próprio discurso, isto é, a episteme (forma que permite o acesso ao conhecimento num dado momento histórico). (pag. 14).


Foucault entende que a episteme é portadora de uma verdade, enquanto produto histórico, relacionando tal verdade com o poder e as instituições. Apresenta que as instituições têm sido qualificadas para determinar que tipo de discurso é verdadeiro ou falso, e que o discurso tido por verdadeiro é articulado por determinadas instâncias de poder e é, a um só tempo, portador de poder. (pag. 14)


Desta forma, Foucault objetiva explicar o modo como se produz a chamada verdade, bem como esta utiliza como recurso a história, propiciando a compreensão dos mecanismos de validação dos discursos da verdade, principalmente os discursos da ciência que tomam a história como ‘norma’ da verdade, ajudando, destarte, a desmontar os argumentos que legitimam as relações entre o poder e a produção da verdade. (pag. 14 e 15).


Tal poder que a verdade detém e a utilização da história como recurso, para Foucault não são elementos de uma vontade de reprimir, como se observa em suas obras do segundo momento – a genealogia – por considerar a existência de algo mais importante do que essa ‘hipótese repressiva’. (pag. 15)

 
Obs: Acesse a segunda parte dos estudos, sobre a Arqueologia.


COMO CITAR ESTE ARTIGO:
NOVAES, Edmarcius Carvalho. "Para ler Michel Foucault - Parte 1". Disponível em http://www.edmarciuscarvalho.blogspot.com em 11 de fevereiro de 2010.