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sábado, 22 de março de 2014

FILOSOFIA MODERNA - KANT E A CRÍTICA DA RAZÃO PURA



O presente texto é uma produção realizada a partir de um fichamento das atividades propostas na disciplina “História da Filosofia Moderna II” do Curso de Licenciatura em Filosofia, que realizo pela Universidade Federal de Lavras. 

Trata-se de estudos sobre partes da obra “Crítica da razão pura”, de Kant (Trad. de Alexandre F. Morujão e Manuela P. dos Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989). Sugiro que antes de ler essa produção, leia mais sobre o Fundamentos da Metafísica dos Costumes de Imannuel Kant. 



O pensamento de Kant sobre Filosofia Dogmática:

Compreendi que Kant caracterizou como filosofia dogmática o tipo de pensamento que propicia a possibilidade do conhecimento a partir da razão. Tal tradição filosófica entende que é pela razão se pode chegar ao conhecimento, o que se dá por duas formas. A primeira utiliza-se da indagação acerca de como é possível se ter o conhecimento. Nesta perspectiva, leva-se em consideração que o conhecimento existe. Só se pode considerar a existência do conhecimento porque é antes de tudo possível tê-lo acesso. O conhecimento, portanto, só é real porque é antes possível de sê-lo conhecido. Parte-se daí a necessidade de se analisar como esse conhecimento se encontra realizado de fato, não se indagando mais sobre sua eventual possibilidade. A segunda forma de se ter acesso ao conhecimento é se indagando se o conhecimento é possível. Nessa perspectiva, ao contrário da anterior, considera-se que ele não existe de fato, e, por tal razão, é preciso antes de tudo, indagar-se sobre sua possibilidade. Resumidamente: na primeira forma de possibilidade do conhecimento a questão é como esse conhecimento se encontra realizado, e já na segunda forma, é se ele realmente existe, haja vista que não há conhecimento realizado a ser considerado, devendo primeiramente saber se ele existe, e não como se pode conhecê-lo. 

Assim, o conhecimento pela filosofia dogmática apresenta como suas características os aspectos lógicos do problema sobre sua possibilidade (onde a lógica precede a realidade) e as variações históricas (que possibilitam analisar se os conhecimentos realizados estão de fato em conformidade com suas possibilidades, o que, no caso positivo, têm-se o conhecimento verdadeiro). 

Nesse sentido, o conhecimento pode se dá tanto a partir dos resultados de um conhecimento que é efetivado, e que, portanto, atesta sua realidade, como também da problemática situação de ausência de resultados. Noutras palavras, o conhecimento pode ser seguro pela ciência – onde há a conformidade entre as possibilidades e resultados efetivados, pois foram preenchidas certas condições lógicas do conhecimento na prática – ou ainda, o conhecimento estar à procura dessa segurança pela ciência. 

Kant aponta que é pela articulação entre conhecimentos reais e suas condições de possibilidades que se podem analisar, de fato, diversos conhecimentos. Sua crítica à filosofia dogmática é justamente porque não há esse espaço para se compreender o que de fato pode a razão e, sobretudo, quais os limites que a razão possui. Para ele, é essencial conhecer os diferentes usos da razão e o que pode a razão, conhecendo seus limites. Assim, para o filósofo, tal conhecimento dos limites da razão assegura o progresso e o desenvolvimento da própria razão, pois parte-se de uma perspectiva que não se acredita que a razão tenha um poder infinito. 

Para tanto, ele analisa três tipos de conhecimento, a saber: lógica, matemática e ciências da natureza, e, metafísica, considerando-os enquanto situações de constituição do conhecimento. A lógica é aquela onde se há total e perfeita constituição do conhecer, pautada por uma ciência que expõe minuciosamente regras formais do pensamento a respeito de um objeto, podendo assim, abstrair o conteúdo do objeto que se propõe conhecer. A matemática por sua vez, se apresenta como uma situação de constituição do conhecimento segura e posta incontestavelmente enquanto progresso, a partir de conhecimentos determinados exclusivamente racionais, a priori, que se difere de determinações empíricas. Por fim, e diferentemente, a metafísica é aquela situação de constituição do conhecimento que não possui um caminho seguro pela ciência, apresentando conhecimentos confusos e que não se encontram realizados, não se permitindo saber como ele se processa, o que, portanto, limita a razão, e se faz necessária uma crítica da razão pura dessa filosofia dogmática, para que possa compreender como é possível o conhecimento cientifico e, sobretudo, quais seus limites. 



A Revolução Copernicana de Kant: 

“Compreenderam que a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem de tomar a dianteira com princípios, que determinam os seus juízos segundo leis constantes e deve forçar a natureza a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta”. (Kant, I. “Prefácio à segunda edição de Crítica da Razão Pura”). 

A revolução copernicana foi a forma encontrada por Kant para resolver a indagação sobre como se pode obter conhecimento seguro e verdadeiro sobre as coisas do mundo, em decorrência de sua suspeita em relação ao principio da causalidade, segundo o qual, não existe nada na causa que contenha relação objetiva com seu efeito, bem como ao afirmar que a causalidade decorre dos hábitos do sujeito e não do próprio mundo. Tal posicionamento é uma forma de responder aos filósofos racionalistas que defendiam uma razão especulativa e produziam uma filosofia dogmática, bem como aos empiristas, para os quais, o conhecimento humano é baseado exclusivamente em experiências sensíveis. 

Kant então classifica o conhecimento que decorre da experiência como um dado a posteriori, pois depende de comprovação prática, e o conhecimento que independe dos sentidos, como a priori, pois se conhece algo sem que haja qualquer evidencia material de sua existência. No primeiro caso, têm-se um juízo sintético, e no último, um analítico. A partir disto, passou a analisar a possibilidade de se ter um conhecimento a priori de questões, e como da observação de fatos particulares se obtém uma regra universal, que seja aplicável em todos outros fatos de natureza semelhante. 

Nesse sentido, Kant propôs uma analogia à teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico para que fosse entendido. Da mesma forma como o astrônomo mudou a teoria, afirmando que os planetas giram em torno do Sol e não o contrário, o filósofo propôs que os objetos seriam regulados pelo sujeito possuidor das formas do conhecimento e não o contrário. Noutras palavras, está no homem a possibilidade de se conhecer todas as coisas, pois possui as regras e dá sentido às coisas do mundo, marcando as formas pelas quais as conhece a partir da capturação das formas logicas existentes no sujeito, e não pela existência de algo transcendente no mundo externo (Deus) ou porque tais objetos estão na mente humana a partir da experiência. 



A separação entre conhecimento empírico e conhecimento puro: a diferença entre a afirmação de que todo o conhecimento tem início com a experiência e a afirmação de que todo conhecimento deriva da experiência. 

Kant, ao produzir a Crítica da Razão Pura, enfatiza que no sentido cronológico, todo o conhecimento começa com a experiência, e isto porque só se adquire conhecimento a partir dos sentidos pelos objetos com os quais o sujeito se depara. Noutras palavras: é pela experiência que se percebe os objetos. 

Dessa forma, o filósofo separou o conhecimento em dois tipos: o conhecimento puro (a priori) e o conhecimento empírico (a posteriori). O conhecimento empírico é aquele adquirido através dos sentidos e daquilo que a cognição lhe adiciona. Por depender da experiência, ele é também denominado “a posteriori”. Já o conhecimento puro é aquele que independe da experiência, e por isso, se dá de forma “a priori”. Essa é a condição para o conhecimento de forma objetiva. 

Em síntese, o conhecimento puro (a priori) ocorre independentemente da experiência e antes dela. O conhecimento empírico (a posteriori) depende, tem origem na experiência. Portanto, existe uma precedência do conhecimento a priori frente ao conhecimento a posteriori, uma vez que, por um lado, o conhecimento puro não depende da experiência para testar sua validade, e por outro lado, o conhecimento a posteriori só tem sua validade atestada pela experiência. É a experiência o fator de diferenciação entre os dois tipos de conhecimentos. 

Ressalto que, a despeito de definir o conhecimento a priori como anterior a experiência, Kant afirma que todo o conhecimento tem inicio com a experiência. Só se produz representações na medida em que a presença sensível dos objetos põe em operação o entendimento. Têm-se aqui dois sentidos de experiência: por um lado, um contato propriamente dito com os objetos, e por outro lado, esse contato, ao por em movimento as estruturas do entendimento, produzindo um objeto da experiência. 



A diferença entre conhecimento empírico e conhecimento a priori: 

Para Kant há uma separação entre o conhecimento a priori e o conhecimento empírico. Aquele independe da experiência, sendo condição para o conhecimento de forma objetiva. Este é aquele adquirido através dos sentidos e daquilo que a cognição lhe adiciona. Em razão disto, afirma ser preciso determinar o que seja de fato esse conhecimento a priori, num trabalho crítico que compreendesse o que é um conhecimento independente de toda a experiência, ou seja, enquanto resultante exclusivo do entendimento, da razão. 

A crítica feita ao empirismo humeano é justamente porque este entende que é pelo hábito que o sujeito estabelece relações entre as impressões e as ideias, sendo estas últimas, generalizações que se apreende da experiência. Para Kant isso não se aplica ao conhecimento a priori, uma vez que este é marcado pela completa independência da experiência. Disto resulta que, diferentemente do conhecimento empírico, onde se pode pensar o contrário daquilo que a experiência fornece sem ser uma contradição, em juízos a priori, isto se torna uma necessidade. 

De igual forma, tal clareza se faz necessária porque o máximo que o juízo da experiência pode fornecer é uma regra geral que abarque tantos casos quantos forem tomados na experiência, ao contrário do juízo a priori, que será sempre universal, se estendendo a todos os elementos sem exceção. 

Assim, conclui-se que para Kant, posto os registros dos juízos a priori, a universalidade e a necessidade são condições de possibilidades e não realidades passíveis de serem constatadas na experiência. Kant pensa, numa necessidade da causalidade, num conhecimento a priori aplicado sobre elementos empíricos. Um conceito puro do entendimento que permite articular os dados fornecidos na experiência, ou seja, são determinantes puros de objetos que serão determinados num conhecimento da experiência. O fundamental é que os conhecimentos puros são anteriores e independentes da experiência. 



A separação kantiana entre juízos analíticos e juízos sintéticos:

Kant, em a “Crítica da Razão Pura”, analisa o valor dos conhecimentos que são racionais, colocando em discussão como se dá o processo humano de conhecimento. Trata-se de tirar o foco do objeto enquanto centro do conhecimento e colocá-lo no sujeito cognoscente. Para tanto, propõe a separação entre juízos analíticos e juízos sintéticos. 

Nesse sentido, para Kant, os juízos analíticos são “... aqueles em que a conexão do predicado com o sujeito for pensada por identidade (...)” (KANT, 1980 p. 27). Noutras palavras, são aqueles que independem da experiência, e por isto, são a priori, o que significa que não podem ser conhecidos, ou não podem gerar conhecimento. Eles esclarecem tais conhecimentos, os elucidam, porém, não os gera, razão pela qual se afirma que nestes juízos, o predicado já está contido no sujeito. 

Já os juízos sintéticos, por sua vez, são aqueles que, contrariamente, dependem da experiência, e, portanto, são a posteriori. Diferentemente dos analíticos, os sintéticos promovem a ampliação do conhecimento, produzindo-os. Kant, por esta razão, denominou-se de “juízos de ampliação”. Ressalta-se, porém, que estes deveriam da experiência, pois não são universais. 



Os princípios das ciências teóricas da razão como juízos sintéticos a priori: 

Kant propõe em a “Crítica da Razão Pura” uma separação entre juízos analíticos e os juízos sintéticos, sendo os primeiros àqueles que não podem ser conhecidos, e os últimos, aqueles que podem ser conhecidos, porém, não são universais. Para sanar as duvidas sobre qual juízo deve-se fundamentar a ciência do conhecimento, Kant propõe que os princípios das ciências teóricas da razão devam ser os juízos sintéticos a priori. 

Partindo da concepção de que objeto do conhecimento especulativo se fundamenta sobre os princípios sintéticos, ressalta que tais princípios sintéticos devam ser, no entanto, a priori, ao afirmar que “aciência se baseia em um terceiro tipo de juízo, ou seja, no tipo de juízo que, a um só tempo, une a aprioridade, ou seja, a universalidade e a necessidade, com a fecundidade, e, portanto a ‘sinteticidade’” (REALE, 2005, p. 357). 

Noutras palavras, Kant assevera uma formulação de um juízo fundante da ciência e do conhecimento, mas que esse seja conhecido e universalizado, qual seja, o juízo sintético a priori, responsável por fundamentar, assim, o conhecimento humano. 

Tal caminho apresentando na concepção kantiana para se fundamentar o conhecimento humano promove uma mudança relevante no campo da teoria do conhecimento, reforçando a revolução copernicana proposta e alterando as análises acerca dos conhecimentos, da forma como o homem pode conhecer. A formulação dos juízos sintéticos a priori possibilitou a compreensão da natureza dos objetos desses juízos, bem como a distinção entre os objetos que podem e os que não podem ser conhecidos pelo homem, o que impactou a tradição metafísica, de um lado, e de outro, contribuiu para a fundamentação dos juízos da matemática e da física e, por conseguinte, das ciências naturais num todo. 



A formulação kantiana de intuições puras como condição para a apreensão de fenômenos: 

A formulação kantiana de intuições puras como condição para a apreensão de fenômenos se fundamenta a partir da análise dos elementos relativos à estética fundamental da Critica da Razão Pura, quando se analisa como se dão as intuições puras e como se dá o condicionamento da intuição pelas estruturas do sujeito. 

Sinteticamente é preciso considerar que, para Kant, pela intuição os objetos são dados, e pelo entendimento são pensados. Tal objeto dado assim o é em relação direta e imediata com o sujeito, ou seja, existe uma intuição imediata desse objeto pelo sujeito. Considera-se, por outro lado, que a conceituação operacionalizada pelo pensamento sempre será uma mediação, uma relação indireta do sujeito com o objeto. 

Pode-se dessa forma concluir que uma intuição é uma relação direta e imediata do sujeito com o objeto, sendo a tarefa da estética transcendental promover a elucidação dessa relação, que aliás se faz presente em todo o conhecimento, haja vista que os objetos, antes mesmo de serem pensados pelo entendimento, precisam passar pela intuição na sensibilidade. Noutras palavras, tem-se que toda intuição ocorre na sensibilidade, uma vez ser a sensibilidade toda a sensação ligada à realidade empírica. Os objetos dados na experiência são representados, e isto porque se aprende a representa-los pela sensibilidade. 

Nesse sentido, a questão da estética transcendental passa pela possibilidade da representação sensível. Para a concepção kantiana a representação sensível é, em principio, constituída de matéria e forma. É por meio dessas instâncias, que são condições de realidade (a matéria) e de possibilidade (a forma) das representações, que se pode compreender a intuição como modo direto de apreensão do objeto. A matéria da representação será o conteúdo dado à sensação, ou seja, a realidade do objeto. Já a forma será a condição de possibilidade por meio da qual essa realidade aparece ao sujeito. Assim, a condição formal ordenará o conteúdo dado da sensação e fornecerá o alcance e a validade da representação. Quando se articula forma e matéria, conhecimento a priori e a posteriori, pode ser encontrado um tipo específico de conhecimento objetivo: o fenômeno, modo como são dadas as apreensões dos objetos aos sujeitos. 

Ressalta-se que na concepção kantiana existe uma diferença entre os termos sensibilidade e sensação. Aquele é a capacidade de receber representações, de o sujeito ser afetado pelos objetos, uma vez que é pela sensibilidade que os objetos podem ser dados ao sujeito, que permite que os objetos sejam intuídos. Já o último é o efeito do objeto sobre a capacidade do sujeito de receber a representação. Assim, a sensação é sempre a posteriori, e sua intuição empírica, podendo-se afirmar que os objetos são dados ao sujeito imediatamente pela intuição, a qual depende da sensibilidade do sujeito, e, portanto, de condições a priori existentes no sujeito, mas que só haverá intuição na medida em que os objetos afetarem o sujeito. 

Se o acesso às coisas em si mesmo é algo impossível ao sujeito, é possível que este tenha delas o seu fenômeno, ou seja, que tenha acesso ao modo como este aparece ao sujeito. É nesse sentido que a concepção kantiana foi fundamental para apontar um novo sentido à sensação, onde o sujeito se faz ativo na constituição dos fenômenos, uma vez que as condições de possibilidade do fenômeno dependem do sujeito. Tal concepção do filósofo colidiu com a concepção tradicional, onde a apreensão sensível passava necessariamente por certa passividade do sujeito, que atuaria somente ao lidar com os conteúdos fornecidos pela sensação. 


O conceito kantiano de espaço: a diferença entre a exposição metafísica e a exposição transcendental desse conceito. 

Ao afirmar que o espaço não é uma propriedade dos objetos que o sujeito capta no mundo, e sim uma intuição a priori presente no sujeito ao possibilitar que este apreenda qualquer fenômeno, numa perspectiva espaço-temporal, Kant apresenta as condições transcendentais da representação do sensível, ou os princípios da sensibilidade, face as dificuldades em separar os conteúdos empíricos dos conteúdos a priori. 

Tal instância transcendental compreende as condições formais, e no caso da estética transcendental, as formas sensíveis dos fenômenos: o espaço e o tempo. Igualmente, entende que estética transcendental é a elucidação da possibilidade de juízos sintéticos a priori, e espaço e tempo são vistos como condicionantes da representação enunciada no juízo. 

Portanto, Kant mudou a questão na tradição filosófica, ao deixar um registro ontológico e ao produzir uma filosofia transcendental, no âmbito das experiências possíveis dos fenômenos, ressignificando espaço e tempo como intuições puras, como condições das intuições sensíveis, a priori e não mais conceitos empíricos abstraídos da experiência externa. Apontou que nas experiências empíricas particulares existem condições de efetuação de relações, dadas pelos conteúdos a priori do sujeito. Ao ocorrem experiências internas, espaço e tempo já se encontram nessas experiências, uma vez serem condições de apreensão dessas experiências pelo sujeito. A própria apreensão de algo externo ao sujeito pressupõe o espaço como condição dessa apreensão. Também por isso, espaço e tempo são representações a priori, necessárias e subjacentes a toda intuição sensível, determinantes a qualquer fenômeno, já que a intuição de algo se dá sempre em algum lugar e em algum momento. De igual forma, espaço e tempo também não são regras gerais de como relacionar conteúdos sensíveis. Não fazem parte da estrutura do mundo, mas permite que o mundo seja estruturado espaço e temporalmente. Esse é o sentido a priori do espaço e do tempo: não são propriedades das coisas nelas mesmas, mas do sujeito que apreendem os fenômenos. 


BIBLIOGRAFIA: 

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. de Alexandre F. Morujão e Manuela P. dos Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.


VEJA TAMBÉM: 




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

FILOSOFIA DA LINGUAGEM VIII - NIETZSCHE: LINGUAGEM E MORAL



"Temo jamais nos livrarmos de Deus posto que ainda acreditamos na gramática.” [§5]. 
(O Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche) 

“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!” (NIETZSCHE, 2009)


Nietzsche inaugura a filosofia contemporânea ao empreender a análise sobre a relação entre a linguagem e moral, concretizando uma crítica radical em relação à metafísica a partir da reflexão sobre a linguagem. 

Para o filósofo alemão o individuo utiliza-se da razão para poder conservar sua própria vida, podendo a partir da utilidade e vantagem social encontrada na razão, superar as adversidades encontradas em sua convivência social. Ao consentir viver em sociedade, o individuo, na concepção nietzschiana tende a um “impulso à verdade”, com o intuito de encontrar parâmetros para construir regras de convivência fixas e estáveis. 

A verdade, portanto, resulta do consenso, assim como a sociedade. Noutras palavras, na perspectiva nietzschiana, a verdade resulta de consensos sociais sobre a significação, onde “a legislação da linguagem fornece também as primeiras leis da verdade” (NIETZCHE, 1999, p. 876). Trata-se de um efeito deste acordo e não algo que se dá por si mesmo, isto é, a verdade “não é revelada pela natureza nem por uma divindade, no sentido bíblico de que ‘no princípio era o verbo’” (BARBOZA, 2011, p. 54).

Nietzsche coaduna com Schopenhauer ao entender que a verdade não é a origem externa de toda a linguagem. Pelo contrário, a verdade sempre requer que haja a intervenção das formas a priori responsáveis por produzir intuições sobre as quais a razão poderá produzir seus conceitos. As palavras – enquanto signos das convenções arbitrárias –, por sua vez, possibilitam que o filósofo produza um posicionamento crítico em relação à pretensão de verdade, sobretudo, da metafísica. Noutras palavras, a linguagem, por meio de sua arbitrariedade, faz com que as palavras e suas significações sejam o efeito de convenções que foram firmadas entre os homens para se relacionar. 

Na perspectiva nietzschiana, a verdade ao se fundar em relações de figurações da linguagem, tem uma característica local, haja vista que ela é fruto de uma série de relações e de convenções, que ao serem utilizadas no interior de um povo específico, e por um longo tempo de uso, aparentam-se enquanto obrigatórias e certas. Todo o conjunto significativo de termos e palavras, portanto, decorrem de um processo de fala, por meio de uma metaforização dupla: uma que é um estímulo nervoso que se transporta para uma imagem, e outra, que faz a transposição da imagem formada em um som, numa palavra. 

A reflexão proposta por Nietzsche sobre o caráter metafórico do conjunto significativo de termos e palavras aponta que a linguagem, mesmo complexa como se apresenta, serve para organizar e criar esquemas baseadas na experiência, sendo assim o conceito nada mais que um “resíduo de uma metáfora”.

Nesse contexto, Nietzsche se iguala a Schopenhauer, pois assinala para um empobrecimento no processo de formação de conceitos, uma vez que o estabelecimento arbitrário da linguagem exclui toda a riqueza que existe na realidade, diminuindo a força das intuições de onde provém.

De igual forma, posiciona criticamente à tradição que se baseia na concepção de que os conceitos são entidades que conseguem dar conta da realidade. Nietzsche entende justamente o contrário, ou seja, que a linguagem, por meio dos conceitos, favorece que tal concepção tradicional seja alimentada, e de tal forma que o indivíduo não consegue dar conta disto. 

Para o filósofo não existe uma adequação entre a realidade e a linguagem. A tradição que sempre foi vista como a base segura para o conhecimento, deveria dar espaço para o fluxo instável do devir e para o próprio ser humano como produtor do seu conhecimento. E isto é a sentença da morte de Deus que Nietzsche propõe: o fim da metafísica. 

Ao vê (Deus) como um engano, aponta para o fim da esperança que existia em fundamentos últimos que possam assegurar a realidade para o ser humano e sua linguagem. De igual forma, aponta para o fim na esperança de se ter estabilidade e regularidade, e de todo o processo de empobrecimento que é o conceito, enquanto violentador da externalização da riqueza que a intuição possibilita ao conhecimento. 

Portanto, Nietzsche ao afirmar temer que a humanidade jamais se livrará de Deus, posto ainda acreditava na gramática, anota justamente a dificuldade do ser humano em compreender que Deus é um conceito produzido tradicionalmente, cuja finalidade é justamente fundamentar a realidade. Sentenciar a morte de Deus – do Ser, da Razão, da Verdade, e de todos os demais conceitos metafísicos – é propor o fim da existência de princípios últimos capazes de produzirem a idealidade do real. 



Mentir não é propriamente não dizer a verdade

A concepção nietzschiana inaugura a filosofia contemporânea ao analisar a relação entre linguagem e moral e ao caminhar para uma reflexão crítica da metafísica, considerada radical. 

O referido filósofo compreende que o individuo utiliza da razão para conservar a própria vida, podendo dessa forma, lidar com as adversidades que existem entre os componentes da sociedade. Após o estado de natureza da concepção hobbesiana, ou seja, após o homem consentir em viver em sociedade, por meio de um acordo que elimine seu estado natural de “guerra de todos contra todos”, o homem tendeu-se nessa aceitação da convivência social, já na concepção de Nietzsche, ao “impulso à verdade”, podendo assim encontrar parâmetros que construam regras para a convivência estável e fixa. 

Isso significa que a verdade, assim como a sociedade, vem de um consenso. A verdade, na perspectiva nietzschiana, resulta de consensos sociais sobre a significação, onde “a legislação da linguagem fornece também as primeiras leis da verdade” (NIETZCHE, 1999, p. 876), ou seja, a verdade é um efeito deste acordo e não algo que se dá por si mesmo, ou seja, “não é revelada pela natureza nem por uma divindade, no sentido bíblico de que ‘no princípio era o verbo’” (BARBOZA, 2011, p. 54). 

Já o seu contrário, ou seja, a mentira, decorre da quebra e/ou da dissimulação do que seja verdade e falso dentro que fora acordado coletivamente. Mentir, portanto, é dar sentido diferente daquele em que se havia consensuado coletivamente. 

Nesse sentido, mentir não é propriamente não dizer a verdade, e sim “não empregar uma palavra conforme a sua regra aceita socialmente”, é subverter as convenções significativas existentes. A mentira denuncia a arbitrariedade da convenção linguística e questiona o valor da verdade. 

Portanto, a mentira, por ser capaz de produzir desacordos e instabilidades nas convenções arbitrárias sob as quais a convivência social se estabeleceu deve ser evitada, e não por porque não possa ser universalizada.


BIBLIOGRAFIA:

BARBOSA, Jair. Nietzsche: Linguagem e Moral. In: Filosofia da Linguagem II. Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2011. p. 53-63.

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira. Tradução de Fernando Barros. São Paulo: Hedra, 2007.


OBSERVAÇÃO:

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina "FILOSOFIA DA LINGUAGEM II" da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA - Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 22/11/2013.


VEJA TAMBÉM:

Filosofia da Linguagem I - O antipsicologismo da Lógica em kant e John Stuart Mill

Filosofia da Linguagem II - A semiótica de Peirce e o Antipsicologismo da Lógica 

Filosofia da Linguagem III - A conceitografia de Frege e o Antipsicologismo da Lógica

Filosofia da Linguagem IV - A teoria das descrições definidas de Russell e o Antipsicologismo da Lógica

Filosofia da Linguagem V - Wittgenstein e os Limites da Linguagem

Filosofia da Linguagem VI - Hume: Linguagem e Experiência

Filosofia da Linguagem VII - Schopenhauer: Linguagem e Mundo

Ética II - David Hume e a Teoria sobre o Sentimento Moral na Filosofia Moderna

terça-feira, 19 de novembro de 2013

FILOSOFIA DA LINGUAGEM VI - HUME: LINGUAGEM E EXPERIÊNCIA



A crítica de D. Hume à linguagem da metafísica: 

A verdade, aparentemente, sempre esteve fundada, na perspectiva do paradigma filosófico platônico-cartesiano, com um elemento ideal suprassensível (ou inteligível habitado por Ideias eternas), capaz de fornecer embasamento ao mundo empírico e suas mudanças continuadas. A investigação humeana, de caráter empirista, questiona e propõe-se a dissolver tal posicionamento, ao desconfiar da razão e da linguagem, não procurando a verdade em algo exterior ao próprio mundo. 

Em sua crítica, Hume parece querer asseverar o fracasso da linguagem metafísica e sua incapacidade de produzir discursos que seriam a última palavra acerca dos fenômenos do mundo, e, portanto, como a verdade e forma de conhecimento que possa discursar sobre realidades para além daquelas fornecidas pela experiência.

O filósofo escocês se baseia na experiência para criticar a metafísica com suas ideias complexas e vazias, pois concebe que tais ideias consistem somente em composições de termos simples, oriundos da experiência. Todas as ideias advêm de impressões e de cópias de impressões, não existindo nada que seja oriundo de um mundo suprassensível, havendo assim uma inadequação entre linguagem e mundo. 

Em sua crítica à metafísica, o cético Hume afirma que o ser possui somente impressões sensíveis – e suas respectivas cópias. Para ele, a imaginação são cópias das impressões sensíveis, seja por meio de sensações externas (dos cinco sentidos) ou de sentimentos (impressões internas). Isso significa que se pode afirmar que existe uma distância ontológica entre um mundo sensível e um inteligível, considerando que os pensamentos são reproduções das impressões sensíveis do ser humano. 

Todo e qualquer pensamento, pretenso como verdade, deriva da experiência, se fundamenta em elementos oriundos da percepção empírica. Nas palavras de Barboza (2011, p. 19), "o pensamento complexo é composto de pensamentos simples, que por sua vez fundam-se sobre sensações e sentimentos"

É nesse sentido que a investigação humeana é uma contraposição ao discurso metafísico, pois afirma ser a experiência o guia e critério de validades para as afirmações. De igual forma, é por isso que se pode afirmar a existência de uma concordância entre o ceticismo de Hume e a afirmação de Bacon ora analisada – sem se preocupar com as posições e teses levantadas por este último.

Bacon, ao defender uma razão instrumental, faz a alusão ao quadro para afirmar que a ideia da imagem é recorrente na Filosofia. O quadro, enquanto aquilo que reflete e apresenta algo é um simulacro, uma vez que enamorar-se de uma imagem seria erro no que tange ao seu estatuto, já que o quadro apenas representa aquilo que foi projetado, ou seja, a coisa real, se perdendo a coisa real de vista. De igual forma seria a busca pela verdade por meio de objetos que absolutamente não podem ser experienciados, ou que se busque num falacioso “mundo do além”, como propõe o paradigma filosófico platônico-cartesiano ao discursar sobre questões de fato concernentes aos objetos do mundo.



Os princípios de associação de ideias:

Hume realiza uma critica a qualquer possibilidade de metafísica como estilo de discurso que favoreça o suprassensível e seus objetos em detrimento da experiência. Não concebe, portanto, que a verdade seria suprassensível e que seria apreendido pelo mero pensar e pela linguagem pura, sem embasamento empírico. Na investigação humeana o ser humano possui limites em seu entendimento, “pois não podemos conhecer para além do que nos é dado”. (BARBOZA, 2011, p. 22).

Nesse sentido, as ideias, os discursos, as palavras e frases decorrem da associação de ideias, que se processam segundo certas normas. O mesmo vale para a imaginação e para a memoria, responsáveis pela capacidade de retomar e reinvocar as impressões e sensação. Não existe possibilidade de acontecer encadeamentos argumentativos de forma aleatória, uma vez existir uma maneira correta de se conectar as impressões e as memorias.

Para o filosofo escocês não se pode distinguir os níveis de verdade entre discursos, nem diferenciar o discurso verdadeiro da mera retórica, uma vez que tais instâncias variam apenas em grau de assentimento, já que as mesmas se valem de ideias e pensamentos que surgem da impressão.

Isto ponto, tem-se que as conexões das ideias para Hume é uma critica a qualquer estilo de metafisica e de discursos sobre o suprassensível. São considerados como os três princípios de conexão das ideias a semelhança, a contiguidade, e a causa e efeito.

A semelhança diz respeito à possibilidade de se procurar o original a partir de uma cópia. A contiguidade refere-se à circunstância ou estado daquilo que se é próximo, adjacente. E a causa e efeito, remete-se a causalidade entre um evento A (considerado causa) e um segundo evento B (considerado o efeito), onde o segundo evento seja uma consequência do primeiro. Tais princípios se relacionam com a linguagem na medida em que as ideias, por meio de conexões (em seus diferentes tipos) foram discursos, ou seja, associam as ideias, o que explica o pensamento e suas externalização pela linguagem.


BIBLIOGRAFIA:

BARBOSA, Jair. Hume: Linguagem e Experiência. In: Filosofia da Linguagem II. Florianópolis: Filosofia/EAD/UFSC, 2011.

HUME, David. Tratado da natureza humana. Tradução de Déborah Danowski. São Paulo: Ed. Unesp, 2004.

sábado, 31 de agosto de 2013

FILOSOFIA DA LINGUAGEM V - WITTGENSTEIN E OS LIMITES DA LINGUAGEM



Wittgenstein se interessou pela Filosofia da Linguagem pelas obras de Russell e Frege. Foi aluno de Russell, e escreveu seu único livro em vida, o “Tractatus”. Além da critica de Russell e Frege, aponta a ideia de que a língua é uma figuração do mundo. Ele diz que o mundo não é feito de objetos, e sim de estados de coisas, de fato. No caso, tudo que ocorre, não só de objeto, mas do que liga os objetos, e constitui o estado de coisas. É possível representar, figurar, o mundo de certa maneira. Se como é feito no pensamento e exprimido na linguagem e essa figuração corresponde às coisas estão na realidade, essa figuração é verdadeira, se não é falsa. É possível figurar estados de coisas, como os objetos estão relacionados, não se podendo descrevê-los, mas somente nomeá-los e pode-se fazer isso em diversas linguagens: anotação musical, a física, matemática. A lógica organiza essas representações, mas não é possível demonstrar como a linguagem figura o mundo, porque pra isso usaria a própria linguagem.

Há um problema aqui. Será que é possível mostrar como as coisas estão no mundo? Sim, usando uma linguagem qualquer. Será possível mostrar qual é a relação que a linguagem estabelece com o mundo usando outra linguagem? Não é porque a linguagem significa, representa, demonstra o mundo pela sua forma, assim como as coisas na realidade, a linguagem representa os signos individuais, assim como os objetos estão no mundo. Se eu usar outra linguagem tenho que usar a mesma forma lógica que espelha a forma como as coisas estão no mundo. Outra linguagem teria uma mesma forma, e todas as linguagens podem ser reduzidas a uma mesma forma logica, e por isso não é possível mostrar, representar, figurar, só mostrar, mas não dizer. Essa diferença entre dizer e mostrar como a linguagem significa o mundo está na base de uma ontologia do Tractatus, sendo diferente das propostas dos outros autores, mas tem algo em comum a ideia da forma como possibilidade da estrutura, a forma da linguagem, do objeto, do mundo que possibilita a estruturação significativa.




PREFÁCIO:

“Talvez este livro somente seja compreendido por quem já tenha cogitado por si próprio os pensamentos aqui expressos, ou ao menos cogitado pensamentos semelhantes. Não é, pois, um manual. Terá alcançado seu objetivo se agradar a quem o ler com atenção. Trata de problemas filosóficos e mostra, creio eu, que o questionar desses problemas repousa na má compreensão da lógica de nossa linguagem. Poder-se-ia apanhar todo o sentido do livro com estas palavras: em geral o que pode ser dito, o pode ser claramente, mas o que não se pode falar deve-se calar. Pretende, portanto, estabelecer um limite ao pensar, ou melhor, não ao pensar, mas à expressão do pensamento, porquanto para traçar um limite ao pensar deveríamos poder pensar ambos os lados desse limite (de sorte que deveríamos pensar o que não pode ser pensado). O limite será, pois, traçado unicamente no interior da linguagem; tudo o que fica além dele será simplesmente contra-senso.” 

[L. Wittgenstein, prefácio ao Tractatus Logico-Philosophicus.] 



O filósofo inglês Ludwig Wittgenstein, em sua única obra “Tractatus”, apresenta um discurso sobre o inefável, um discurso que é, por essa razão, sem sentido, apontando claramente um contrassenso, de forma consciente. Por meio de aforismos, o filósofo deseja demonstrar como a linguagem significa o mundo. Para tanto, a linguagem que é analisada, é utilizada, o que faz tal tarefa se tornar impossível, bem como concluir que dizer o mundo não é possível, podendo-se tão só mostrá-lo. 

Por ser o mundo “místico”, não podendo ser descrito pela linguagem, Wittgenstein conclui então que toda a tarefa filosófica de dizer o que mundo recai naquilo que a ciência já o faz, isto é, mostrar o mundo, sendo, desta forma, inútil o fazer da filosofia. Compete à filosofia, como única atividade legitimamente possível para o autor, tão só esclarecer contrassensos das afirmações sobre a vida e o mundo, o que não é o real papel filosófico em sua perspectiva tradicional. Nesse contexto, à filosofia cabe somente se silenciar e agir, mostrando o mundo, não tentando dizer o que não se consegue dizer, e sim tentando mostrar o que há de mais importante de ser mostrado no mundo.

A síntese do livro é a análise das relações de expressão existentes entre a linguagem e o mundo, sendo a partir disto possível analisar os problemas filosóficos tradicionais. Seu objetivo principal passa pelo delineamento dos limites que o pensamento possui. Para tanto, parte de um método que não é a delimitação do domínio do verdadeiro, como pensava Frege, nem os limites das proposições que tem sentido, como pensava Russell, mas sim apontar os limites do interior dos quais a linguagem adquire sentido, bem como apreender a definição de uma proposição, do que seja o pensamento, que é expresso numa proposição e qual o mundo que é representado por ela.

A partir de aforismos, o filosófico inglês aponta que “o mundo é a totalidade daquilo que efetivamente acontece, dos casos reais, dos fatos”. Já os estados de coisas são explicados a partir da noção de objeto, que são simples, ou seja, “são o que há de mais elementar nos fatos e configuram a substância do mundo”. (RODRIGUES, 2013, p. 68-69). 

A ideia principal do livro é que os elementos da proposição são articulados de forma lógica, por meio dos elementos do fato figurado (uma figuração é uma imagem, que por sua forma, tem uma forma possível de articulação entre os objetos, apontando para uma situação possível, que pode ou não existir de fato, na realidade, no espaço lógico das possibilidades). Isso significa que há uma semelhança entre as relações dos signos e as relações entre os objetos (substancia do mundo, que em si é fixa e invariável, e que pode se configurar com os objetos que se relaciona de diversas formas). Nesse sentido, compete à lógica definir toda e qualquer possibilidade de representação da realidade, por qualquer meio específico de simbolismo.

O mundo e o pensamento mutuamente se espalham, já que são lógicos. A linguagem, por sua vez, como espaço onde se emprega a lógica em proposições singulares, espelha e delimita toda a possibilidade de pensamento, ou seja, de toda a realidade, sendo essa a primeira delimitação do pensamento: o mundo só pode ser figurado pela linguagem na forma lógica, na forma de figuração (na linguagem ou no pensamento), onde seus elementos estão articulados. Isso significa que os pensamentos e as proposições são figurações do mundo, já que uma coisa só pode ser possível, ser pensável, se poder ser expressa por alguma linguagem, ser figurada de alguma forma lógica. Uma preposição que tenha sentido é aquela que tem uma forma lógica, ou seja, que aponte “sua concordância e discordância com as possibilidades de existência e inexistência de estados de coisas” (WITTGENSTEIN, 1993).

A partir disso, o filósofo de Viena conclui que os limites do que seja dizível dão os limites do pensável, sendo os limites do dizível inefáveis, não podendo assim ser ditos, somente mostrados. Por tal razão, a filosofia apresenta-se como “um mau uso, um uso deficiente da linguagem que engendra pseudoproblemas e pseudo-proposições, as quais são desprovidas de forma lógica e não determinam possibilidade alguma”. (RODRIGUES, 2013, p. 75).

O sujeito, portanto, tem a posição de um limite do mundo, na medida em que, de acordo com suas crenças e valores, passa a ver a vida e o mundo. Porém, como existem diferentes crenças e valores, é possível, portanto, descrever o mundo (que é só um) de diferentes maneiras, usando diferentes linguagens. Porém, todas as crenças e valores são indescritíveis, sendo somente possível mostrá-los. 

Assim, pode-se concluir que:

a) Os limites da linguagem e os limites do mundo não igualam a linguagem e mundo. Por meio da linguagem, se dá significado ao mundo, mas a linguagem não é o mundo. Assim, os limites do mundo vêm dos limites da linguagem, e não o mundo que diz ou significa a linguagem. Cabe à linguagem dar significado aos limites do mundo, dando sentido, descrevendo-o. É uma figuração do âmbito de possibilidades, descrevendo os limites da figuração das possibilidades de verdade e falsidade.

b) Os limites da linguagem significam os limites do mundo. A linguagem enquanto própria do sujeito metafisico, fixa os limites do mundo, limitando-o ao próprio sujeito. Assim, “só o sujeito dá sentido ao mundo e o mundo só existe para ele na medida em que pode ser por ele significado”, ou seja, “o mundo, para cada sujeito, está restrito ao que faz sentido dentro da linguagem que cada sujeito domina” (RODRIGUES, 2013, p. 76).

c) Na análise da natureza da lógica, o filósofo estabelece que o que é comum entre a linguagem e a realidade é a forma lógica, a qual não se pode e não se deve falar, ou melhor, não é possível falar, pois para tanto, é preciso usar a linguagem para poder falar sobre ela mesma, utilizando a forma lógica para descrever a si mesma, o que é impossível para os sujeitos, que são partes do mundo de outros sujeitos mutuamente, não sendo possível uma existir metalinguagem para tanto, ou seja, não é possível alguém “se colocar fora de toda e qualquer perspectiva e assumir o ponto de vista superior, divino, fora de linguagem e do mundo”. (RODRIGUES, 2013, p. 77).



REFERENCIAS:

RODRIGUES, Cassiano Terra. Filosofia da Linguagem I: Guia de Estudos. Lavras: UFLA, 2013, p. 68-73. 

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Introdução de Bertrand Russell. Tradução, apresentação e ensaio introdutório de Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: EDUSP, 1993.


OBSERVAÇÃO: 

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina “FILOSOFIA DA LINGUAGEM I” da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA – Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 31/08/2013.


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sábado, 24 de agosto de 2013

FILOSOFIA DA LINGUAGEM III - A CONCEITOGRAFIA DE FREGE E O ANTIPSICOLOGISMO DA LÓGICA




Frege é analisado em dois pontos: a concepção das leis da lógica como leis descritivas, do ser verdadeiro, e, portanto, é uma ciência que não se confunde com a psicologia pela natureza da sua investigação, que descreve o que é ser verdadeiro e distingue o verdadeiro do falso, não se atenta a como pensamos e nem os atos de pensamento de alguém, mas descreve as leis eternas e imutáveis do ser verdadeiro e a partir disso têm-se prescrições, normas, para julgar, ajuizar, afirmar, negar se uma coisa é ou não é. Pela descrição do ser verdadeiro pela lógica podemos tirar normas para dizer que uma coisa é ou não é verdadeira, ou falsa, se corresponde ou não aos fatos, e por isso, distingue-se da psicologia nesse sentido. 

O outro ponto é o escrito “O Pensamento” com uma filosofia da linguagem que incide, que a partir da logica como ciência do ser verdadeiro, pode investigar e como se pode tirar daí normas para julgar, pensar, raciocinar e fazer silogismo, e surge toda uma filosofia da linguagem, dos atos de fala, e uma investigação do pensamento, do que seja o pensamento e estabelecer um âmbito objetivo, não redutível às representações mentais que possibilite a comunicação, a intersubjetividade. A expressão do pensamento pela linguagem, onde a linguagem natural exprime o pensamento, mas o exprime com diversas colorações, que são importantes para a poesia e comunicação cotidiana, mas para exprimir o pensamento é preciso de uma linguagem formal, precisa, sem ambiguidade e colorações, que é o projeto de conceitografia fregeniana. 




PREFÁCIO À CONCEITOGRAFIA

“Se uma das tarefas da filosofia for romper o domínio da palavra sobre o espírito humano, desvendando os enganos que surgem, quase que inevitavelmente, em decorrência de utilizar a linguagem corrente para expressar as relações entre os conceitos, ao liberar o pensamento dos acréscimos indesejáveis a ele associados pela natureza dos meios linguísticos de expressão, então minha conceitografia, desenvolvida sobretudo para esses propósitos, poderá ser um valioso instrumento para os filósofos. Por certo, ela também não reproduz as ideias de forma pura, já que isto não é possível quando as ideias são representadas por um meio [de expressão] exterior [à inteligência]. O que é possível, por um lado, é confinar tais discrepâncias [ conceitográficas] ao inevitável e ao inofensivo e, por outro, por estas diferirem daquelas [discrepâncias] que são próprias da linguagem corrente, elas nos protegem da influência unilateral de um meio particular de expressão.” [G. Frege, prefácio à Conceitografia. Em: Lógica e Filosofia da Linguagem, p. 47]. 


A CONCEITOGRAFIA DE FREGE E O ANTIPSICOLOGISMO DA LÓGICA

Assim como Peirce, Frege continua no tema do antipsicologismo para se analisar a Lógica. Em “Fundamentos da Aritmética”, o autor encara o dilema de saber o que é um número sem realizar uma análise empírica ou psicologista, mas sim compreendendo esse conceito fundamental numa perspectiva lógica, enquanto fundamento da aritmética. Nessa análise, ao se deparar com a constatação de que os conceitos matemáticos não se formam subjetivamente, Frege procura desenvolver uma análise que atinja, com maior rigor e exatidão, uma teoria dos números. Nasce assim, seu projeto de fundamentação lógica da aritmética por meio de uma construção de uma conceitografia.

A conceitografia é, portanto, uma linguagem simbólica logicamente exata. Para o filósofo, a linguagem se fundamenta no conhecimento científico, e analisando a forma da linguagem pode-se apreender o pensamento possível. Isso significa que os pensamentos não estão nas pessoas, e não são produzidos pelas pessoas, mas sim, são captados e apreendidos pelas pessoas, uma vez que as pessoas podem pensar, julgar e asserir tais pensamentos. Para que tais pensamentos não sejam intencionados segundo as subjetividades dos sujeitos da enunciação, é preciso exprimi-los exatamente e sem ambiguidades, por meio de uma linguagem formular que seja perfeita, inequívoca e logicamente rigorosa, e que, portanto, aponta a forma lógica do pensamento em si.

Mesmo enfrentando os filósofos empiristas, Frege destaca que a conceitografia tem por escopo possibilitar essa análise lógica, ao eliminar recursos de intuição e impressão sensorial, o que dessa forma, possibilita que os números sejam demonstrados dedutivamente e não indutivamente. Nessa discussão da conceitografia, o filósofo ainda aponta que o objetivo de seu projeto é ser um melhor método de prova da verdade, pois se utiliza uma linguagem simbólica, absolutamente formal, podendo expressar a maneira mais geral e exata de inferência do pensamento. Caso isso não ocorra, corre-se o risco de cair no psicologismo, onde a verdade não se eleva, mas sim as representações do pensamento humano enquanto definição do conceito. 

Para o autor, o psicologismo, em nada contribui para formular os fundamentos da aritmética ou para a expressão lógica dos conteúdos judicativos. O que equivale também à historicidade das representações de uma verdade, própria do psicologismo, uma vez que a verdade alcança pela conceitografia apresenta-se de forma constante e fixa, garantindo o conhecimento, apartado do “fluxo constante de todas as coisas”, como ocorre nas representações psicologistas.

Tem-se assim que o projeto de Frege com a conceitografia visou simplificar a aritmética, apontando para seus princípios fundamentais de forma a reduzi-los a certo numero definido de noções lógicas. 

Rodrigues (2013, p. 37) preleciona como sendo os princípios da conceitografia:

1. Separar precisamente o que é propriamente psicológico e subjetivo do que é lógico e objetivo;

2. Só tentar uma elucidação da significação ou do significado de um conceito no contexto de sua proposição ou sentença em que o conceito aparece, não o tomando isoladamente sem relação com outros;

3. Distinguir entre o conceito e o objeto. 

Partindo de tais princípios, tem-se que Frege concebe a lógica como uma ciência prescritiva, ou normativa, já que ela descobre as leis de todo o pensamento verdadeiro. Seu objeto é o ser verdadeiro, ao buscar estabelecer quais são as leis que o descrevem e pelas quais ele se regula. Isso significa que tais leis não descrevem como se pensa, mas sim como se deve pensar ao se quer sustentar a diferença entre algo que seja verdadeiro ou falso.

As leis da lógica se diferenciam, portanto, das leis psicológicas dos processos mentais, justamente porque aquelas visam estudar a estrutura dos conceitos, o que eles são e do que são. São normativas justamente porque indicam as condições necessárias para o ser verdadeiro, descrevendo-o, de forma independente, para se tirar prescrições para asserir, julgar, raciocinar de forma correta, diferentemente das prescrições normativas da psicologia, que consideram como verdadeiro aquilo que vale em conformidade com certos hábitos ou padrões do pensamento.

As verdades logicas independem de qualquer ato de pensamento efetivo. Sua finalidade é estudar as condições para se asserir o verdadeiro e o falso, independentemente de contingencias, razão pela qual as verdades lógicas possuem o caráter de serem universais e necessariamente válidas, já que não se importa com quem as pensa, nem como as pensa, não necessitando também de serem justificadas. 

Nesse ponto está a fundamentação da crítica de Frege ao psicologismo, ao explicitar dois de seus equívocos. O primeiro diz respeito ao psicologismo não conseguir diferenciar atos de juízo de conteúdos judiciáveis. O segundo, à confusão entre o domínio objetivo e o subjetivo existente quando o psicologismo reduz tudo (o ser e o ser representado) às suas meras representações. A fundamentação fregeniana está ao apontar que conhecer algo é apreender seu conceito, e não representa-lo por meio de objetos externos. Não é explicar o processo, mas explicitar o que se conheceu, independentemente de conteúdos representacionais próprios da consciência. 

A crítica ao psicologismo é que ele confunde o objetivo com o subjetivo, fazendo com que as representações (subjetividades mentais) fiquem imanentes somente na mente do sujeito empírico que as cria, impossibilitando que outras pessoas tenham, portanto, acesso ao conhecimento. Em razão disto, Frege postula o domínio do objetivo não-efetivo da verdade, o domínio do ciência da lógica, do pensamento, que é uma verdade que todos tem acesso, negando a subjetividade e o acesso à verdade por meio de representações, bem como negando o acesso à verdade por meio da correspondência entre representado e representação da análise subjetiva de objetos particulares. 

Nessa recusa à representação da verdade por meio da análise subjetiva entre a correspondência do representado e sua representação, Frege destaca a necessidade de se pesquisar a verdade passando pela pesquisa da linguagem, ou seja, saindo do nível discursivo e avançando para o nível semântico, seu sentido sentencial, já que por meio dele é que se pode qualificar o pensamento. Isso significa que o pensamento é o sentido expresso pela sentença, é tudo que pode ser qualificado como verdadeiro ou falso. Assim, tem-se que nem todo sentido sentencial corresponde a um pensamento, mas que todo o pensamento pode ser expresso como um sentido sentencial. O pensamento é, dessa forma, perceptível pelo sentido sentencial, que é distinguido pelo suporte empírico da linguagem, o que aponta para a dificuldade de que, nem sempre, a forma linguística consegue traduzir tal pensamento.

Portanto, tem-se assim que a conceitografia é uma linguagem simbólica logicamente exata, já que pela linguagem se fundamenta o conhecimento cientifico, e pela sua forma (da linguagem), é que se torna possível apreender o pensamento.


REFERENCIAS:

FREGE, Gottlob. Os Fundamentos da Aritmética. Tradução de Luis Henrique dos Santos. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

RODRIGUES, Cassiano Terra. Filosofia da Linguagem I: Guia de Estudos. Lavras: UFLA, 2013, p. 34-48.


OBSERVAÇÃO: 

Este texto é um resumo que produzi com o material de aula de disciplina “FILOSOFIA DA LINGUAGEM I” da Graduação em Licenciatura para Filosofia da UFLA – Universidade Federal de Lavras EaD Campus Governador Valadares, produzido em 24/08/2013.


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