sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DIVAGAÇÕES DE UMA SEXTA-FEIRA 13


Chego agora a mais um final de semana. Cansativo, muito trabalho: muitos processos de concessão de benefícios analisados, atendimentos feitos, reuniões e suas deliberações, ofícios a perder de vista, preparação de aula e organização de cronograma de todas as minhas atividades profissionais até o ultimo dia do ano, ensino sistemático no início de um curso com muita teoria tentando fazer com que meus alunos compreenderam a construção histórica de uma espécie de linguagem e de movimento social, assistir aula do MBA de Administração Pública e de Direito Público sobre Súmula Vinculante, ler vários artigos a respeito. Cruzes. Tô morto.

Aí me deparo com um detalhe, hoje é Sexta-feira 13. E o pior – ou melhor, sei lá – de um mês de agosto, o mês do azar. Aí me lembro das superstições populares: não passar debaixo de escadas, não passar perto de gato-preto. Acho tudo isso muito engraçado. Saber que ainda existem pessoas tão ignorantes, no sentindo de simplicidade, que ainda acreditam nessas lendas e as repassam por gerações, provocando medos e práticas no ambiente em que vivem que mais parecem com as estórias de novelas.

Na verdade essa data me fez pensar sobre o que tenho medo, de verdade. Não medos de superstições, até porque não as tenho. Medo em relação à vida e as coisas que podem acontecer, tenho alguns:

1. Da forma da morte: Não temo a morte. Acho, aliás, que deve ser uma experiência sensacional morrer. Poder ter certeza absoluta – e prática – de que o que se crer é verdade por ter acontecido ou não, caso chegando do lado de lá, as coisas sejam totalmente diferentes do que se acreditou por aqui. Mas alguns tipos de morte me assustam, como as provocadas por doenças fatais, aquelas que deixam a pessoa na cama. Assassinato, estrangulamento, queimado, afogado. Não gostaria de morrer assim. Aliás, se eu puder escolher, queria morrer dormindo. Deitar e não mais acordar, pegando a todos de surpresa e sem ter passado por sofrimento.

2. Da morte de pessoas da minha família: Até hoje apenas uma pessoa mais próxima a mim já morreu. Era meu avô materno. Via-o todo o santo domingo, e o não santo também. A sensação foi horrível. Hoje, após quase três anos, a dor da ausência já se atenuou e ficaram na memória todos bons momentos vividos e os ensinamentos aprendidos, mesmo que alguns, hoje, não vividos. Mas saber que pessoas que eu amo de uma forma especial podem, a qualquer momento, vir a morrer, me traz medo. O medo do incerto, do que isso provocará, da força da ausência dessas pessoas. Por isso concordo com o artista que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, realmente não há.

3. Da insensibilidade com a dor do próximo: Tenho medo de um dia parar e me ver insensível. De perceber que o sofrimento alheio já não me incomoda, já não me tira o chão, me deprime, como faz hoje. Sei que ando a cada dia me posicionando racionalmente. Tenho me visto às vezes muito técnico, muito profissional, muito neutro. Não quero perder a sensibilidade, a coragem de chorar quando algo me trouxer essa vontade, seja por sofrimento próprio ou alheio. Quem me conhece sabe que sou muito intenso em tudo que faço. Não sei ser meio sentimental. Acredito sempre no que faço, nas pessoas que decido amar, e sofro por isso. Encontrar o equilíbrio sem perder essa sensibilidade é meu ideal.

4. De ter passado pela vida das pessoas com as quais convivi e não ter feito diferença: Acho sinceramente que não transitamos a esmo nas vidas das pessoas. Todos podemos, mesmo que seja de forma pequena, deixar algo de bom no coração das pessoas. Saber que pude ser um bom ouvinte, um bom conselheiro, amigo para rir ou chorar, para amar, acarinhar, para ensinar, para aprender. Não estamos sozinhos na vida. Apesar de ser em muitos momentos racional, não consigo imaginar a existência humana levada ao acaso. Há algo muito maior, que no tempo certo, entenderemos.

5. De ser mal educado, grosso, estúpido com as pessoas: Isso realmente me preocupa. Não sei ser mal educado, prefiro sofrer a ponto de explodir por dentro, mas não consigo explodir com as pessoas, mesmo que eu tenha todos os motivos para tal. Quando criança, aprendi isto com meus pais e é algo que quero levar pro resto da vida. Mas isso não significa que eu goste ou aceite ser mal tratado pelas pessoas. Saber se posicionar quando isso acontece, principalmente utilizando-se da boa educação como prova de que podemos ser superiores é uma arte, que tento sempre exercitá-la.

6. De perder a alegria de viver: Alguns momentos da minha vida com seus 25 anos não foram fáceis. Acho que já passei por poucas e boas. Não me vitimizo e nem gosto que me vejam assim. Mas em todos eles - ou quase todos - não perdi a vontade de viver. Eu acredito que todos têm o direito de viver e também o direito de morrer, quando a vida já não tem sentido. Viver com vontade de morrer não deve valer a pena. Só de pensar nisso, me provoca muito medo.

7. De viver a velhice infeliz: Não quero sofrer na velhice. Aliás, nem muito velho quero ficar. Acho que 70 anos são ideais. Meu medo de depender totalmente das pessoas, de medicamentos, de instituições de longa permanência, de perder a memória, não reconhecer as pessoas. Isso me dá muito medo.

Fora estes, existem outros, como violência, de governos ditatoriais, da pobreza, desemprego, invalidez, falta de saúde, etc. Nessa data em especial escada pra mim pouco importante, gato preto se chegar perto eu pego, abraço e se bobear, adoto. Mas como lendas são importantes, nem que seja pra divertir, viva a sexta-feira 13 do mês de agosto, sem medos.

Pra encerrar a semana de forma divertida e essa postagem mais sombria ainda fique com Zé Ramalho e seu sucesso Mistérios de Meia-Noite.

Um comentário:

  1. Belo texto!
    A gente só não pode ter medo de viver, os resto é bobagem.

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